• Nenhum resultado encontrado

3 O CAMPO TEÓRICO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL: GÊNESE, CRÍTICA E CONTESTAÇÃO

3.2 O CONTEXTO DOS ANOS 90 NO BRASIL

3.2.1 Os paradigmas do desenvolvimento em torno do “local”

É bem verdade que, a partir da década de 90, os novos conteúdos dos conceitos de desenvolvimento utilizados superaram o excessivo economicismo e se diferenciaram na maneira como consideraram o “local”. Nesse sentido, serão analisadas, à luz das contribuições de Arocena (1986), os enfoques teóricos adotados, que vão do tradicional ao moderno, ao transitar por pensamentos que foram abandonados frente ao (re)surgimento do desenvolvimento local, na tentativa de compreender os novos rumos adotados pela sociedade na concepção do “local”.

A partir de 1976, as idéias evolucionistas entraram em decadência diante da não-constatação, por parte dos países industrializados, de um desenvolvimento ininterrupto e da recusa, por parte dos países do Terceiro Mundo, das exigências uniformizantes do modelo de desenvolvimento proposto. No enfoque evolucionista, a noção de desenvolvimento esteve diretamente ligada à noção de evolução e progresso linear; então, o ponto de chegada na escala do desenvolvimento seria determinado a partir de um modelo que permitiria a determinação de critérios para o grau de avanço no processo evolutivo. As sociedades chamadas de desenvolvidas foram determinadas pelo processo de industrialização pelo qual passaram, sendo este concebido como o único movimento de evolução de uma sociedade avançada. A partir da determinação da existência de um ponto de chegada das sociedades, foi imposto, também, uma dimensão homogênea dos eixos biológico, psicológico e social. Este tipo de concepção supunha a existência de um princípio positivo, movimento universal para o progresso; e um outro negativo, que engloba as resistências tradicionais de caráter local. Desta forma, as tradições locais eram vistas como obstáculos à introdução de tecnologias do desenvolvimento; portanto, seria fundamental, dentro dessa perspectiva, que características importantes do “ser local” fossem suprimidas.

Desta maneira, o modelo de desenvolvimento colocado foi marcado muito mais por relações de dependência, interdependência e dominação do que, necessariamente, por uma racionalidade universal de crescimento econômico. Isso significa que a concepção evolucionista não conseguiu explicar a situação de subdesenvolvimento de um país. Essa perspectiva não respondeu se o “atraso” é um retardo ou uma etapa dentro da escala do processo evolutivo, pois se assim o fosse, as distâncias entre os países deveriam diminuir com o tempo. Mas, caso se reconhecesse que se trata de uma posição dentro do sistema, essas distâncias não estariam passíveis de serem reduzidas – a menos que novos atores históricos fossem capazes de mudar de maneira substancial essa configuração (AROCENA, 1986).

Todavia, essa perspectiva defendeu que um processo de desenvolvimento passa por várias etapas diferentes, o que explica que certos países sejam “desenvolvidos” e outros em “vias de desenvolvimento”. A questão, como aponta o autor supracitado, é que a lógica de desenvolvimento apresentada não incorpora noções distintas de desenvolvimento e, muito menos, admite uma pluralidade de modos diferentes que interagem uns com os outros. Em contrapartida, a partir dos processos de democratização nas nações do Terceiro Mundo, uma concepção em termos de políticas de desenvolvimento substituiu a concepção de movimento universal que segue uma lei natural de progresso. Nesse sentido, para conceber um modo de desenvolvimento “correto”, a emergente lógica historicista do desenvolvimento, nos idos dos anos 80, admitiu que era preciso conhecer os recursos locais, as potencialidades humanas, as heranças do passado e as características específicas da sociedade em questão.

A busca da particularidade local levou a sociedade a um outro enfoque do desenvolvimento, que abandonava as idéias evolucionistas, ligado ao pensamento historicista. Esse tipo de concepção sublinhou o caráter único e inteiramente novo de cada processo de desenvolvimento, como a expressão acabada da heterogeneidade. Ao contrário do enfoque evolucionista, para o enfoque historicista, não é essencial o estabelecimento de um “ponto de chegada” pelo modelo, o importante é o “ponto de partida”. A possibilidade real do desenvolvimento estaria relacionada com fatores que vêm do passado, ou seja, os atores locais deveriam buscar nos traços do passado suas determinações para o futuro. É justamente por isso que o desenvolvimento de cada local seria marcado por uma história que refletiu as opções políticas de uma elite que esteve (ou permanece) à frente desse processo.

Nesse sentido, a palavra-chave não seria progresso, mas estratégia. A lógica que se segue não estaria mais dirigida por uma lei econômica “natural”, e sim por uma opção política adaptada a cada realidade específica. Através desse olhar, o desenvolvimento assumiu um caráter extremamente “novo”, pois cada sociedade seria única e os valores únicos que a estruturam, a base de sua identidade coletiva. Assim, ao se deparar com crises de desenvolvimento, seria preciso examinar os conflitos de identidade existentes, pois, para que estas crises fossem superadas, seria necessário um retorno aos processos constitutivos de identidade coletiva.

Esse enfoque busca no interior de cada sociedade as respostas aos desafios do desenvolvimento; desta maneira, o global deve adaptar-se ao local e, por isso, o desenvolvimento tem como exigência a transferência de tecnologias através da apropriação tecnológica local, isto é, a produção do conhecimento não seria universal, necessitaria de uma capacidade local de criação. O argumento baseou-se na consideração de que uma pequena localidade se adapta melhor a uma concepção de desenvolvimento que considera cada especificidade.

A noção de especificidade, por sua vez, seria um produto da duração histórica e giraria em torno da articulação da sociedade numa matriz que possui quatro fatores: a produção da vida, a produção da vida material, a ordem social (Estado) e as relações com a temporalidade. Ao mesmo tempo, o “local” não é considerado como um receptor passivo das técnicas produzidas em outros meios, mas é um produtor que integra suas especificidades nos processos de criação de conhecimento.

As expressões do enfoque historicista do desenvolvimento buscaram fazer frente a um modelo dominante de desenvolvimento; mesmo assim, não se pode deixar de ressaltar que cada processo histórico está orientado por uma elite e suas disputas de poder, estratégias e guerras. Por isso, o enfoque historicista, apesar de considerar as especificidades locais, não é um processo orientado por toda a sociedade. Adiante será confirmado que o subdesenvolvimento está intimamente ligado ao desenvolvimento, a pobreza à riqueza, e um dos eixos analíticos essenciais concerne à análise das tensões entre esses pólos. Mesmo com toda a valorização das especificidades locais por parte do enfoque historicista, não se pode esquecer que a sociedade local se desenvolve no interior de um sistema que a condiciona e a circunscreve; por isso, o local tem de ser considerado também com seus limites globais.

Por outro lado, identificou-se uma outra linha de pensamento que, embora abandone o enfoque evolucionista do desenvolvimento, não compartilha dessa

capacidade de superação indiscriminada das desigualdades sociais e econômicas promovidas pelo desenvolvimento local frente aos processos de globalização. Entendeu- se que a concepção estruturalista pode funcionar como um ponto crítico do historicismo. O enfoque estruturalista concebe o desenvolvimento como um processo sistêmico, no qual os componentes estruturais são interdependentes, em um campo político de relações de poder entre dominantes e dominados. Essa visão não prevê uma linha evolutiva e nem o aprofundamento de um campo histórico, o êxito do processo de desenvolvimento exigiria ações orientadas pela racionalidade de um sistema sobre suas ações estruturais. Portanto, a contradição que esse enfoque poderia provocar está na transformação do sistema; por isso, há esforços teóricos na precisão dos fatores determinantes desse sistema. A idéia de reprodução é um fator fundamental na estrutura que se coloca; conseqüentemente, a figura do ator histórico desaparece mediante o peso das estruturas. Desta forma, o “local” é considerado como um simples lugar de reprodução dos mecanismos globais.

Assim como as outras abordagens anteriores, na concepção de Arocena (1986), o enfoque estruturalista não é suficiente para dar respostas ao subdesenvolvimento, pois não recorre à história e parte do pressuposto de que se reduz aos limites de um quadro imóvel. Os processos de desenvolvimento não podem ser reduzidos à reprodução infindável dos mesmos efeitos, na medida em que se admite a existência de transformações consideráveis na sociedade e o surgimento de novos atores que tentam constituir projetos alternativos e contra-hegemônicos no campo do desenvolvimento. Desta forma, a permanente construção de novas capacidades de ação local mostram que as posições dentro de um sistema não são imutáveis; logo, a localidade é e pode ser produtora da realidade social. A aproximação com o “local” supõe uma visão completa do eixo social a fim de evitar os “enganos reducionistas do evolucionismo modelizante, do historicismo particularista e do estruturalismo globalizante” (AROCENA, 1986).

A perspectiva que se coloca para responder essas questões é proposta por Alain Touraine, presente em Arocena (1986), quando consegue estabelecer a diferença entre “modo de produção” e “modo de desenvolvimento”. Concebe uma pluralidade de modos de desenvolvimento a partir da existência de diversos agentes do desenvolvimento que podem ser expressos pelo Estado, classe social ou um ator externo. Embora cada agente do desenvolvimento determine uma estrutura social que expressa vias de

desenvolvimento diferentes, há elementos em comum relativos a estrutura socioeconômica de determinado momento da história.

Assim, o comum e o diverso coexistem nas distintas vias de desenvolvimento. De qualquer modo, não se pode confundir os atores de classe que atuam no nível da estrutura do modo de produção, com aqueles atores históricos que fazem intervenções no nível do desenvolvimento, embora determinados tipos de atores ocupem ambas funções. Essa separação permite compreender a articulação entre os diversos atores nas várias vias de desenvolvimento. É claro que permanece aberto o debate sobre a capacidade e os limites possíveis da emancipação política quando o desenvolvimento se limita exclusivamente a uma perspectiva localista.

A partir dessa interpretação e levando em consideração os limites de um localismo mágico, pretende-se analisar nas duas sessões seguintes os conteúdos e as práticas do desenvolvimento local a fim de estabelecer uma linha divisória entre as duas faces de um mesmo movimento: adaptação ao “modo de produção” vigente ou contestação contra-hegemônica através de um outro “modo de desenvolvimento”. Isso sem esquecer, é evidente, de localizar a importância de três elementos que estão presentes nos enfoques historicista e estruturalista: a busca do específico na história local, uma ação lúcida no interior da lógica do sistema e uma ação sobre os sistemas de representações coletivas.

3.3 DESENVOLVIMENTO LOCAL: ADAPTAÇÃO AO “MODO DE PRODUÇÃO”