2.1 Um breve percurso histórico e teórico de Arquivos, Bibliotecas e Museus
2.1.1 Os museus como instituições do conhecimento
Podemos considerar que os museus estão mais diretamente ligados à revolução do pensamento no início do século XVII, mas suas reverberações alcançam bibliotecas e arquivos a ponto de essas três instituições se tornarem a principal infraestrutura epistêmica na economia do conhecimento (idem).
Parece óbvio para o utilizador moderno de um museu que a exibição pública de itens interessantes tem grande valor na educação e no esclarecimento da população, mas isso não era evidente antes do Iluminismo. O museu, como o conhecemos hoje, surgiu de uma forma de entretenimento que lentamente evoluiu para uma prática deliberada de recolher. O reconhecimento da utilidade acadêmica de coleta foi contemporâneo à revolução no pensamento, representada por Galileu, Erasmo de Rotterdam, Descartes, Francis Bacon, Newton, Spinoza, Rabelais, Montaigne, Voltaire, Rousseau, Locke, Hume e outros. No entanto, as origens da coleta não se deram a partir do domínio da filosofia, mas na busca prática por inovações na agricultura e na medicina (POMIAN, 1984).
As coleções de objetos feitos pelo homem já haviam se tornado populares entre os membros da aristocracia europeia no final do século XVI. O Arquiduque Ferdinando II no Tirol, o Imperador Rodolfo II em Praga, Pedro, o Grande, em St.
Petersburgo, Bacilius Amerbach em Basileia, Augusto em Dresden, Albrecht V em Munique, Gustavus Adolphus em Uppsala, entre outros, possuíam ricas coleções particulares. Na maioria dos casos, estas importantes coleções eram formadas de joias e outros artefatos preciosos e a exibição de tal tesouro era exclusiva para alguns poucos convidados. Entretanto, alguns colecionadores ricos expandiram sua coleção para itens da natureza (POULOT, 2013).
Em toda a Europa, a partir de meados do século XVI em diante, um número notável de coleções de objetos naturais surgiu, inicialmente com jardineiros na coleta de plantas que se expandiram para incluir outros recursos naturais, criações e artefatos feitos pelo homem. O movimento tomou forma na Itália com as coleções de Francesco Calceolari, Ulisse Aldrovandi, Michele Mercati e Ferrante Imperato. Nenhum desses coletores era da aristocracia, mas emergentes membros da classe média que tinham usado como escada social a universidade (GONZÁLEZ BUENO; BARATAS DÍAZ, 2013).
Algumas dessas coleções foram meticulosamente documentadas em catálogos cujo resultado foi compartilhado. Nesse sentido, as universidades tiveram papel crucial na ascensão do museu moderno com o aumento dos jardins medicinais e o foco na coleta, identificação, classificação e ensaio de plantas para tratamento médico. A evolução do museu moderno também inspirou a pesquisa acadêmica, ao invocar uma sociedade de aprendizagem, um “colégio invisível” de acadêmicos distribuídos por todo o mundo para colaborar por meio de reuniões e correspondência com a comunicação científica (SILVA, 2006).
Ao se refletir sobre o surgimento dos gabinetes de curiosidades ou gabinetes de maravilhas (em alemão Wunderkammer) como precursores de museus modernos, é possível se identificarem pelo menos três elementos cruciais para o surgimento da ciência moderna. O primeiro foi o papel essencial das coleções em estimular os esforços para compreender o mundo natural. A coleta era uma forma de investigação, um meio de criar recursos didáticos que deveriam fazer sentido para o colecionador, outros colecionadores e observadores; criando um conhecimento comum sobre reinos anteriormente desconhecidos (POULOT, 2013).
Este foi um passo vital no abandono da escolástica e na ascensão da moderna pesquisa acadêmica e científica. Por meio do ato de colocar objetos naturais em exposição, o colecionador tinha a obrigação de tentar explicar a existência dos artefatos à luz das velhas crenças. O objetivo inicial destas coleções
foi simplesmente para provocar admiração, mas o ato de ‘querer saber’ logo levou à indagação e à teorização (idem).
As ramificações políticas e sociais desta fusão de entretenimento e educação pública logo foram vistas. A exibição de esqueletos de dinossauros ao longo de um quarto de século para um número incontável de cidadãos britânicos pavimentou o caminho para o alarme generalizado na publicação da Origem das Espécies de Darwin, em 1859, por exemplo. O quadro do registro fóssil também foi utilizado para fundamentar seu modelo mecanicista de gênese e diversificação da vida. Provavelmente o impacto dessa nova teoria não seria o mesmo sem a tradição dos museus (HEDSTROM; KING, 2003).
O segundo elemento dos gabinetes de curiosidades foi o seu papel na ascensão do método sistemático nas ciências. Indo além de ingênuas perguntas, o colecionador seguiu em direção ao aprofundamento da compreensão mediante observações cuidadosas, estabelecendo relações complexas entre os objetos naturais. Quando as coleções se tornaram grandes o suficiente para permitirem uma comparação cuidadosa da morfologia entre os espécimes, por exemplo, os primeiros esforços de construção taxonômica e classificatória tornaram-se procedimentos rigorosos. A ciência já não pode ser impulsionada por aquilo que o investigador pensa sobre o que as coisas deveriam ser, mas sim por como elas realmente são na natureza (idem).
O terceiro elemento importante das coleções foi o corolário da documentação. A organização de catálogos permitiu que as informações sobre as coleções pudessem circular em uma espécie de forma virtual, muito facilitada pelo advento da imprensa. Estudiosos em lugares díspares poderiam comparar suas coleções locais com os catálogos de outros colecionadores, identificando discrepâncias e questões que poderiam ser resolvidas por meio de correspondências, discussão e análise. Desta forma, o esforço para identificar, classificar e comparar toda a natureza tomou forma e avançou para a documentação sistemática nos séculos XVII e XVIII. Assim, os museus foram progenitores da comunicação acadêmica e científica lançando as bases de conhecimentos necessários para a construção da revolução industrial (SILVA, 2002).
A história da relação entre museus e estruturas informacionais e do conhecimento e sua capacidade de reunir um grupo altamente heterogêneo de pessoas em torno de um interesse comum, o de conhecer, tornam seu objeto e essa
instituição “de fronteira”, na esfera do conhecimento, assim como Arquivos e Bibliotecas (BELLOTTO, 2014).