3 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO PROBLEMA
3.4 A criação das regras
3.4.1 Os Operadores do Sistema Penal Brasileiro
Os operadores do sistema penal são o Ministério Público, os juízes, as polícias, os agentes e os técnicos penitenciários, ou seja, aqueles que podem atuar desenvolvendo uma atividade seletiva, contribuindo para o surgimento de uma discriminação e estigmatização ao construírem socialmente classes e áreas perigosas e grupos marginais.
O Ministério Público, de acordo com o art.127, CF/88, é uma instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-se da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Tem a função de zelar
pelo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços que têm importância pública de acordo com a Constituição.
É assegurada à promotoria uma autonomia administrativa e funcional que, segundo o art.169, deverá propor ao Poder Legislativo a criação e a extinção de cargos e serviços auxiliares, cabendo a função de promover inquérito e ação civil para a proteção do patrimônio público e social, proteção do meio ambiente e também exercer um controle externo da atividade policial.
O Poder Legislativo é aquele responsável por legislar e criar leis que são aplicadas a toda a sociedade e, assim como o Ministério Público, tem a autonomia da proposição de novas leis e, consequentemente, novas regras. Isso se torna um ponto polêmico, pois, dependendo da atuação de determinada promotoria pública pode haver fortalecimento do viés criminal em toda sociedade.
Sabemos que o acesso à justiça é desigual, lento, sem transparência e com procedimentos que demonstram injustiça e desigualdade social, por isso, sentimentos de insegurança e medo são fortalecidos na população diariamente e ela, se sentindo-se receosa e desprotegida, desenvolve um controle social, informal e privado, ao se fechar em condomínios, casas com muros altos, com câmeras espalhadas por todos os lados, vigias particulares, carros à prova de bala, agências bancárias protegidas com sistemas detectores de metais. Tais medidas promovem a progressão de vigilância e controle crescentes e produzem, continuamente, condutas criminalizantes, encarceramento, censura e segregação social.
Há uma escolha dos locais nos quais o aparato policial irá atuar no exercício de sua função. Sendo a polícia “uma organização autorizada pela coletividade para regular as relações via utilização, se necessário, da força física” (SAPORI, 2007, p. 99), observamos que o uso instrumental da violência muitas vezes serve de acusação pública pela sua brutalidade e discriminação para com os grupos que estão socialmente marginalizados na sociedade.
Nossa política policial é baseada no pensamento de que o indivíduo é “um consumidor hedonista racional, isto é, perfeitamente comum, um homem situacional inteiramente desprovido de parâmetros morais ou de controle interno, afora uma capacidade limitada para o cálculo racional e a procura do prazer” (GARLAND, 1999, p. 67).
As práticas policiais caracterizadas por mais repressão, mais criminalização de condutas e, consequentemente, mais encarceramentos e mais controle, não perdem tempo com pequenos casos, nem mesmo com reabilitações de criminosos. As ações são baseadas no pensamento de que o Estado isoladamente não pode controlar a criminalidade e que a
população é responsável por calcular melhor os riscos, assim como os criminosos calculam suas ações. É dever das possíveis vítimas a realização de estratégias que dificultem a ação dos criminosos. Para o aparato policial, a vítima é a responsável por proteger sua propriedade, adquirindo técnicas modernas de segurança como alarmes, porteiros eletrônicos, câmeras de vigilância, evitando andar em locais ermos e não sair à noite desacompanhada, dentre muitas outras. É a vítima, como todo e qualquer cidadão, o responsável por reduzir as ocasiões de crime. Isso caracteriza o que Garland denomina de Estratégias de Responsabilização em que
A mensagem recorrente é a de que a responsabilidade da prevenção e do controle do crime não recai mais apenas sobre o Estado, mas também sobre os varejistas, sobre os industriais, os urbanistas, as autoridades escolares, as empresas de transporte, empregadores, pais, etc. (GARLAND, 1999, p.70).
Percebemos nas atuações de nossas polícias uma afronta aos princípios de cidadania e aos princípios democráticos, ao constatarmos práticas com confronto direto e violento, ocasionando maior número de mortes seja de policiais, criminosos ou inocentes. Essas práticas pretendem aumentar o encarceramento, como se essa medida fosse capaz de diminuir a violência e a criminalidade. Franklin E. Zimring (2001), no seu artigo Imprisonment Rates and the New Politics of Criminal Punishment, analisa que as taxas de encarceramento nos EUA, no período após 1993, estavam subindo mesmo quando os crimes diminuíam e isso se deveu a novas políticas de severidade penal que o país adotou, mostrando-nos que não existe relação direta com um aumento do encarceramento e a diminuição de crimes.
Notamos que a Polícia Militar no Brasil incorporou, na sua prática de atuação, as teorias baseadas na abordagem ecológica e na Teoria da Escolha Racional – Teoria das Oportunidades – designação genérica para um conjunto de teorias centradas no estudo do evento criminoso, do crime e do desvio. Fundamentados com essas explicações sociológicas, os policiais partem do princípio de que numa mesma cidade há taxas de criminalidade maiores do que em outras, devido às taxas dos riscos serem maiores. Diante desses pressupostos, os policiais trabalham no intuito de identificar as áreas de maior risco, as chamadas Zonas Quentes, e estão imbuídos do pensamento de que a oportunidade faz o ladrão. Assim, três elementos são essenciais para que o crime aconteça: um delinquente motivado, um alvo disponível e uma ausência de policiamento.
Objetamos a idéia adotada por tais práticas de policiamento militar, as nuances desse processo apontam quase sempre para o sujeito, que é visto como ser racional e diante dessa sua racionalidade tudo irá recair sobre ele. Todo mundo é frio e calculista, não há mais crime
que não aconteça a partir de um cálculo. A acusação se emancipa da transgressão e recai sobre o sujeito que cometeu o ato, o que o torna frágil do ponto de vista moral, pois investe no caráter, na educação, na qual o poder de acusação seja aumentado com uma possibilidade de defesa incapaz.