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Olhando o PARNA-Jaú de dentro para fora

2. Os moradores remanescentes e os seus movimentos

O Plano de Manejo apontava a existência de 886 moradores e 143 grupos domésticos no parque, sendo que 43% deles estariam concentrados em sete comunidades e as maiores concentrações humanas localizar-se-iam nos rios Unini e Paunini (o segundo é afluente do primeiro), no limite norte. A densidade demográfica do PARNA-Jaú era de 0,04 hab/km2, e o próprio plano reconheceu ter havido um decréscimo populacional desde a criação da UC (FVA/IBAMA, 1998: 139-142).

Um estudo mais recente compilou vários dos estudos de cunho demográfico anteriormente efetuados pela FVA135, além de utilizar um novo censo realizado pelo seu autor em 2001 (PINHEIRO, 2003). Nele, o fenômeno foi sintetizado da seguinte forma:

“(...) Os recenseamentos apresentam uma ligeira redução no número total de pessoas residentes. Em 1992, a população total era de 979 pessoas, que, em 2001, reduziu para 920 pessoas (-6%). Ao observar somente os dados por rio, estes apresentam comportamentos diferenciados: no rio Unini, em 1992, registrou-se 602 pessoas e em 2001, este número subiu para 669 pessoas (+11%). No rio Jaú, o comportamento é inverso: de 377 pessoas em 1992, somou-se apenas 251 (-33%), em 2001 (...)” (PINHEIRO, 2003: 63).

Outro elemento importante foi o número de grupos domésticos, tendo como base os

135 Estudos realizados em 1992, 1995 e 1998. O primeiro seria o Censo e Levantamento Sócio- Econômico do Parque Nacional do Jaú; o segundo seria o Mapeamento Individual dos Moradores dos rios Jaú e Unini; e o terceiro seria o intitulado Mapeamento Participativo Comunitário. Todos eles, inclusive o censo feito por Marcos Pinheiro, foram efetuados por pesquisadores com algum vínculo com a FVA. Entre o censo de 1995 e o de 1998, foram feitas, ainda, outras viagens de pesquisadores ligados à FVA, visando um mapeamento dos usos dos recursos efetuados pelos moradores, de modo a subsidiar a elaboração do Plano de Manejo (PINHEIRO, 2003).

recenseamentos da ONG. Ao comparar os censos mais afastados temporalmente, Pinheiro (2003: 63) afirmou que o número de grupos domésticos do rio Jaú136 decaiu de 69, em 1992, para 45, em 2001; enquanto, no rio Unini, elevou-se de 93, em 1992, para 138, em 2001, um acréscimo de 48% em seus cálculos. Excluíram-se, do cálculo, os homens solteiros que possuíam casa, mas não constituíam família.

Ao sintetizar várias de suas análises sobre os diversos parâmetros demográficos que considerou137, concluiu que, para o parque como um todo, houve: (1) redução populacional, embora acompanhada por um aumento no número dos grupos domésticos; (2) envelhecimento populacional; (3) diminuição do número de filhos por família; e (4) maior proporção de homens (8% a mais do que mulheres).

Ao comparar, separadamente, os rios Jaú e Carabinani e o rio Unini, concluiu que nos dois primeiros “houve uma queda brutal no número de famílias, envelhecimento da população e manutenção no número de filhos por família, e que no segundo as famílias, apesar de mais numerosas, têm menos filhos e o envelhecimento da população é menor que do rio Jaú” (PINHEIRO, 2003: 73).

Na primeira pesquisa de campo aos rios Jaú e Carabinani, em agosto de 2002, a equipe de pesquisa coletou trechos das histórias de vida da maior parte dos sujeitos com os quais interagiu. Apesar dos dados serem qualitativos, percebeu-se alguns padrões. Um dos traços mais marcantes foi a mobilidade espacial dos grupos domésticos, tanto se considerando as trajetórias dos entrevistados, quanto se considerando as trajetórias de seus ascendentes e descendentes.

O conceito de mobilidade empregado aqui é o de Hogan (2001: 213), que o considerou mais amplo do que o de migração, por englobar a migração e, também, os movimentos populacionais temporários, ambos importantes no caso dos moradores dos rios Jaú, Carabinani e Unini. A mobilidade espacial, no PARNA-Jaú, não é importante apenas ao se pensar a condição de morador, mas também do ponto de vista das atividades turísticas, como as que se observou nas partes mais altas do rio Unini.

Segundo Hogan (2001), os movimentos temporários também geram impactos e são

136 Pinheiro (2003) agregou as informações do rio Carabinani às do rio Jaú.

137 Foram eles: estrutura da população, estrutura de sexo por idade, idade mediana, envelhecimento da população, natalidade e mortalidade (PINHEIRO, 2003: 63-73).

característicos do estilo de vida contemporâneo:

“O termo ‘mobilidade’ é usado aqui como mais abrangente que ‘migração’, considerando-se que uma crescente parte dos movimentos populacionais com impactos sociais, econômicos, políticos e ambientais não pode ser caracterizada como ‘mudança residencial permanente ou semi- permanente’ (Lee, 1966), mas como movimentos circulares ou de curta duração (...) De qualquer forma, torna-se cada vez mais evidente que o mundo contemporâneo caracteriza-se por um conjunto de movimentos diferenciados, com importantes conseqüências para a sociedade” (HOGAN, 2001: 213)138.

Do total de 32 casais e um solteiro contatados nos rios Jaú e Carabinani, e para os quais possuímos dados mais completos, incluindo os casos em que um dos parceiros faleceu ou emigrou do PARNA-Jaú, em 20 deles pelo menos um dos dois parceiros é migrante ou já residiu em outra localidade não englobada pelo parque, em algum momento de suas vidas. Impressiona também a quantidade de descendentes ou ascendentes migrantes.

Também registramos a mobilidade dos moradores dentro da própria área que, hoje, conforma a unidade de conservação. Identificou-se um movimento preponderante de descida do rio Jaú, isto é, no sentido cabeceira-foz (cf. PINHEIRO, 2003). Esse movimento preponderante correlaciona-se com as proibições de entrada dos regatões, principalmente quando não se possui embarcação própria, com um certo estímulo ou apoio à vida comunitária, por parte de religiosos, da própria FVA e de políticos de Novo Airão e Barcelos, e com a busca por maior infra-estrutura, através da formação das comunidades. Uma infraestrutura que geralmente inclui (ou deveria incluir): um aparelho de radiofonia, uma pequena escola multisseriada (foto 7), algum(s) estabelecimento(s) religioso(s), um campo de futebol, uma sede social e um posto de saúde.

138 Tradução nossa a partir do original em inglês:

“The term “mobility” is used here as more encompassing than “migration”, considering that an increasing part of population movements with social, economic, political and environmental impacts cannot be characterized as “permanent or semi-permanent change of residence” (Lee, 1966), but as circulatory or temporary movements of short duration (...) In any case, it is increasingly evident that the contemporary world is characterized by a range of differentiated movements, which have important consequence for society”.