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CAPITULO 2 ASPECTOS RELEVANTES DO SETOR PRODUTIVO

2.1.2 Os moinhos

Os moinhos, principais fornecedores de matérias-primas para as padarias, são as unidades industriais onde o trigo é transformado em farinha e farelo. Eles recebem o grão e realizam a pré-limpeza: retirada de impurezas como pedras e ferro. Em seguida, separam o trigo de acordo com a quantidade de proteína contida em cada tipo e o limpam novamente. Molham e o deixam em repouso por 24 a 36 horas, para então realizar mais uma limpeza. Depois é feita a moagem, com a passagem dos grãos em cilindros laminadores. A partir daí, peneira-se e separa-se a farinha do farelo, que é então ensacada e, no caso da venda a granel, colocada em silos.

Ao longo das décadas de 50 e 60, o governo passou a ser o único vendedor de trigo- nacional e estrangeiro – aos moinhos, assumindo todas as despesas de comercialização e estocagem. Fixou os preços de venda do grão e de seus derivados e criou cotas de trigo aos moinhos, dependendo da demanda de cada região. A extração de farinha e a quantidade de misturas utilizadas também eram controladas. As cotas foram inferiores à capacidade instalada, provocando uma ociosidade de 65% e um intenso comércio de cotas entre os moinhos.

Novos moinhos só poderiam ser abertos com a autorização do Departamento do Trigo, responsável também pelo deslocamento das empresas dentro do território nacional e pela retirada da autorização para funcionamento a quem não cumprisse suas cotas. Grande quantidade de pequenos moinhos foi desativada; em 1967, existiam 386, ante 179 em 1989. Em 1983, alguns receberam cota de 2 toneladas ao dia mas a capacidade de moagem se manteve praticamente inalterada, em torno de 6,9 milhões de toneladas, ainda que, com o aumento do consumo, incentivado pelos subsídios, a ociosidade tivesse diminuído ano a ano. No Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, em 1967 existiam 2 mil moinhos coloniais, de caráter familiar, que foram proibidos de comprar, moer e vender derivados do trigo após o Decreto-Lei nº 210.

Os principais objetivos do governo foram alcançados, como o abastecimento regular dos produtos, a ampliação da capacidade de estocagem de cada moinho, a diminuição do número de estabelecimentos e, sobretudo, a estabilidade dos preços ao consumidor. Contudo,

os gastos do governo com o financiamento de todo o esquema contribuíram para os déficits orçamentários, e a proteção artificial do setor acabou impedindo sua modernização.

Até 1989, com a demanda e o lucro garantidos, incentivo à compra de trigo nacional, proteção contra a entrada de novos concorrentes e falta de estímulo para investir em qualidade, o setor moageiro caminhava em sentido contrário ao de todas as tendências mundiais de abertura, globalização dos mercados e preocupação com a qualidade dos produtos.

Em 1990, com a liberalização da economia, o sistema de cotas foi substituído por uma política de preços mínimos elevados e as importações foram liberalizadas. Os moinhos começaram a comprar o trigo diretamente, tanto do mercado interno quanto do externo. As tarifas de importação caíram do Mercosul. Apenas no começo, como o governo ainda tinha o grão estocado, vendia para os moinhos e realizava leilões.

Logo após a desregulamentação, o número de moinhos aumentou para 250 em 1991, quando várias unidades pequenas e médias voltaram a operar na esperança de conseguir trigo mais barato no mercado, segundo estudo do IPEA/UFRJ. Novas empresas também foram abertas, já que o controle governamental sobre a ampliação da capacidade instalada do setor tinha terminado. A grande maioria das empresas da indústria moageira tem capital nacional.

Segundo Colle (1998, p. 45), a desregulamentação obrigou os moinhos a aumentar a qualidade e diversificar os tipos de farinhas produzidas. Atualmente, além da comum e da especial, existem vários tipos de farinhas, cada uma delas com características diferentes para cada tipo específico de produto final. Essa tendência de diversificação é importante para a triticultura nacional a partir da necessidade de determinadas matérias-primas. Com a possibilidade de expansão da cadeia produtiva pela disponibilidade de produtos no mercado, ampliam-se as relações inter-setoriais e abre-se espaço para relações contratuais entre os produtores e a indústria. Com isso, cria-se um novo mercado para parte do trigo brasileiro.

De acordo com o mesmo autor, no Paraná, no plantio da safra 1998, alguns moinhos passaram a financiar o cultivo do trigo junto aos produtores e em contrapartida ficaram com a produção.

Segundo Stein apud Colle (1998, p. 47), a verticalização no segmento moageiro não é uma tendência mundial, más, no Brasil, poderá estar ocorrendo, na medida que aumenta a concentração da indústria moageira. Estas indústrias mais capitalizadas e competitivas podem transferir investimentos para as áreas que permitam agregar valor e, com isso, aumentar as margens de comercialização.

O setor moageiro tornou-se o elo mais beneficiado da cadeia produtiva, em virtude do aumento da competitividade implantada. Com a ameaça da farinha importada, o segmento procura aumentar a escala e reduzir custos. Como resultado a indústria de transformação (panificação, massas e biscoitos) possui duas alternativas de aquisição de sua matéria-prima. A primeira é o mercado interno e a outra é a importação de produtos.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o número de moinhos variou muito pouco nos últimos cinco anos, mantendo-se em torno de 200. Em 1998, o total era de 204.

Dos moinhos existentes no País, 75% estão localizados na região Sul, onde o setor é desconcentrado e caracterizado pela presença de pequenos moinhos. Em seguida vêm as regiões Sudeste, com 13,5%; Nordeste, com 7%; Centro-Oeste, com 3%; e Norte, com 3 moinhos.

Em relação à capacidade de moagem, segundo dados da ABTRIGO referentes a 2000, a concentração se dá nos estados de São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro. A tendência é de os grandes moinhos se localizarem juntos às regiões de grande potencial consumidor. Os dois principais grupos moageiros do País, Santista Alimentos, com 12 moinhos, e J. Macedo, com 10 moinhos, detêm 35% da capacidade nacional.

No Brasil consomem-se cerca de 9,05 milhões de toneladas de trigo ao ano e destas, 24% tornam-se farelo que, em parte, abastece a indústria de ração. Os 76% restantes (cerca de 6,9 milhões de toneladas) são destinados a atender os mercados de massas, pães, bolos, doces e biscoitos.

A farinha de trigo, vendida normalmente para o varejo em sacos de papel ou de plástico de 0,5 ou 1 quilo, é encontrada em algumas regiões do País em sacos de 5 quilos.

Para a indústria e panificadoras, geralmente é embalada em sacaria de 25 a 50 quilos ou em big bags, de 1 toneladas.

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