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Os movimentos sociais mistos e o movimento de mulheres

4 TERRA, TRABALHO E DEMOCRACIA: A CONSTITUIÇÃO

4.3 AS PRIMEIRAS INICIATIVAS: as organizações micro-regionais e estaduais

4.3.4 Os movimentos sociais mistos e o movimento de mulheres

Outro campo de alianças e de apoio, embora não pleno, é o que se estabelece no âmbito do movimento sindical. O sindicalismo rural que havia se constituído no início dos anos 1950 não permitia a participação autônoma das mulheres sob a justificativa de que a representação familiar ser exercida pelo homem na condição de “chefe”. Cabia às mulheres apenas uma participação indireta na condição de dependentese de usuárias dos serviços assistenciais de saúde prestados pelos sindicatos às famílias dos trabalhadores sindicalizados.

E meu pai tinha relação com o sindicato. E nós tínhamo uma carteirinha amarela, de dependente. (...) Todo os filhos tinham uma carteirinha amarela, com título do Funrural, e aquela carteira servia pra (...) aquela carteirinha servia para arrancar dente - sorte que eu só arranquei um dente na minha vida –(risos). Servia pra uma consulta médica, e o sindicato nessa época era totalmente atrelado à prefeitura. Meu pai participava (...) Era. Mas precisava daquela carteirinha. E a gente é... meu pai participava do sindicato, pagava mensalidade, tudo direitinho. Não era como uma consciência do que o sindicato era importante, mas era porque o sindicato ofertava essas possibilidades. (Isabel, 15/9/2016)

Com o surgimento da CUT e a renovação da estratégia de ação também para o sindicalismo rural, muitas mulheres se engajaram na mobilização para que os sindicatos incorporassem a participação política das mulheres e abrissem passagem para uma participação ativa e direta com plenos direitos como sindicalizadas.

Mas até mesmo o “novo sindicalismo” com uma plataforma renovada que incorporava a participação das mulheres era um movimento predominantemente masculino, como revelam as taxas de sindicalização por sexo da época (PIMENTA, 2013) e apresentavam muitas dificuldades para incorporar as suas demandas:

O que movia era as questões específica das mulheres, que não era discutidas dentro do movimento sindical. Quando era pra discutir as greves, as mulheres tava lá. Pra discutir, vamos dizer assim, a questão da saúde, de um modo geral. Mas não era pra discutir saúde das mulher. A participação política das mulheres... a mulher, pra ir pra direção do sindicato, não era pra discutir essas questões. Era as questões específicas... a violência contra as mulheres. (Eleonora, 11 e 12/8/2016).

As lutas em defesa dos babaçuais, por exemplo, não eram objeto de ação dos sindicatos de trabalhadores rurais e por esse motivo as quebradeiras de coco mantiveram uma participação nos espaços do movimento sindical, mas decidiram construir um movimento próprio:

A gente é diretora do sindicato, chegou a ser diretora do sindicato em vários locais. Depois a gente conseguiu, mas é.... O desempenho da gente não tinha alguns condições. A gente discutia, adotamos é.... a nossa mãe na época... que lembro que a gente dizia, mãe defendendo as mães, que é a mãe Palmeira. Começamos discutir isso, mas isso não é uma política do sindicato. Não tava dentro do seu estatuto como área de atuação. Então, sim, e aí a gente conseguia pegar, a partir daí isso, como uma forma de a gente se organizar e ir à luta. Então, vamos à luta pelo babaçu, vamos à luta pelas nossas vidas, continuações das nossa vidas e fomos começar. E foi, assim, se estendendo automaticamente, foi ampliando, eram mais grupos de mulheres (Maria do Carmo, 18/8/2016).

Além das dificuldades que as trabalhadoras rurais percebiam no movimento sindical para incorporar as suas demandas, elas constatavam a ausência de espaços e de abertura para debater temas relacionados à sua condição de mulheres:

Mas nós estava lá dentro dessas questões, que era estratégica. Era estratégica para o congresso na Contag… em buscar as mulheres... dos outros estados e de outras regiões do país. Pra introduzir a questão específica das mulheres, do Brasil, das mulheres rurais. Aí, introduzia a questão do feminismo. Não tinha... (...) fomos nós de Pernambuco, nós mulheres rurais que... não tinha. Fomos nós que levamos pra dentro da Contag a campanha de sindicalização. Fomos nós que levamos a campanha de documentação. Nós e as mulheres do Sul (Eleonora, 11 e 12/8/2016).

Outro aspecto importante se refere à dificuldade de participação e de representação das mulheres no movimento sindical, como já referido ao tratar da trajetória das lideranças entrevistadas.

O movimento sindical tinha legitimidade perante as trabalhadoras rurais, mas, ao mesmo tempo, impunha muitas restrições para a sua plena inserção. Apesar disso, embora muitas delas tenham decidido construir suas próprias organizações, várias associaram esta decisão ao esforço para a democratização do movimento sindical e para a ampliação do seu espectro de lutas, gerando, assim, uma situação muito comum, que persiste até os dias atuais: a dupla militância, ou seja, na organização específica de mulheres rurais e nos movimentos mistos.

A opção de construir movimentos autônomos implicou assumir vários desafios, entre os quais, o de superar as resistências às suas bandeiras de luta; as restrições financeiras; e, a ausência de suporte no cuidado dos filhos e da família.

Nesse momento inicial as lideranças assumiram a condição de militante sem nenhuma infraestrutura de apoio para realizar o trabalho de organização de base, enfrentando a ausência de transporte e de condições para a permanência nas atividades de mobilização.

O “DED” eles tinham uma sede. Nem em Pernambuco era. Era em Salvador. E, assim, quando eu menos esperei, eles chegaram na minha casa pra oferecer apoio. O apoio era um fusca usado, mas foi nosso primeiro transporte. Um fusquinha. Isso a gente visitava as comunidades rurais. Que antes, a gente, pra ir pra zona rural, a gente só ia com o padre no carro da paróquia e no carro da EMATER, esperando que esse pessoal fizesse o trabalho deles pra nós fazermos o nosso (Eleonora, 11 e 12/8/2016).

A comunicação também era muito precária e enfrentavam grandes dificuldades para ter acesso à informação. Assim usavam o telefone de outras organizações sociais.

No início eles davam, ajudava nas despesas pra a gente ir pra determinado reuniões do estado, estado não, determinado município. Porque a gente fazia rodízio de reunião de MMTRN Nordeste. Por exemplo, às vezes a reunião era em Campinas, às vezes era em Petrolina e tinha..., é pra gente ir daqui é...., a gente pedia. Tinha sindicato que contribuía, tinha sindicato que dava carro pra levar a gente, e ele começou a dar, eles começaram a dar mesmo no sindicato, dar um trocados a mim e depois cortaram esse trocado (Sandra, 12/8/2016).

Apesar do apoio em alguns sindicatos e, até, de parcerias em algumas ações, essas lideranças viverem situações de conflito e tensões, algo que será tratado mais à frente. Assim, apesar do acolhimento da participação das mulheres e de apoio ao processo de formação deste sujeito político também surgem barreiras a essa nova forma de sua participação.

Eles sabiam que era pra pessoal de reunião de MMTR-NE. E, depois, começaram... cortaram. Nem davam. Disse que ia acontecer reunião, onde ia ser, o dia... nem dava mais o dinheiro. Eu passei a fazer o quê? Como eu não tinha, aí, na época... tinha recurso... a gratificação do diretor do sindicato, aí, eu tirava do meu dinheiro e ia participar. Não deixava de participar. A meninas já sabiam disso, ligavam pra mim no sindicato mesmo e me davam recado. Aí, eu via. Depois disso teve enfrentamento muito grande no sindicato. No livro, não sei se você lembra, que você leu. Teve momento de eu querer fazer uma ligação e diretor não deixava de eu acabar e, com muita insistência, jogava a chave assim… Teve uma vez quase a chave bateu em mim. Mas, assim, eu acho que sempre fui muito briguenta [risos] (Sandra, 12/8/2016).

O novo ambiente de militância política ampliou o raio de atuação das mulheres e as possibilidades de influência sobre os seus conteúdos, mas elas se deparavam com uma representação política desigual, com a resistência aos processos auto organizativos das mulheres e a desvalorização das suas lutas e demandas, além de terem de compatibilizar a militância com o trabalho reprodutivo. E, aí, os conflitos foram inevitáveis:

Dentro do próprio sindicato, da federação, do sindicato... é era machismo grande, que na época não tinha nenhuma diretora, na verdade. No sindicato tinha eu, tinha eu mais duas mulheres. Era diretora do sindicato, eu, uma era conselho fiscal, eu mais outra conselho fiscal e a outra era (…). Só que, assim, os homens dava, valorizava a gente, porque a gente

fazia, né. Além de darmos conta das nossas atividades a gente tava disposto para limpar o sindicato, pra varrer o sindicato, pra lavar banheiro e pra fazer essas coisas, né. (...) E, aí, o nosso papel, por exemplo, da secretaria, o papel dela era, era só fazer ata, né. E, aí a gente foi, eu fui também nessa coisa, nessa época eu era já é... da executiva. E... fui questionando isso. Questionava, também, por que tinha uma história de... a gente era da diretoria executiva e não sabia o que acontecia, principalmente nas questões de dinheiro, né, nas questões de dinheiro. E, aí, a gente sabia o seguinte, eu como secretária do sindicato ou qualquer outra mulher tem que saber o que entra, o que sai do sindicato. E a gente quanto procurava saber, quando procurava saber disso, eles não gostavam, né. Aí, começa. Tudo isso aprendi cobrar na discussão do MMTR-NE (Sandra, 12/8/2016).

Esses conflitos reforçaram a demanda pelo direito de participação e pela auto-organização das mulheres rurais no espaço dos sindicatos, contando com o apoio de uma diversidade de instituições, que, no caso do Nordeste já incluía setores do movimento de mulheres no Brasil.

A estratégia de articular as lutas contra as desigualdades de gênero com as lutas de classe no campo, de assumir e enfrentar os conflitos com um movimento sindical em transformação, mas ainda pouco permeável às demandas e à participação das mulheres, iria seguir exigindo muito da militância das mulheres rurais.

4.4 A LUTA DAS MULHERES NOS MOVIMENTOS SOCIAIS MISTOS: o direito à