PARTE 4: MONSTRUOSIDADE NA IDADE MÉDIA
7.2 Os monstros também sofrem com a maldade humana
Os monstros nos rodeiam. Porém o monstro tratado aqui, não será uma metáfora do maldade, de um mal que está em toda parte. Falaremos, então, de uma forma diferente de monstruosidade... A boa monstruosidade. Os monstros que sofrem com a maldade humana. O sofrimento embrutecedor que os torna meros objetos, detritos na tela. Onde começa o objeto termina o sujeito (e vice-versa).
Por décadas, o monstro encarnou freqüentemente a figura do mal que é derrotado por um cavaleiro ou herói que representa o bem ou as virtudes. A evolução dos costumes e da própria indústria do entretenimento acabaria por ampliar esse conceito e lhe dar diferentes conotações, muitas delas distantes do simples requisito da aparência visual para definir monstro (GONÇALO, 2008, p. 20).
Feios, rejeitados, humilhados, mal quistos, mal vistos, temidos, coisificados. Os monstros também são sofredores em filmes. São personagens que representam aqueles que não têm voz e vez. Podem ser você, seus pais, seus vizinhos, um mendigo, a criança no sinal, qualquer pessoa que se sinta deprimida, a margem da sociedade, excluída, diferente dos demais, um estrangeiro em seu próprio mundo. Os monstros existem para ilustrar o mistério da criação. São reveladores. Revelam-nos (com sua deformidade) a consciência da nossa simetria. Acontecem porque a natureza saiu do seu curso habitual; porque exorbitou.
Quando olhamos um monstro na tela do cinema, olhamos a sua feiúra. Mas o que é a feiúra? Para Umberto Eco, organizador da obra A História da Feiúra, “o o o b o feio são relativos aos vários períodos históricos ou às vár u u ” (E O, 2007, p. 10). A beleza está na semelhança. Assim como Narciso se apaixonou por seu reflexo, nos olhamos no espelho para procurar nossa satisfatória imagem refletida, mas nem sempre conseguimos, pois assim como Narciso, estamos fadados a desejar imagens epifânicas, distantes de nossa realidade.
No belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição; [...] adora nele a si mesmo. [...] No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem. [...] O feio é entendido como sinal e sintoma de degenerescência [...] Cada indicio de esgotamento de peso, de senibilidade, de cansaço, toda espécie de falta de liberdade, como a convulsão, como a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, a forma da dissolução, da decomposição [...] tudo provoca m m ção: o ju zo o o “f o”. [...] O qu o o hum o? Não há dúvida: o declínio do seu tipo (NIETZSCHE, 2006, p. 74-75).
Hoje, ao assistirmos a filmes com monstros, não estamos livres de experimentar certo fascínio, provindo daí, provavelmente, o sucesso desses filmes.
A monstruosidade nos fascina porque apela para o conservador que mora em cada um de nós. Amamos a ideia da monstruosidade e precisamos dela porque é a reafirmação da ordem que todos almejamos como seres humanos... Encontramos o monstro e ele somos nós mesmos (KING, 2004, p. 40-45).
O principal critério para definir monstro é, a princípio, a aparência grotesca, que causa algum de tipo de reação de medo ou temor em um primeiro momento. Mas no cinema, parece que este critério está sendo modificado.
Como seres humanos, podemos sentir um fascínio constante pelo sobrenatural e o fantástico. Somos dotados do prazer de reinventar. Reinventar medos, fascínios, amores e atitudes. O que antes nos amedrontava, hoje nos deixa completamente embevecidos. O que no passado era digno de asco e fuga, hoje pode ser visto como algo natural em nossa aceitação acerca da alteridade monstruosa ficcional, mas não real. Admitimos o feio na arte, mas não na vida real. Aceitamos que o horrendo monstro beije a criança, ou a mocinha, em uma ficção, mas não aceitamos que um monstro (o estranho, o outro deformado esteticamente) mesmo sendo benevolente, nos toque (fisicamente) na vida real.
Fugimos, no cotidiano, de tudo que seja esteticamente diferente e desproporcional. Buscamos a beleza a qualquer custo e quem não se encaixa num estipulado padrão de beleza é considerado a própria estranheza, a monstruosidade. A estranheza então tomou o lugar do belo na expressão da arte contemporânea. Extraterrestres (estrangeiros - aliens), ogros, seres humanos deformados (corcundas, com síndrome de Proteus250), bichos-papões, monstros criados em laboratório, entre outras monstruosidades, são figuras que corporificam uma série de tendências desviantes. Porém, a presença do monstro no cinema, hoje, não mais introduz uma tendência monstruosa de corrupção do discurso e da imagem.
As imagens dos monstros possuem a representabilidade ideal para o audiovisual, tal como o cinema possui uma dinâmica interna de desdobramento e inversão próprio da monstruosidade. Por esse desdobramento, tanto o monstro quanto quem o veicula pode manipular a imagem que cria e intensificá-la, no sentido do humor ou da bondade. Através
250 Síndrome de malformação de hamartoma neoplásico de origem desconhecida caracterizada por gigantismo
parcial das mãos e/ou pés, assimetria dos membros, hiperplasia plantar, hemangiomas, lipomas, linfangiomas, nevus epidérmico, macrocefalia, hiperosteose cranial e crescimento exagerado de ossos longos. Joseph Merrick, o m h m o “hom m f ”, aparentemente sof “ om p o u ” ão u of b om o , um transtorno com características semelhantes (lookfordiagnosis.com).
deste paralelismo entre modos de representação, o cinema torna-se um espaço propício à criação de monstros, tal como a monstruosidade se torna o veículo do cinema.
O público deu sinal de se acostumar com a presença dos monstros e até gostar deles. Assim, a idéia de monstro, aos poucos, começou a ser transformada pela mídia. Apareceram, então, monstros ditos bonzinhos, os monstros que temem. Os monstros são aqueles para quem o monstro é espelho. Antes repugnantes agora essas criaturas se revelam amáveis e dotadas de profundos sentimentos de amor, amizade, fidelidade e de uma série de princípios éticos. Alguns monstros se parecem conosco, como um bom amigo, um querido parente, um amado irmão. A amizade é uma relação recíproca. Neste sentido, não são apenas os monstros que são nossos amigos. Também nós somos amigos dos monstros. Mas como sermos amigos de seres f o ? É o qu “ guém ê o mo o , é po qu m z ão é , é omo ” (SMITH, 2007). S o mo bo , o ão b o . S u , o p .