CAPÍTULO I A EXPANSÃO DA FOME NA TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA BRASILEIRA
1.6 OS MOVIMENTOS CONTRA A CARESTIA 1978-
É bom que se diga que a CPI da fome de 1981 foi proposta em um período de intensificação das cobranças populares frente ao endurecimento das condições de sobrevivência no país. Antes que o Legislativo brasileiro iniciasse uma investigação oficial para reconhecer as causas da expansão da fome brasileira, as camadas populares já vinham denunciando abertamente o empobrecimento vertiginoso imposto a muitas famílias brasileiras, em tempos de crise do Milagre Brasileiro. Dentro de toda uma gama de mobilizações e ações populares contra o avanço da carestia, destacam-se as mobilizações assumidas pelo Movimento Custo de Vida, forjado inicialmente em São Paulo, mas que recebeu adesões em diversas outras partes do país.
Uma boa parte dos registros históricos a respeito das mobilizações articuladas pelo
Movimento Custo de Vida encontra-se disponível nos acervos do Centro de Documentação e
Memória da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo)299 , sendo que tal movimento já foi amplamente estudado por Eder SADER300, autor que posicionou o movimento Custo de Vida no interior de uma gama de mobilizações realizadas pela população urbana paulistana no contexto da redemocratização brasileira.
De acordo com AZEVEDO e BARLETA301, tal movimento teve as mulheres como sua liderança principal:
Grupos de mulheres, geralmente ligados às comunidades católicas de atuação inspirada na Teologia da Libertação. Os clubes incentivavam a participação feminina na sociedade, refletindo com essas mulheres seu novo papel, as relações familiares e de trabalho, as dificuldades da vida na periferia.302
299
http://www1.cedem.unesp.br/eventos.htm Acesso em 30/10/2016
300 SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores
da Grande São Paulo, 1970/1980. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1988.
301
AZEVEDO, Jô; BARLETA, Jarcy M. O CEDEM e os documentos dos clubes de mães da região sul (SP).
Cadernos do Cedem. v.2, n.2, 2011, pp. 133-146.
http://revistas.marilia.unesp.br/index.php/cedem/article/view/1647/1400; Acesso em 30/10/2016 SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970/1980/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
302 AZEVEDO, Jô; BARLETA, Jarcy M. O CEDEM e os documentos dos clubes de mães da região sul (SP), p.
Por outro lado, Eder Sader chamou a atenção para o caráter autônomo do movimento, articulado sob novas modalidades, em um período de grande desconfiança em relação às tradicionais formas de organização política, em tempos de fortes críticas ao Marxismo e ao Estruturalismo. Sem passar diretamente pela representação sindical ou partidária, o movimento Custo de Vida forjava um novo sujeito coletivo, constituído e embebido de experiências do cotidiano popular, fazendo emergir um novo cenário para as lutas de resistência políticas pela redemocratização nacional. Assim, verifica-se:
O repúdio à forma instituída da prática política, encarada como manipulação (...). Com isso acabaram alargando a própria noção de política, pois politizaram múltiplas esferas do cotidiano. 303
Tendo origem nos clubes formados pelas mães moradoras da zona sul paulista, em 1973, o Movimento Custo de Vida irradiou-se entre diversas paróquias e CEBS da região metropolitana de São Paulo, na medida em que o arrocho salarial imposto pela Ditadura Militar passou a dificultar a sobrevivência de muitos brasileiros.
O fato do movimento atuar no interior da Igreja Católica explica-se sobretudo por dois fatores: enquanto o clero católico, seguindo as linhas de atuação propostas pelo Concílio Vaticano II, estimulava a participação política dos fiéis para solucionar questões sociais, também a população encontrava na igreja um dos poucos lugares seguros para promover debates políticos, em tempos de cerceamento ditatorial.
Eles iniciavam discutindo as questões de relacionamento entre casais, a saúde das crianças e, em seguida, passavam a perceber a relação existente entre o que ocorria no âmbito privado e os assuntos sociais e políticos, que diziam respeito à esfera pública: o salário baixo, a falta de equipamento de saúde no bairro, a água que não era encanada e a ausência de escolas e creches.304
As mobilizações promovidas pelo Movimento Custo de Vida, desde o seu início, em 1973, assumiram a estratégia política de enviar cartas e abaixo-assinados para autoridades públicas, como forma de denunciar a piora das condições de vida da população, seja devido ao rebaixamento dos salários, seja pelo aumento do desemprego ou da inflação galopante:
A “Carta das Mães da Periferia” foi redigida e enviada à Câmara Municipal de São Paulo pelo vereador Horácio Ortiz (MDB). Um trecho foi publicado
303 SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores
da Grande São Paulo, 1970/1980. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. P. 311-312.
304 AZEVEDO, Jô; BARLETA, Jarcy M. O CEDEM e os documentos dos clubes de mães da região sul (SP).
pelo jornal O São Paulo, em 27 de outubro de 1973, mas o resto perdeu‐ se no tempo. Algumas lideranças foram presas nessa ocasião e de seu dossiê “subversivo” constava a carta das mulheres.305
Para dar maior legitimidade às suas reivindicações, as lideranças do Movimento Custo
de Vida passaram a elaborar pesquisas, a partir de dados colhidos através de questionários
apresentados à população. Os resultados das pesquisas passaram a ser apresentados publicamente em reuniões e assembléias que chegaram a contar com milhares de pessoas, tendo participação de representantes de várias entidades estudantis, sindicais, eclesiais, comunitárias, etc. Tal mobilização fez com que o Movimento Custo de Vida passasse a ter suas atuações noticiadas pelos meios de comunicação de massa da grande imprensa brasileira, uma vez que o movimento foi recebendo adesão por parte de integrantes de diversas instituições, inclusive, ganhando adeptos em outros estados do Brasil.
Em 1978, o Movimento Custo de Vida realizou uma reunião no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, contando com representantes de diversas entidades da Sociedade Civil, somando cerca de 7 mil pessoas no local. De acordo com um Boletim informativo produzido em Março de 1978, a mobilização foi amplamente divulgada em coberturas jornalísticas da grande imprensa brasileira:
Imagem 1.2 Fonte: Boletim Movimento Custo de Vida, Março/Abril, 1978. Acervo: Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro.
305
AZEVEDO, Jô; BARLETA, Jarcy M. O CEDEM e os documentos dos clubes de mães da região sul (SP). Cadernos do Cedem. V.2. N.2, 2011. Pag. 138.
A partir de então o Movimento Custo de Vida passou a atuar no interior de diversas instituições, criticando publicamente a expansão da fome no país. Houve, de fato, um avanço do movimento para o interior de sindicatos profissionais tradicionais, como por exemplo, a participação de membros do Movimento Custo de Vida na Greve dos professores estaduais de São Paulo e a adesão espontânea às manifestações contra a carestia por parte do sindicato dos Servidores Públicos do Hospital do Estado de São Paulo, em Agosto de 1978.306 Por outro lado, o fortalecimento do Movimento dava-se também na conquista de alianças com outras mobilizações populares que ocorriam em São Paulo, como por exemplo, aquelas promovidas pelos sindicatos metalúrgicos do ABC paulista:
Portanto, neste mês de maio, em que os operários do ABC se manifestam pacificamente pelo respeito aos seus legítimos direitos, e particularmente pelo aumento de seus salários, o Movimento do Custo de Vida vem dar a todos eles o seu total apoio e solidariedade 307
Nos primeiros meses daquele ano de 1978, as lideranças do Movimento Custo de Vida lançaram uma Campanha Nacional para colher um milhão de assinaturas e formatar um documento a ser entregue ao Presidente Ernesto Geisel, exigindo o congelamento de preços dos gêneros alimentícios de maior necessidade, abono salarial imediato e o aumento do Salário Mínimo acima da inflação. O intuito era promover um ato público na Praça da Sé (SP), em fins de Agosto, e oficializar a saída de uma comitiva que iria em direção à Brasília para entregar o documento contendo as assinaturas e as reivindicações diretamente às mãos do Presidente da República.
Como todo mundo já está sabendo, a nossa meta principal até o mês de agosto é colher mais de 1 milhão de assinaturas para que o abaixo-assinado tenha mais força. Por isso mesmo, é muito importante que os grupos e as pessoas que participam do Movimento do Custo de Vida se reúnam cada vez mais para ver como melhorar os trabalhos e como aumentar a participação do povo na luta contra a carestia.308
Os jornais e boletins produzidos pelo Movimento do Custo de Vida durante o ano de 1978 demonstram parte desta luta para mobilizar a população em torno de Campanhas contra
306Professores da Rede Pública decidem paralisar aula. Folha de São Paulo. 20 de Agosto de 1978, p. 15.; HC e
Servidor fazem Plebiscito.Folha de São Paulo 24 de Agosto de 1978. P. 14.
307Boletim Movimento Custo de Vida, junho de 1978. Acervo: Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro 308Boletim Movimento Custo de Vida, Junho 1978. Acervo: Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro.
a carestia, constituindo uma evidência do esforço deste movimento para chamar a atenção para o problema do avanço da fome no país. Em seus veículos comunicativos, como no
Boletim de Junho de 1978, as lideranças denunciaram como aspectos econômicos e de
interesses de classe geravam o aumento do custo de vida:
Para comprarmos a mesma quantidade de mercadorias na feira, é preciso, a cada semana, levar uma quantidade de dinheiro maior (...) E, se hoje compramos menos produtos com os nossos salários, sabemos que o nosso dinheiro, que já anda curto, vai se concentrar em outras mãos.309
Para comprovar o fato de que as condições de vida da população pioravam em função do aumento de lucros capitalistas no país, citavam exemplos concretos de ganhos extraordinários obtidos por empresas multinacionais que atuavam no Brasil:
Enquanto, no país, milhões e milhões de brasileiros são obrigados a viver com um salário baixo, só a Volkswagen, em 1976, teve um lucro de 450 milhões de cruzeiros.310
O Movimento Custo de Vida também ressaltava a participação desigual da sociedade no acesso aos financiamentos promovidos pelo governo federal, indicando que a expansão da fome tinha relação com interesses latifundiários, vide os monopólios existentes sobre os recursos da administração pública nacional:
Por exemplo, só o grupo do Jorge Atalla (dono da Coopersucar) recebeu cerca de 6 bilhões de cruzeiros para plantar café e cana-de-açúcar, que serão exportados.Enquanto isso ocorre, os pequenos produtores de feijão, milho, leite e outros produtos não recebem qualquer ajuda para aumentar sua produção. A produção de feijão, por exemplo, vem diminuindo a cada ano que passa, enquanto a produção da soja aumentou nos últimos 10 anos mais de 2.000%.311
Da mesma forma, denunciava a especulação financeira promovida pelos atravessadores e intermediários de alimentos no Brasil, situação que agravava o aumento dos preços alimentícios. Para solucionar o problema, sugeriam a intervenção do Governo Federal nesta questão, propondo principalmente o congelamento de preços:
309
Boletim Movimento Custo de Vida, Junho 1978. Acervo: Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro.
310Boletim Movimento Custo de Vida, Junho 1978. 311Boletim Movimento Custo de Vida, Junho 1978.
A distribuição desses produtos deve ser organizada a fim de que os grandes atravessadores e intermediários não obtenham grandes lucros, explorando os lavradores e os consumidores.312
No dia 27 de Agosto de 1978, o Movimento Custo de Vida reuniu cerca de 20 mil pessoas em frente à Catedral da Sé (SP) para manifestar publicamente a conquista de cerca de um milhão e trezentas assinaturas colhidas entre a população para endossar um documento oficial a ser entregue ao presidente Ernesto Geisel. As reuniões públicas na Praça da Sé haviam sido proibidas pelo Governo de São Paulo, em medida assinada na semana anterior, para evitar justamente a ocorrência daquela manifestação já prevista e anunciada pelas lideranças populares.313
O resultado foi um conflito aberto, uma vez que a polícia militar utilizou cães ferozes e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, reunida dentro e fora da Catedral da Sé, como mostram as duas fotografias a seguir de autoria do fotógrafo Juca Martins:
Imagem 1.3 Fonte: MARTINS, Juca. Antologia Fotográfica. Rio de Janeiro, Dazibao, 1990. Disponível em: https://midicult.wordpress.com/
312
Boletim Movimento Custo de Vida, Junho 1978.
Em Boletim informativo de Setembro de 1978, as lideranças do Movimento Custo de
Vida promoveram um balanço daqueles acontecimentos ocorridos na Praça da Sé em 27 de
Agosto:
(...) todos falaram contra o arrocho salarial, a alta do custo de vida, a falta de liberdade, a má distribuição das riquezas. Criticaram as autoridades do governo que, mesmo convidadas se recusaram a comparecer para conversar com o povo (...)314
Chamaram a atenção para as condições adversas enfrentadas pelo Movimento, devido à repressão promovida pelo Governo e pela Arena:
O governo colocou policiais com enormes cachorros que cercavam a Catedral (...). Proibiu a realização da nossa Assembléia na Praça dá Sé, colocou mais de mil policiais no local, invadiu a Catedral, desviou ônibus, impedindo que outras milhares de pessoas conseguissem chegar à nossa manifestação (...).315
Relataram também a adesão de outras organizações de base do Movimento Custo de
Vida para além do Estado de São Paulo: Outros estados estão se juntando a nós: Paraná, Rio Grande do Sul, Maranhão, Pará, Bahia, Goiás, Minas Gerais.316
E por fim, narraram a saga da comitiva das lideranças que, ao chegarem em Brasília, não obtiveram sucesso na tentativa de serem recebidos pelo Presidente Ernesto Geisel. Ao contrário, enquanto a comitiva era barrada na entrada do Palácio do Planalto,“os guardas do
Palácio ficavam ostensivamente marchando de um lado para outro como se estivessem esperando um ataque de um exército inimigo”.317
A solução foi se limitar a entregar os diversos abaixo assinados e voltar para São Paulo: O que fizemos foi escolher 5 pessoas para entregar somente o abaixo-assinado e
exigir um comprovante da entrega318
Embora o Movimento Custo de Vida tenha permanecido até o início da década de 1980 na luta contra o avanço da carestia no país, o movimento terminou por perder forças diante da pulverização das diversas frentes de lutas políticas verificadas a partir de 1979. Ainda assim, muitas mobilizações continuaram sendo realizadas em diversas partes do país para criticar a
314 Boletim Movimento Custo de Vida, Setembro de 1978. 315 Boletim Movimento Custo de Vida,Setembro de 1978. 316
Boletim Movimento Custo de Vida,Setembro de 1978.
317 Boletim Movimento Custo de Vida,Setembro de 1978. 318 Boletim Movimento Custo de Vida,Setembro de 1978.
incisiva expansão da fome nacional. Para citar alguns exemplos históricos, basta atentarmos para alguns Boletins e Jornais produzidos entre 1979 e 1981 que atestam a continuidade destas mobilizações públicas contra o crescimento da crise famélica.
Neste ponto, uma das maiores dificuldades apontadas pelos integrantes do Movimento
Custo de Vida foi a capacidade de manter animado o movimento após a consagração dos atos
da Praça da Sé (SP) e a recusa do Presidente Geisel em receber as lideranças do movimento, em Agosto de 1978. O esfriamento das mobilizações foi uma das preocupações, por exemplo, das lideranças de Goiás:
Foi falado na Assembléia que o Movimento esquentou muito no inicio e foram colhidas em um mês 19.500 assinaturas e que depois ele esfriou. Isso foi dito por quase todos os representantes (...) Foi falado também que esfriou porque só colher assinaturas não dá pra animar e que era bom outra coisa.319
Para animar os membros, líderes do Movimento goiano assinalaram novas formas de criticar a expansão da fome. Além das mobilizações por assinaturas públicas, pesquisas sobre a alimentação popular, redação de cartas reivindicatórias, os líderes goianos passaram a divulgar letras de músicas e diversas poesias em seus periódicos. Estas produções culturais revelam a tentativa da população de manter animado o movimento e de demonstrar sua insatisfação diante do aumento da fome entre suas famílias. Veja por exemplo, uma poesia escrita por um trabalhador de Britânia-GO, divulgada no Boletim do Movimento Custo de
Vida goiano:320
319
Boletim informativo do Movimento Custo de Vida – Goiás, Outubro 1978/Janeiro 1979. Acervo: Centro de Documentação Pastoral Vergueiro
Outras vezes, a animação do Movimento e as críticas contra a expansão da fome continuaram a serem realizadas através da elaboração de desenhos, quadrinhos e caricaturas capazes de sintetizar tragédias famélicas experimentadas pelas famílias brasileiras em seu cotidiano:
Imagem 1.4 Boletim Informativo do Movimento Custo de Vida. Goiás, Outubro 1978/Janeiro 1979. Acervo: Centro de Documentação Pastoral Vergueiro
Que o trabalhador tem valor verdadeiro