6 A PESQUISA EMPÍRICA: METODOLOGIA, TIPIFICAÇÃO,
7.3 A TEORIA NA AÇÃO PEDAGÓGICA DOS PARTICIPANTES
7.3.5 Os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Programa de
Para tentar depreender o que os professores compreendem a respeito de documentos oficiais nacionais como os Parâmetros Curriculares Nacionais e a respeito do programa de formação continuada Pró-letramento, formulamos uma série de itens para que respondessem se concordavam ( letra C – coloração vermelha no Gráfico 12) ou discordavam (letra D – coloração lilás no Gráfico 12) das afirmações feitas. Nesta subseção, faremos a análise quantitativa
dos dados, pois não abordamos na entrevista questões específicas a respeito desses documentos. O Gráfico 12 representa as respostas da questão 23 do questionário (Anexo 1) que aborda questões dos PCNs, sendo elas: 231 – É preciso “aprender a ler lendo” e “aprender a escrever escrevendo”; 232 – Os PCNs recomendam que o ensino na alfabetização comece pelo conhecimento das letras isoladas; 233 – É necessário que o professor ensine o código escrito em conjunto com o uso social da escrita; 234 – O papel do professor é fundamental no processo de alfabetização; 235 – A reescritura dos próprios textos pelos alunos não é eixo central do processo de ensino de ensino da escrita; 236 – A produção de textos para interlocutores reais é recomendada após a concretização da alfabetização. Eis a representação dos dados:
Gráfico 12 – Os Parâmetros Curriculares Nacionais Fonte: construção da autora
No Gráfico 12, percebemos, no item 233, que 89,3% (coloração vermelha na coluna 233) dos alfabetizadores entendem que, no texto institucional, está registrado que é necessário que o professor ensine o código escrito em conjunto com o uso social da escrita. Os educadores também concebem, na sua maioria, que os PCNs defendem o papel do professor como fundamental no processo de alfabetização – 86,9% (coloração vermelha na coluna 234) – e que é preciso “aprender a ler
lendo” e “aprender a escrever escrevendo” – 82,1% (coloração vermelha na coluna 231).
Sabemos que os PCNs, na verdade, veiculam abordagem teórica que deriva de estudos acadêmicos no campo da linguagem e da educação. Britto (2005) e Kleiman (1995) são exemplos dentre os estudiosos da área que defendem alfabetização que compatibilize o ensino do código escrito e dos usos sociais da escrita. Em relação ao papel do professor, Vigotski (2008 [1984]) faz ampla discussão sobre a importância da ação docente no processo de aprendizagem, debate a que já fizemos remissão. Quanto aos comportamentos de “aprender a ler lendo” e “aprender a escrever escrevendo”, são estratégias metodológicas que, assim como quaisquer outras, exigem do professor, segundo Madalena Freire (1997), planejamento.
Também podemos ver, no item 232 do Gráfico 12, que 82,1% (coloração lilás na coluna 232) dos professores discordam de que os PCNs recomendem que o ensino na alfabetização comece pelo conhecimento das letras isoladas. Os alfabetizadores também discordam, no item 235, mas não de forma tão impactante estaticamente, que a reescritura dos próprios textos pelos alunos não é eixo central do processo de ensino da escrita – 65,5% (coloração lilás na coluna 235). Além disso, pouco mais da metade dos participantes da pesquisa – 52,4% (coloração lilás na coluna 236) – não compactua com a ideia de que a produção de textos para interlocutores reais é recomendada somente após a concretização da alfabetização.
Ao lermos os Parâmetros Curriculares Nacionais, perceberemos que o documento orienta o ensino na alfabetização comece pelo texto:
Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizadas, pouco têm a ver com a competência discursiva, que é questão central. Dentro desse marco, a unidade básica de ensino só pode ser o texto (BRASIL – PCNs, p. 29).
O documento registra que a reescritura é eixo central e a produção de textos para interlocutores reais não é apenas recomendada após a concretização da alfabetização, mas durante todo o processo. Em um primeiro momento, a partir desses dados, poderíamos inferir que número expressivo de professores leu e se apropriou das informações
dos PCNs. No questionário, contudo, veiculamos afirmações que são óbvias para o senso comum, pois dificilmente alguém não concordaria com a afirmação “o papel do professor é fundamental no processo de alfabetização”. Assumimos a impropriedade de nossa textualização nesta questão, o que entendemos ter comprometido os resultados da pesquisa, pois, mesmo que o documento nunca tenha sido lido, os professores conhecem cada um dos itens tematizados na questão, dos quais podem ter se apropriado possivelmente, de forma indireta, por meio de leitura de livros didáticos ou da participação em formações continuadas.
Quanto ao Pró-letramento, os participantes da pesquisa precisaram responder se concordavam ou discordavam de itens na questão 24 do questionário (Anexo 1) referentes ao documento destinado à formação continuada de professores mantido pelo MEC. São eles: 241 – É um método de alfabetização criado pelo Ministério da Educação do Brasil; 242 – É um programa de formação continuada do MEC para professores; 243 – O ensino do código deve acontecer em contextos de uso da língua; 244 – Nos três primeiros anos de alfabetização, o aluno deve alcançar algumas habilidades, como por exemplo, dominar convenções gráficas, conhecer o alfabeto, dominar as relações entre grafemas e fonemas; 245 – O uso social da escrita sucede o processo de alfabetização; 246 – O desenvolvimento das habilidades orais durante a alfabetização é atividade apenas de natureza complementar. Os resultados estão explicitados no Gráfico 13 em que a coloração vermelha corresponde à concordância dos participantes acerca da afirmação feita e em que a coloração lilás corresponde à discordância dos participantes em relação à afirmação feita.
Gráfico 13 – Pró-Letramento Fonte: construção da autora
Em todos os itens do Gráfico 13, as respostas convergem para o resultado esperado. No item 243, 76,2% (coloração vermelha na coluna 243) dos professores, por exemplo, afirmam que o texto defende o ensino do código em contexto do uso da língua, e, no item 244, 75% (coloração vermelha na coluna 244) afirmam que, nos três primeiros anos de alfabetização, a criança deve alcançar habilidades como dominar convenções gráficas, conhecer o alfabeto, dominar as relações entre grafemas e fonemas. Ambas as informações aparecem claramente no documento no Quadro 2 da página 24 do primeiro fascículo, que mostra algumas capacidades, atitudes e conhecimentos que a criança deve adquirir ao longo desse tempo. Todos esses dados aparentemente demonstram o conhecimento desses professores sobre o texto do MEC, discussão a que voltaremos à frente.
Os participantes da pesquisa concordam, no item 242, que o Pró- letramento é um programa de formação continuada do MEC para professores – 72,6% (coloração vermelha na coluna 242). Confirmando essa estatística, no item 241, 57,1 % (coloração lilás na coluna 241) dos alfabetizadores discordam que o Pró-letramento é um método de alfabetização criado pelo Ministério da Educação do Brasil. Os professores também discordam, no item 246, que o desenvolvimento das habilidades orais durante a alfabetização é atividade apenas de natureza
complementar – 75% (coloração lilás na coluna 246) –, pois o documento veicula justamente a afirmação contrária: o Quadro 5 da página 54 do primeiro fascículo apresenta diversas capacidades, conhecimentos e atitudes ligados à oralidade, os quais devem ser prioridade na alfabetização. Os alfabetizadores discordam, ainda, mas não de forma tão enfática – 47,6% (coloração lilás na coluna 245) – da afirmação constante no item 245, de que o uso social da escrita sucede o processo de alfabetização. Acreditamos que esse percentual decorra da dificuldade de interpretação que alguns professores tiveram na questão, pois, como vimos em seção anterior (subseção 7.3.3 e Gráficos 10), os professores já se apropriaram – ainda que possivelmente tenha sido via senso comum e via programas de formações continuadas – da compreensão de que o uso social da escrita é parte do processo de alfabetização.
Assim, esse desempenho docente aparentemente bastante favorável, sintetiza o conhecimento desses professores acerca do documento, pois inferimos que alguns deles já tenham participado da formação do Pró-letramento, já que a Rede Municipal de Florianópolis realiza esse trabalho com seus professores. Por outro lado, assim como aconteceu na questão que buscou depreender as concepções dos professores sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais, por falha do questionário desta pesquisa, os itens da questão do Pró-letramento são passíveis de serem respondidos mesmo por alguém que nunca tenha lido o documento, o que gerou dados estatísticos favoráveis e possivelmente comprometeu os resultados de toda a questão.
7.3.6 A compreensão dos participantes de pesquisa sobre os