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2. Concepções de letramento crítico e leitor crítico no ensino de língua

2.5 As propostas dos documentos oficiais para o ensino de LE

2.5.1 Os PCNEM e PCN+

No Brasil, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) (BRASIL, 2000), foram os primeiros documentos publicados que orientam o ensino de língua estrangeira no ensino médio em âmbito nacional. Esses documentos são resultado de um trabalho que envolveu especialista e educadores de todo país para redigir uma ferramenta que orientasse a organização curricular do ensino médio e auxiliasse os docentes em relação a suas práticas em sala de aula. O documento defende que “o domínio de línguas estrangeiras é uma forma de ampliar as possibilidades de acesso às outras pessoas, a outras culturas e informações. A língua estrangeira é vista como um conjunto de valores e de relações interculturais”(CUNHA E LOURENÇO, 2017, p. 167)

No que se refere ao ensino de língua estrangeira no ensino médio os PCNEM (2000) defendem que o ensino de uma língua “não visa apenas ao domínio técnico, mas principalmente à competência de desempenho, ao saber usar as linguagens em diferentes situações ou contextos, considerando inclusive os interlocutores ou públicos”(BRASIL, 2000, p. 92 apud CUNHA e LOURENÇO, 2017, p. 167). Isso demonstra uma visão ampla de linguagem que não se restringe a desenvolver apenas uma habilidade.

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Segundo Bedin (2017, p. 48), diferente dos PCNs do ensino fundamental, cujo foco está na leitura, os PCNEM (2000) priorizam o ensino comunicativo, pois torna-se

[...] fundamental, conferir ao ensino escolar de Línguas Estrangeiras um caráter que, além de capacitar o aluno a compreender e a produzir enunciados corretos no novo idioma, propicie ao aprendiz a possibilidade de atingir um nível de

competência linguística capaz de permitir-lhe acesso a informações de vários

tipos, ao mesmo tempo em que contribua para sua formação geral enquanto cidadão (BRASIL, 2000, p. 26. Grifo nosso)

Destacamos o desenvolvimento da competência linguística para comunicação como um dos grandes objetivos do ensino de línguas estrangeiras no ensino médio, de acordo com esse documento, pois “entende-se a comunicação como ferramenta

imprescindível no mundo moderno, com vistas à formação profissional, acadêmica ou

pessoal, deve ser a grande meta do ensino de Línguas Estrangeiras Modernas no Ensino Médio”(BRASIL, 2000, p.31. Grifo nosso). Portanto, observamos que nos PCNEM (2000) a língua estrangeira “assume a função intrínseca que, durante muito tempo, esteve camuflada: a de serem veículos fundamentais na comunicação entre os homens” (BRASIL, 2000, p. 26. Grifo nosso).

Nesse sentido, a língua estrangeira permite não somente a compreensão das possibilidades de visão de mundo e diferentes culturas, mas também, o acesso à informação e comunicação internacional. Por isso, segundo Bedin (2017), os PCNEM (2000) evidenciam a importância do ensino comunicativo das LEs e sua relevância para o mercado laboral. Esse documento parece se distanciar da concepção de língua estrangeira moderna apontada pelo letramento crítico, especialmente quando se afasta de uma noção discursiva de linguagem como prática social e a coloca em uma perspectiva mais próxima de noções funcionalistas alinhando seu posicionamento à uma noção de comunicação em língua estrangeira para fins utilitários, deixando de lado a preocupação com a formação de leitores críticos que constroem significados por meio do estudo das línguas.

Concordamos com Bedin (2017) que os PCNEM (2000) trazem à tona questões relevantes ao ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras ressaltando as competências e habilidades envolvidas nesse processo sem se referir a uma língua estrangeira em específico, o que nos permite interpretar que, esse documento não considera somente o ensino da língua inglesa, sendo assim suas orientações servem para o ensino de qualquer língua estrangeira.

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Embora esse documento esclareça que não pretende “determinar orientações ou caminhos a seguir no ensino de LE” (ERES FERNANDEZ, 2016, p. 3 apud BEDIN, 2017, 50), sabemos que eles não são interpretados dessa forma pelos docentes e gestores das instituições de ensino que muitas vezes fazem uso desses documentos para elaborarem os currículos e cursos. Por isso, alguns anos depois, publicou-se outro documento para complementar as orientações dos PCNEM (2000): as Orientações Curriculares Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+) (BRASIL, 2002) que

Entre seus objetivos está o de facilitar a organização do trabalho escolar na área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, explicitando, a articulação de competências gerais [...] e apresenta, ainda, um conjunto de sugestões práticas educativas e de organização dos currículos [...] bem como, traz elementos para a continuidade da formação profissional docente na escola (BRASIL, 2002, p. 4

apud BEDIN, 2017, p. 50)

Os PCN+ (2002) retomam as discussões sobre competências e habilidades, no entanto, enfatizam somente o ensino de língua inglesa e dá maior relevância para a habilidade de leitura e compreensão de textos orais e escritos. Nesse sentido, de acordo com Bedin (2017, p. 51), na parte destinada às competências abrangentes a serem trabalhadas em língua estrangeira, no subitem que se refere às estratégias para a ação evidencia-se a importância de “desenvolver o ensino de língua estrangeira por meio da leitura e interpretação de textos variados” e reforçar-se que “é essencial o desenvolvimento de técnicas de leitura que obrigatoriamente envolvam atividades de pré- leitura” (BRASIL, 2002, p. 108-111). Além disso, há uma seção intitulada “O texto como ponto de partida”.

Portanto, é notório nesse documento a defesa do ensino baseado na leitura e interpretação. Embora haja referência às outras habilidades linguísticas, a compreensão e a interpretação textual são habilidades dominantes. Concordamos com Marques (2014) que ao tratar de leitura e interpretação de textos, os PCN+ deixam indícios de sua filiação com uma noção de leitura coerente com uma abordagem interativaao expor que uma das competências a serem desenvolvidas é a de “perceber características quanto à produção dos enunciados, os quais são reflexo da forma de ser e pensar de quem os produziu (BRASIL, 2002, p. 107 apud MARQUES, 2014, p.76)”, ou seja, ao enfocar a capacidade de depreender dos textos as intenções dos autores. Nesse sentido sua visão de leitura estaria baseando-se exclusivamente nos sentidos que emergem das palavras do texto e da relação individual do aluno com o texto o que reforça um caráter cognitivista do trabalho

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com a leitura. O documento ainda traz as estratégias de leitura que considera fundamental em língua estrangeira moderna no ensino médio:

[...] é essencial o desenvolvimento de técnicas de leitura que obrigatoriamente envolvam atividades de pré-leitura e de preparação para a compreensão propriamente dita: guessing, exploração oral prévia do assunto e dos temas, levando sempre em conta o conhecimento anterior do aluno. Técnicas como

skimming132 e scanning133 do texto, levantamento de palavras-chave e pesquisa

de vocabulário reforçam o aprendizado autônomo e significativo (BRASIL, 2002, p. 109).

Esse documento ressalta a formação do leitor ativo e produtor de texto, “ser leitor ativo, participante dos processos de interlocução falados e escritos, bem como em menor escala ser produtor de texto orais e escritos” (BRASIL, 2002, p.97) e não a formação do leitor crítico, pois essa discussão era incipiente na época, e destaca que o foco do aprendizado deve estar centrado na comunicação e não no estudo metalinguístico.

Nota-se um indício de uma orientação sócio-cultural da leitura na sua concepção de língua: “[...] é pela língua que se organizam e se comunicam saberes dos quais os indivíduos devem se apropriar no âmbito social e cultural – para gerar significados e integrar-se no mundo de forma crítica.” (BRASIL, 2002, p. 98. Grifo nosso). Há também uma preocupação com a construção de uma identidade cultural do indivíduo frente a cultura do outro o que demonstra uma orientação sociointeracionista da linguagem nesse documento: “a construção da identidade cultural parte da consciência de se construir uma identidade linguística, constituída pelo estudo das conservação e das rupturas, da posição dos interlocutores em dado momento histórico, das negociações de sentido, intenções e expectativas envolvidas”(BRASIL, 2002, p. 98)

É importante destacar que os PCN+(2002) ampliam as orientações propostas pelos PCNs (2000) no que tange aos competências que devem ser desenvolvidos no ensino médio, além de incluir a discussão sobre o caráter profissionalizante do ensino médio, a dissonância entre as necessidades formativas dos contextos escolares e o que se escreve nos projetos político-pedagógicos pelo país, a necessidade da participação da comunidade nas decisões sobre o que acontece na escola e enfatiza a importância da interdisciplinaridade nesse nível de ensino.

132 procurar pistas no texto para inferir seu sentido geral, sem ater-se a detalhes ou a leituras prolongadas. 133 ler o texto com maior atenção, procurando por informações específicas.

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