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Parte 2: Comparação entre os estudos violonísticos de Villa-Lobos e Francisco Mignone

2.3 Os objetivos e características dos estudos

Trataremos de descrever (principalmente sob nossa ótica) os principais objetivos de desenvolvimento da técnica violonística almejados em cada estudo, baseado em estruturas texturais, articulações, efeitos, etc.

2.3.1 Descrição de alguns objetivos técnicos dos 12 Estudos para violão de Heitor Villa-Lobos

No que diz respeito ao intuito didático dos estudos villa-lobianos, Antunes e Fernandes os dividem em duas porções: “até a primeira metade, eles são direcionados à técnica instrumental específica, sendo que os seis últimos são mistos de estudos de técnica com questões musicais mais abrangentes em termos de interpretação” (Antunes e Fernandes 2009, p. 30). Nós proveremos nossa interpretação pessoal acerca do mesmo assunto, mas de maneira individualizada para cada estudo.

Estudo 1 (Mi menor / A-B monotemática): Estudo de arpejos (ritornellos a cada

compasso). Em padrão fixo a md ascende e descende em cordas muitas vezes não adjacentes. A me trabalha em um acorde estático por compasso. Ocorrência de acorde paralelos na me. Ocorrência de uma escala com ligados. Parece-nos um estudo mais focado em md do que em me. Há ritornellos na maior parte dos compassos.

Estudo 2 (Lá maior / A-B monotemática): Estudo de arpejos com ligados

(ritornellos a cada compasso). A me também trabalha com um acorde por compasso, mas agora não estático, ou seja, há amplo translados e saltos. Ocorrência de uma escala que atravessa quase toda a extensão do instrumento. Segundo Amorim “na escrita, talvez seja o menos audacioso”, porém demanda “alto nível de exigência técnica” para sua execução (Amorim 2009, p.133). Segundo Turíbio Santos (1975, p.16, apud Amorim 2009, p.133) parte de uma ideia básica de Dionísio Aguado enquanto Thiago Abdalla (2005, p. 30) vê semelhanças com o Estudo 20 de Mateo Carcassi.

Estudo 3 (Ré maior / Seção única monotemática): Estudo de acordes plaqué e

arpejos aplicados por vezes em notas ornamentais (apogiaturas e bordaduras) em ligados da me, dando uma impressão escalar (na me e na grafia musical) ainda que tocados com um padrão de arpejo na md. Há ritornellos a cada compasso. “A existência

de arpejos (como é explícito, logo abaixo do título na edição de 1953) é de importância secundária perto do intenso trabalho na técnica dos ligados” (Abdalla 2005, p. 30).

Estudo 4 (Sol maior / A-A´-B-B´-Coda): É um estudo de acordes repetidos,

onde a md trabalha em blocos e por vezes salta pelas cordas. A escrita polifônica utiliza “harmonia a quatro partes onde impera o movimento paralelo das vozes, a não resolução dos acordes e as modulações sem preparações” (Pereira, 1984, p. 38, Amorim, 2009, p.135). “Há nada menos que 20 alternâncias da unidade” de compasso neste estudo (Amorim, 2009, p.135).

Estudo 5 (Dó maior): É um estudo polifônico (a 3 vozes), consequentemente

exigindo independência de movimentos dos dedos de ambas a mãos e legato. Para Antunes e Fernandes (2009, p. 30) “há uma nítida alusão à viola caipira, com acompanhamento em terças [paralelas] e melodia propositadamente monótona”.

Estudo 6 (Mi menor / Seção única repetida variada): É também um estudo de

acordes, mas agora trocados rapidamente (em colcheias) exigindo maior movimentação da me aplicada inicialmente à trabalho em blocos da md. O estudo é repetido com padrão mais complexo de md onde os blocos de acorde são alternados contra o polegar.

Estudo 7 (Mi maior / A-B-A`-C): Há trabalhos técnicos diferentes em cada

seção, respectivamente, escalas, arpejos (com 3 planos diferentes: melodia, baixo e “recheio” harmônico), acordes paralelos plaqué contra baixo e trinados (de md em acordes paralelos).

Estudo 8 (Dó sustenido menor / Introdução-A-A´-A-Coda monotemática):

Estudo também com vários trabalhos texturais distintos. A introdução trabalha em dois planos com intervalos paralelos nas cordas graves contra baixo. A melodia exposta no baixo é repetida na seção seguinte pela voz superior, agora em arpejo em três planos diferentes (similar a Estudo 7). Há passagens em ligados que lembram o Estudo 3 do mesmo autor e ocorrências interessantes de arpejos em sextinas “elemento técnico que será foco de toda a seção central do Estudo nº11 (arpejo circular p, i, m, a, m, i, p, ...)” (Abdalla 2005, p. 35).

Estudo 9 (Fá sustenido menor / Seção única repetida variada): Para Amorim “a

ideia fundamental consiste nas variadas ornamentações do tema principal ... muito simples, consistido de uma melodia em graus conjuntos de caráter descendente” (Amorim 2009, p.135). Para Antunes e Fernandes “é mais voltado, principalmente à sua segunda parte, aos ligados, e sua alusão novamente à viola caipira é preponderante” (Antunes e Fernandes, 2009, p. 30).

Estudo 10 (Si menor / A-B-C-A’-Coda): Estudo principalmente de

independência da me. Possui introdução e codas cujo trabalho da md realiza saltos em acordes similares ao Estudo 4, enquanto a me segura acordes paralelos ascendentes, alternados com figuração de ligados, que passam a ser o foco principal na seção seguinte em ostinato onde é introduzida nova melodia nos baixos, em textura semelhante ao Estudos 3 e 9. Este estudo é normalmente finalizado pelos intérpretes com rasgueios e com arpejo de digitação escovada na md, embora isto não esteja expresso na partitura original.

Estudo 11 (Mi menor / A-B-A’-B’-A): possui trabalhos de melodia

acompanhada (em três planos, com melodia principal agora na voz intermediária), terças repetidas contra melodia (também em terças) no baixo, acordes de arpejo descendente com translados verticais do indicador (ou outro dedo) da md (escovados), arpejo em sextinas md (com 3 cordas em uníssonos) com movimento paralelo da me, toque duplo de polegar md. Abdalla (2005, p. 33) encontra semelhanças com o Estudo 4 no que tange a ocorrência de acordes repetidos, que neste estudo aparecem em terças maiores.

Estudo 12 (Lá menor / A-A´-B-A-Coda): Estudo de portamento (glissando) de

acordes paralelos da me, aliado a movimento repetitivo em blocos da md. Também aparecem escalas (com modelo de imitação vertical na me), acordes de arpejo descendente com translados verticais de dedos da md (normalmente realizado pelos intérpretes com os dedos p, i ou a-m escovados) e seção de melodia nas cordas graves sobre pedal da sexta corda solta (resolvido tecnicamente de várias formas). Registra-se a existência de trocas constantes de fórmula de compasso.

2.3.2 Descrição de alguns objetivos técnicos dos 12 Estudos para violão de Francisco Mignone

Iº Estudo – “Vivo” (Lá menor): estudo de arpejos em tercinas, com longa

melodia cantabile normalmente na voz superior, mas por vezes a atenção melódica se volta a outras vozes. Faz uso de grande parte da extensão do instrumento. Também há a ocorrência de ligados e harmônicos artificiais (este último apenas no final da obra).

IIº Estudo – “Seresteiro” (Ré menor): Estudo seresteiro em forma ABA.

Primeira seção se baseia em longa melodia com acompanhamento de acordes. Já a segunda focaliza diferentes padrões de arpejo no acompanhamento, primeiro com

melodia na voz inferior e posteriormente na voz superior. Há passagens escalares cadenciais entre frases ou seções.

IIIº Estudo – “Tempo de chorinho” (Sol maior): Estudo de grandes e súbitas

mudanças de agógica, inicia-se por trabalho de melodia com respostas no baixo (alla “baixaria”30 de choro). O aspecto melódico é tratado em escalas e em intervalos de

terças, sextas, décimas e em blocos de acordes com 3 ou 4 notas, com conotação caipira.

IVº Estudo – “Allegro Scherzoso” (Mi menor): Estudo de ligados de grande

agilidade em ritmo de galope. Primeiramente apresenta ligados ascendentes aplicados a arpejos (com notas de passagem) de grande extensão e em seguida, ligados descendentes acompanhados por pontuações de acordes. Há seção central lenta com melodia na voz inferior acompanhada por acordes no contratempo que depois é repetida em arpejos.

Vº Estudo – “Vagaroso” (Lá menor): Estudo lento e interpretativo também de

caráter seresteiro com uma considerável variedade de texturas. Inicia-se com blocos de acordes (4 notas) contra baixo (com uma voz a três vozes), gerando saltos verticais de md similares a repetição do Estudo 6 de Villa-Lobos. A segunda seção (que é rememorada no final) apresenta acordes de cinco notas com notas ligadas, o que trabalha independência da me e a dinâmica suave exige controle da md. A melodia principal do estudo somente é apresentada na segunda página, primeiramente na voz inferior (polegar) acompanhada por pontuações de acordes chapados e arpejados. No compasso 64, a mesma melodia aparece na voz superior acompanhada por acordes quebrados. Também há aparições de escalas cromáticas, acordes plaqués repetidos insistentemente e harmônicos artificiais.

VIº Estudo – “Assai Vivo” (Sol maior): De caráter amaxixado, trabalha

principalmente arpejos variados, mas com ocorrência de outras texturas, como escalas (seja de ligação ou cadenciais) e melodia no baixo pontuada por acordes. O tema principal (re)aparece nos compassos 1, 55 e 76 sempre com tratamento textural distinto. Na primeira seção ocorrem notas repetidas no meio dos arpejos em textura pouco usual ao instrumento, mas que se tornou idiomática de Mignone.

VIIº Estudo – “Molto Lento/Cantiga de ninar”31 (Fá sustenido menor): Estudo

interpretativo em “tonalidade pouco familiar entre os violonistas” (Antunes e

30 “Baixaria” é o nome que os músicos populares, tocadores de choro e samba, dão às passagens escalares graves (nos bordões) normalmente sublinhando os encaminhamentos harmonicos.

Fernandes, 2009, p. 31) criando dificuldades severas de sustentação de legato na me, mesmo com o alerta do compositor no rodapé da partitura ao dizer que a obra “foi escrita desse jeito apenas para que o executor faça vibrar os sons o mais que possível”. Tais dificuldades podem ser sanadas por digitação atenciosa. A textura é de melodia (1 ou 2 vozes paralelas) acompanhada por pontuações de acordes densos. Há ocorrência de harmônicos naturais e artificiais, por vezes duplos (no manuscrito).

VIIIº Estudo – “Allegro” (Sol menor): “Um dos mais difíceis da série, possui

elementos de trabalho que vão de arpejos e escalas até a rasgueados e notas repetidas” (Antunes e Fernandes, 2009, p. 31). Contrastando com a harmonia áspera e ritmo frenético predominante da peça, a peça é finalizada com acordes maiores paralelos de conotação também caipira.

IXº Estudo – “Allegro Moderato” (Sol maior): Também preconiza o trabalho

de arpejos (em posição fechada), mas neste caso com muitas mudanças de padrões (md) que às vezes ocorrem a cada compasso, em atitude pouco habitual ao instrumento mas benéfica ao estudo. A sonoridade da primeira e longa seção remete algo entre uma “levada” de choro e o ponteio de uma viola caipira, sendo esta segunda ainda mais evidenciada na seção lenta, por suas lentas melodias em terças, décimas e em blocos de acordes. Há ocorrência eventual de escalas ligando seções.

Xº Estudo – “Lento e com muito sentimento” (Fá menor): “Mostra os desafios

de melodia acompanhada com o peso correto dos acordes” (Antunes e Fernandes, 2009, p. 31) sobretudo na primeira e última seção, que em tonalidade pouco favorável somada a andamento lento, também exige molto legato realizável apenas atencioso com trabalho de independência de movimentação dos dedos da me. A seção central também trabalha melodia acompanhada, mas agora em arpejo também em posição fechada.

XIº Estudo – “Andante” (Ré menor): “Com seu subtítulo Spleen (que nos

remete rapidamente a aspectos da literatura romântica, inclusive a de autores brasileiros da primeira metade do século XIX), é novamente mais um estudo de interpretação (Antunes e Fernandes, 2009, p. 31)”. A primeira seção apresenta melodia que se movimenta primeiramente em blocos de acordes plaqué na região médio-grave, contra pontuações no baixo, exigindo trabalho em blocos da md. Em seguida a melodia é desenvolvida pela voz superior com acompanhamento mais complexo, levando ao clímax no compasso 26 com interessante e rara figuração em quiálteras de sete. O final sutil é alcançado pelo uso de harmônicos e reexposição variada da introdução.

XIIº Estudo – “Com velocidade” (Mi menor): É considerado um dos mais

difíceis da série, principalmente por sua extenuante primeira seção de escrita muito pianística e consequentemente pouco violonística (sobretudo para me), que trabalha acordes plaqué com melodia em ligados, passagens escalares, arpejos, finalizada por uma interessante rememoração do tema no baixo. A seção contrastante é diametralmente mais simples, com melodia (em décimas e oitavas) quase “folclórica” (Apro, 2004, p.111), num nítido propósito de dar descanso ao intérprete. Após repetição da primeira seção, há retorno a este tema quase folclórico, agora levemente modificado e tocado em acordes cheios sob a indicação molto arpeggiato, finalizados com súbita escala descendente e acordes sforzando.

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