Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética, parecer nº 1.130.179, foi realizada a seleção dos casos pela equipe multidisciplinar do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Infantil de Lins. Após a identificação dos casos, cujo critério de inclusão foi os responsáveis de crianças com transtorno de conduta com idades de 7 a 12 anos residentes na cidade de Lins. Logo em seguida foi realizado contato telefônico com os participantes (responsáveis), solicitando o comparecimento dos mesmos à instituição para aplicação do questionário.
No dia 21 de agosto de 2015, os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, onde foi aplicado o questionário com dois participantes dos cinco selecionados dos quais três não quiseram responder.
Tabela 1 - Participantes da Pesquisa
Participantes Sexo Idade Parentesco
A Masculino 52 Pai
B Feminino 39 Mãe
Fonte: elaborado pelas autoras, 2015
As respostas foram analisadas considerando-se o critério de três questões de múltipla escolha e quatro dissertativas.
Na primeira questão os dois participantes responderam que o transtorno foi identificado há mais de um ano.
Mesmo o transtorno de conduta sendo diagnosticado com mais frequência na metade/final da infância ou adolescência, alguns estudos apontam que os sintomas podem aparecer em uma idade precoce como aos cinco anos. (ROBINS, RUTTER, apud CABALLO; SIMON, 2013).
Na segunda questão os dois participantes responderam que os sintomas identificados foram: mentiras, lutas corporais, furto, provocar, ameaçar ou intimidar outras pessoas, utilizar armas que possam causar danos físicos e ser cruel com pessoas e apenas o participante B respondeu que o filho apresentava também o comportamento de matar aula.
O transtorno de conduta segue um padrão de comportamentos repetitivos e persistentes, onde são violados os direitos básicos de outras pessoas, normas ou regras sociais relevantes e próprias para a idade, manifestado pela presença de três de quinze critérios diagnósticos nos últimos doze meses, com ao menos um critério presente nos últimos seis meses. (DSM-V, 2014).
Comportamentos como agressividade, desobediência e brigas podem ser notados por pais e professores ao longo do desenvolvimento normal da criança e adolescente, sendo assim uma avaliação é necessariamente indispensável para diferenciar o patológico da anormalidade. (DIAS, 2012)
Segundo Santos (2009) jovens e crianças com Transtorno de Conduta parecem obter um gene da periculosidade e a potencialidade de criminoso, fato este que nos levará a observar o olhar que tem sido projetado sobre esta face da juventude, não reconhecida completamente como humana, mas como um mal.
Os indivíduos com TC têm pouca empatia, preocupações e sentimentos do bem-estar alheio em situações ambíguas tendem a interpretar mal as intenções dos outros, e respondem de forma agressiva, destituídos de qualquer sentimento de culpa ou remorso. (RONCOLATO, 2011).
A terceira questão inclui as falas mais utilizadas pelos responsáveis quando a criança emite o comportamento, o participante A respondeu que quando a criança mente (diz que não pode ser mentiroso), quando a mesma furta (questiona o sumiço do dinheiro), quando briga (diz que sempre tem
alguém mais valente), quando machuca pessoas (diz que o valentão sempre encontra o valente), quando usa arma (diz que vai machucar outras pessoas). O participante B respondeu que quando a criança mente (diz que não pode mentir que é feio, quando falar a verdade, ninguém vai acreditar), quando a mesma briga (tenta verificar se está errado e fala para pedir desculpas), quando intimida (diz que não pode intimidar nem provocar), quando machuca pessoas (diz, não fiz isso com você, então porque você fez), quando mata aula (diz que está prejudicando o próprio estudo, sem estudo não somos nada).
Segundo Ballone e Moura (2008) os indivíduos com transtorno de conduta podem apresentar comportamentos de provocação, ameaça ou intimidação, iniciar lutas corporais com frequência e uso de armas ou objetos capazes de ferir alguém como tacos, bastões, garrafas, tijolos e etc.
Frequentemente falta intimidade de comunicação, entendimento mútuo, e afeição no relacionamento dos indivíduos com seus pais. (MUSSEN, et al, 2001).
“Nestas famílias, tanto os genitores quanto os filhos usam respostas aversivas como estratégia para lidar com os conflitos associados ao ambiente familiar”. (DIAS, 2012, p. 9).
A quarta questão, os dois participantes responderam que utilizavam como forma de punição o castigo, não deixavam os filhos saírem de casa, e o participante A também não deixava o filho assistir televisão, ambos afirmaram que em alguns momentos batiam e em outros apenas conversavam.
“O comportamento inapropriado não é recompensado e pode ter consequências desagradáveis, tais como uma perda temporária de privilégios”. (MUSSEN et al, 2001, p. 612).
As técnicas disciplinares as quais os indivíduos foram submetidos, provavelmente tenham sido inadequadas ou negligentes, envolvendo a punição física em vez de argumentação sobre a conduta inadequada da criança. (OLWEUS et al, apud MUSSEN et al, 2001).
O manejo dos pais que pode estar ligado ao desenvolvimento de condutas desviantes, está em uma série de interações diárias, onde os membros da família reforçam o comportamento negativo e os problemas da criança. (DIAS, 2012).
“Educação severa e punitiva, caracterizada por agressão física e verbal grave está associada ao desenvolvimento de comportamentos mal adaptativos de crianças”. (SADOCK, 2008, p. 1317).
Na quinta questão, ambos os participantes afirmaram que receberam orientação do CAPS Infantil de Lins, pela equipe multidisciplinar.
Segundo Harley, Murtag e Cannon (apud DIAS, 2012) consideram o TC como o transtorno com maior acesso da psiquiatria para a prevenção. No primeiro contato com o serviço de saúde mental a investigação desses pacientes não é feita adequadamente, mesmo apresentando o foco ideal para intervenções terapêuticas.
“Sendo assim, uma intervenção precoce no curso da doença ofereceria a melhor perspectiva de alteração do risco de surgimento de condutas antissociais durante o desenvolvimento do sujeito” (HARLEY, MURTAG, CANNON apud DIAS, 2012).
Na sexta questão, o participante A respondeu que as principais queixas escolares sobre o comportamento de seu filho, foram desafiar e desobedecer aos professores, matar aula e brigar com os demais alunos. O participante B respondeu que as principais queixas foram desobediência, intimidação e provocação a outros alunos.
Segundo Ballone e Moura (2008) os comportamentos inadequados do transtorno não ocorrem em apenas um contexto ou circunstância, podem ocorrer em todos os lugares que fazem parte da vida do sujeito tais como, escola, projetos, rua, casa e etc.
Para Bordin (2000) intervenções na escola podem ser eficazes na resolução dos conflitos entre professores e alunos, além de auxiliar maneiras adequadas para lidar com as dificuldades da criança.
Os comportamentos inadequados são generalizados a outras situações, mas a autoeficácia do comportamento nos diferentes ambientes depende do reforço negativo ou positivo que a criança recebe. (CABALLO; SIMON, 2013).
“Comportamentos como agressividade, desobediência e brigas podem ser percebidos pelos pais e professores ao longo do desenvolvimento normal da criança e adolescente”. (DIAS, 2012, p 3).
Na sétima questão, os dois participantes afirmaram que houve alterações em seus comportamentos depois de identificado o transtorno, o
participante A disse que ficou mais irritado, estressado, prejudicou o seu relacionamento conjugal e com os demais filhos, e o participante B disse que ficou mais triste e desanimado.
“Psicoterapia e práticas como atendimento psicopedagógico ou mudança do ambiente da criança devem ser acompanhados por intervenções com os pais sendo a profilaxia da doença dirigida a eles” (BARBIERI, apud DIAS, 2012).