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2 Pressupostos teórico-conceituais

2.1 A Biblioteca Escolar

2.1.2 Os papéis educativos da Biblioteca Escolar

Campello (2003), ao realizar um extenso estudo bibliográfico sobre a função educativa da biblioteca escolar no Brasil a partir de textos acadêmicos publicados em periódicos e anais de encontros de biblioteconomia, no período de 1960 a 2003, faz referência à Escola Nova. A autora retoma as contribuições de Lourenço Filho para romper com a concepção segundo a qual a BE deveria funcionar apenas como um depósito de livros, pontuando dois papéis educativos: o da pesquisa e o da leitura. Ela também apresenta nesse trabalho a ação cultural como uma outra atribuição da BE, proposta pelos bibliotecários. Neste sentido, podemos

7 Tal como apresentado na Introdução, de acordo com Censo Escolar de 2017, há salas de leitura ou BEs em 29,7% das escolas municipais de Educação Infantil; 38,9% das escolas municipais de Ensino Fundamental e 85,9% das escolas estaduais de Ensino Médio.

considerar que três papéis educativos caracterizam a BE: o da pesquisa, da leitura e o da ação cultural.

Em consonância com essa perspectiva, Hillesheim e Fachim (1999, p.68) apresentam os seguintes objetivos para este espaço:

[...] ampliar conhecimentos, visto ser uma fonte cultural; colocar à disposição dos alunos um ambiente que favoreça a formação e desenvolvimento de hábitos de leitura e pesquisa; oferecer aos professores o material necessário à implementação de seus trabalhos e ao enriquecimento de seus currículos escolares.

Ainda que os referidos papéis educativos se mostrem interligados, a seguir discutiremos cada um deles separadamente, visando a elucidação de algumas de suas especificidades.

Com respeito ao papel educativo da pesquisa, este tem sido denominado entre os bibliotecários como “competência informacional”. Essa concepção, originalmente surgida nos Estados Unidos, foi sendo disseminada e usada por estudiosos na área em vários países. Grosso modo, ela implica em um conjunto de habilidades voltadas para uso de informações. À medida em que os estudos se ampliaram, o termo passou a abranger, também, as habilidades de compreender, pensar e analisar informações em qualquer tipo de fonte, seja ela impressa ou eletrônica. A esse respeito, Andrade (2008) evidencia a necessidade de que a BE se constitua de fato em um espaço vivo de aprendizagem, com vistas à formação de alunos participativos e preparados para viver no mundo contemporâneo, cercado por informações. Desta forma, podem ser realizadas nas bibliotecas atividades de localização de materiais (livros, revistas, jornais, enciclopédias, mapas), pesquisas na internet, rodas de debate, produção de textos de diversos gêneros, com vários recursos, e até mesmo exibição de filmes e documentários. O importante, para que a função informacional seja cumprida, é que sejam oferecidas várias possibilidades de uso do espaço e dos recursos que ele possui, e que os estudantes possam agir ativamente.

No tocante ao papel educativo da leitura, e conforme vimos afirmando, a BE se configura como “campo profícuo para o desenvolvimento de práticas de incentivo à leitura, como lócus privilegiado para a formação de leitores e em um núcleo ligado ao esforço pedagógico dos professores” (MORAIS, 2012, p. 39).

Nesta mesma direção, ao discutir a formação do leitor literário, Riter (2009) argumenta que há três possibilidades de atuação do professor que assume esta tarefa. A primeira é ler histórias e contá-las; a segunda alternativa, a qual detalhamos mais em função

da relação com o tema estudado, refere-se ao trabalho que pode ser desenvolvido na biblioteca. Para o referido autor, os professores da escola deveriam aliar-se ao responsável pela BE para transformar esse espaço no que, segundo Riter, ele realmente merece ser: “lugar de pesquisa, descoberta de universos literários, descoberta de novos autores, espaço de troca e de partilha literárias, ambiente para indicação e orientação de caminhos de leitura e contato com acervo de qualidade” (RITER, 2009, p.70). Neste sentido, visando a formação do leitor crítico, algumas práticas são sugeridas por Riter (2009): visitas guiadas à biblioteca, entrevistas com pais e professores sobre hábitos de leitura, saraus de poesia, autor do mês, construção de murais, indicação de leitura durante o recreio, varal de poemas, hora do conto; confraria da leitura (encontro periódico para conversar sobre textos), encontro com escritores, caixa de sugestões de títulos e encontros com os diferentes grupos de pessoas que formam a comunidade escolar. Finalmente, a terceira possibilidade apontada por Riter para a formação do leitor literário diz respeito a ação de mediador, em que o professor assume papel importante na aproximação dos estudantes com a leitura.

Consideramos que as formas de atuação do professor sugeridas por Riter (2009) acima também podem ser perfeitamente estendidas ao profissional que atua na BE. Desta forma, ao desenvolver o papel de formar leitores, a BE (que tem certas características diferentes da sala de aula) deve dispor de um acervo abundante, diverso, de qualidade e voltado aos usuários que a frequentam; propor atividades culturais permanentes e desenvolver projetos que instiguem o prazer pela leitura (não apenas literária) e, sem dúvida, precisa contar com profissionais capacitados para mediar momentos de leitura.

A respeito do papel fundamental dos mediadores de leitura, no glossário CEALE, eles são definidos por Reyes8 (2019) como “aquelas pessoas que estendem pontes entre os livros e os leitores, ou seja, que criam as condições para fazer com que seja possível que um livro e um leitor se encontrem”. Bajard (2007, p. 43), por sua vez, define o mediador de leitura como “a pessoa que se interpõe entre o texto e o receptor, tendo em vista facilitar sua recepção”. Vemos, portanto, a importância de contar com bons mediadores de leitura nas BEs.

Por fim, no que se refere ao papel educativo de ação cultural a BE “[...] tem a possibilidade de privilegiar a formação não apenas de indivíduos leitores, mas indivíduos críticos capazes de produzir cultura” (CHAVES, 2015, p. 269). Neste sentido, ressaltamos a compreensão de biblioteca defendida pelo PNLL, em que este espaço é definido como um

equipamento cultural que deve congregar “[...] elementos de acessibilidade do espaço físico; a

8 Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/mediadores-de-leitura Acesso em 02 de agosto de 2018.

ampliação e a qualificação do acervo; a contratação de mediadores de leitura capacitados; a incorporação à biblioteca de diferentes suportes de texto e novas tecnologias” (BRASIL, 2010, p.33).

O documento da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA, 2006) também destaca a função cultural que a biblioteca pode exercer, tornando-se um ambiente esteticamente estimulante, em que os alunos possam criar e vivenciar diversas experiências construtivas. Assim, o documento afirma que:

[...] eventos especiais podem ser organizados na biblioteca, tais como exposições, visitas de autores e datas internacionais comemorativas. Se houver espaço suficiente, os estudantes podem apresentar encenações inspiradas na literatura, para os pais e outros colegas; o bibliotecário pode organizar reuniões [para troca de ideias] sobre livros e também a “hora do conto”, para alunos mais jovens; ele pode estimular o interesse pela leitura e organizar programas que promovam o desenvolvimento do gosto pela literatura (IFLA, 2006, p. 19).

Uma biblioteca baseada na perspectiva apresentada disponibiliza informação em diferentes suportes, assim como se torna um polo cultural, ampliando e diversificando possibilidades para que as pessoas possam construir conhecimento a partir do ato de ler. Para exercer plenamente os papéis educativos citados acima abordaremos, no próximo item, alguns referenciais orientadores nacionais e internacionais.