Foto 3 − Passeio Público
2 LIMIARES DA LIBERDADE: A INFRAPOLÍTICA DOS DOMINADOS
2.3 Os pobres entre o trabalho, a caridade e o controle
(...) Ali é risonho ceu;/Sempre azul o firmamento,/Fresca aragem, brando vento,/O Sol ardente a brilhar;/Não se póde conceber/Que junto a tanta belleza,/Morra um povo na pobreza/À força de trabalhar./–Uma esmola por piedade–/Eis a prece ao Omnipotente; Desperta um anjo domente/Com esse grito universal:/Quem geme?/Quem soffre tanto?/– Diz o anjo ao Creador/– São filhos do teu amor,/Do Brazil, de Portugal./(...) E n’esse quadro afflictivo,/Que nos punge o coração,/Um anjo de salvação/Se mostra na immensidade./Quem és – pergunta a miseria –/Que me queres supplantar?.../Diz-lhe o anjo a soluçar:/“Quem sou eu?”. A caridade./Caridade! Tu... sorriso/Dos labios do Creador!/Etherea e mimosa flôr/Dos jardins da Creação./Abre os cofres do usuario,/Une plebe á fidalguia,/Faz da pobreza alegria,/Do rico e pobre um irmão.
O Retirante, ano I, nº 13, 16/09/1877, p. 01.
O excerto de O Retirante, de setembro de 1877, trata de uma solução antiquíssima para mitigar a pobreza. Historicamente associada à Igreja. Não é à toa que ali estão combinadas palavras-chave como amor, caridade, piedade, esmola, anjo, irmãos. Esta última para se referir a pobre e a rico. No trecho da publicação em tela, o argumento central é o de que a pobreza concerneria a fenômenos naturais, do tipo de uma intempérie, por exemplo. Omitem-se as causas sociais. Isto é, o processo de concentração da riqueza e dos privilégios por parte de alguns membros dessa aludida irmandade; figura com a qual a sociedade é ali representada. A ideia é a de que a sociedade seria uma grande família, reunida em torno de um Pai, mediador, mas que relegaria à Igreja esse papel. A paz dessa alegada ordem familiar deveria ser mantida. O que fica patente n’O Retirante de 8 de julho daquele ano: “Sim appellamos para a caridade
christã que une todos os corações e os colloca sob a protecção do mesmo Pae”200. Associações de caráter religioso ou não, como maçons201, grandes comerciantes e profissionais liberais também participavam de campanhas de caridade, apoio a instituições orfanológicas e de mendicidade.
Uma instituição concebida pelos irmãos Cunha Freire e José Albano, que ao longo de sua vida esteve ligado à administração da Santa Casa de Misericórdia, foi o asilo para alienados; “adicionado ao rol de instituições criadas – sob orientação científica de sanitaristas,
200O Retirante, órgão das vitimas da seca, ano I, n° 03, Fortaleza, Domingo, 08/07/1877, p. 01. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/770558/per770558_1877_00003.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2017.
201Para uma análise sobre a marçonaria no Ceará em relação à constituição de elites letradas, políticas e de espaços de sociabilidade burguesa, consulte-se: ABREU, Berenice. Intrépitos romeiros do progresso: maçons cearenses no Império. Fortaleza: Museu do Ceará; Secult, 2009, passim.
arquitetos e médicos – com a pretensão de esquadrinhar os mais íntimos recantos do cotidiano da cidade de Fortaleza”202. José Albano doou o terreno para a construção do que veio a se tornar o Asilo de Alienados de São Vicente de Paulo (em Porangaba, tornada freguesia em 1875). Esse asilo foi idealizado, principalmente, por Severiano Ribeiro da Cunha, que era maçom como tantos outros comerciantes e letrados de então. Teria sido graças à sua iniciativa que “dez anos depois da morte desse (...), inaugurou[-se] a 1º de março de 1886 o Asilo de
Alienados de São Vicente de Paula (...) a doze minutos de Fortaleza em caminho de ferro”203. Este registro é de Juliano Moreira, negro, professor de medicina na Bahia e um dos pioneiros na introdução da psicanálise no Brasil. O aludido caminho de ferro tratava-se da Estação da Estrada de Ferro de Baturité, inaugurada em 1876, e empreendimento no qual Joaquim da Cunha Freire tinha investimentos, sendo um dos sócios com maior número de ações, precisamente 200, ombreando-se com ele apenas Singlehurst & C.ª, casa comercial de Liverpool, com igual número de ações204. Tanto a instituição asilar quanto a via férrea eram defendidas enquanto símbolos de progresso. Temporariamente presidente, o barão de Ibiapaba, em 1874, concitou os cearenses para empenharem-se na consecução desse projeto indispensável, na sua ótica, à modernidade.
Inaugurado, aquele asilo passou a ser mantido pela Santa Casa de Misericórdia, à frente do qual ambos, José Francisco Albano e Severiano Ribeiro da Cunha, permaneceram por anos, integrando mesas administrativas em sucessivas oportunidades. O próprio Joaquim da Cunha Freire, então coronel da Guarda Nacional, concorreu para consolidar essa instituição como mordomo (1861), “tesoureiro esmoler” (1865) e vice-provedor (1870-1871)205.
À época da presidência de Caetano Estelita Cavalcante Pessoa, sob a influência política de Joaquim da Cunha Freire, pretendeu-se criar um asilo de mendicidade. Uma comissão foi nomeada por aquele, e sua atribuição seria agenciar donativos no Império. A comissão compunha-se do bispo diocesano; do comendador Francisco Coelho, traficante de escravos; do tenente-coronel José Albano, do capitão Seixas Correia, também comerciante de
202BEZERRA, José Tanísio Vieira. Quando a ambição vira projeto: Fortaleza, entre o progresso e o caos (1846 - 1879). Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Fortaleza, 2000, p. 74.
203
MOREIRA, Juliano. Noticia sobre a evolução da assistencia a alienados no Brasil. Archivos Brasileiros de
Psychiatria Neurologia e Sciencias Affins. Vol. 1, nº 1, p.52-98, 1905, p. 89. Uma nota sobre Juliano Moreira.
Era negro, nascido na Bahia, e um dos fundadores da Psiquiatria no Brasil. Ingressou, na Bahia, na faculdade de medicina aos 13 anos e a concluiu aos 18. Visitou instituições psiquiátricas em diversos países europeus. Entre 1903 e 1930, dirigiu o Hospício Nacional de Alienados.
204 O Cearense, ano XXV, nº 17, Fortaleza, Sexta-feira, 10/02/1871, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1871_00017.pdf>. Acesso em: 23 fev. 2015.
205 Pedro II, ano 41, nº 29, Fortaleza, Domingo, 10/04/1881, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/216828/per216828_1881_00029.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2015.
escravos, e do negociante John Mackee. O próprio Joaquim da Cunha Freire doou dinheiro (10 contos de réis) e um terreno de três quarteirões com frentes para o colégio das Órfãs (na atual avenida Santos Dumont), para a rua Leopoldina, Soledade (atual rua J. da Penha) e Aurora (atual Costa Barros)206. O “local destinado para o edifício dizem ser no Outeiro dos Educandos,
ao lado da chacara do palacio espiscopal”207. A notícia veiculada em O Retirante acompanhava-se da consideração de que essa se tratava de uma ação meritória. E, por isso, destacava-se que “não podemos deixar de tributar hoje um voto de louvor ao Sr. Barão de
Ibiapaba, pela acção meritoria que acaba de fazer, offerecendo dez contos de réis, para serem applicados ás obras do futuro asylo de mendicidade”.
Devido a essa atuação benemérita, em parecer de agosto de 1880, sabe-se que a Câmara de Fortaleza aprovou a construção de uma praça em frente ao edifício que se tornaria o Asilo de Mendicidade. Ali se lê que “resolveu a Camara [09/11/1877] que fosse creada uma
praça em frente ao edificio em construcção para Asilo de mendicidade (...) e que a mesma
praça se chamasse ‘do Ibiapaba’ em consideração ao Ex.mo Barão de Ibiapaba, protector do mesmo Azilo; ficando n’esta parte alterada a planta da cidade”208. Joaquim da Cunha Freire já há algum tempo considerava útil e fundamental para Fortaleza a criação de edifício que servisse para privar a liberdade daqueles considerados desprovidos de razão209. É o que se depreende do relatório que produziu quando exercia o governo da Província em 1874:
Diversos têm sido os melhoramentos effectuados n’aquelle intituto [Santa Casa de Misericórdia]; e agora sobresáe o projecto de construir-se um edificio que sirva de asylo aos infelizes privados da rasão (...). Cumpre, em verdade, confessar que, n’uma capital como a de nossa provincia, a falta de um asylo de alienados é por demais sensivel, e releva empenhar esforços para fazel-a desapparecer.210
Inicialmente, Joaquim da Cunha Freire postulava uma instituição asilar vinculada à Santa Casa de Misericórdia, mesmo porque, sua administração coincidiu com o mandato de Severiano Ribeiro da Cunha, então à frente dessa instituição. Por alegada falta de recursos do erário público para iniciar a sua obra, a ideia ficou em suspenso até poucos anos depois, e
206NOGUEIRA, João. Cidade da Fortaleza: nomes antigos de logradouros, praças e ruas. Revista do Instituto do
Ceará. Tomo LVI, Ano LVI. Fortaleza: Editora Fortaleza Ltda., p. 147-152, 1942, p. 147.
207O Retirante, órgão das vitimas da seca, ano I, n° 07, Fortaleza, Domingo, 05/08/1877, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/770558/per770558_1877_00007.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2017.
208FORTALEZA. Câmaras Municipais. Série Correspondências Expedidas. Fortaleza. 1872-1880. Caixa 39. 209
Cf. PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque: reforma urbana e controle social 1860 – 1930. 5. ed. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2014, p. 95.
210CEARÁ. Relatórios de Presidentes de Província. Falla com que o excellentissimo senhor barão de Ibiapaba
abrio a 1.a sessão da 22.a legislatura da Assembléa Provincial do Ceará no da 1 de julho de 1874. Fortaleza:
Typographia Constitucional, 1874, p. 11. Disponível em: <http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/205/000011.html>. Acesso em: 04 jun. 2015.
retomada quando da grande seca do final da década de 1870, mas, nessa altura, houve um deslocamento do espaço escolhido para fora do núcleo urbano. Não se encontrou registro de que o prédio tenha efetivamente funcionado com essa função, após inaugurado. Sabe-se, entretanto, que fora soerguido aproveitando-se do trabalho de retirantes da seca de 1877-79, “foragidos da fome”211, que tanto erigiam as paredes do próprio prédio como fabricavam material necessário, como telhas e tijolos. A ideia era abrigar uma mão de obra gratuita e que seria compulsoriamente empregada em serviços diversos na cidade. Logo os abrigados ali foram destinados a garantir o asseio e limpeza de logradouros e praças. O motivo do medo suscitado pela presença dos retirantes residia no aumento significativo do contingente de desvalidos. Para uma cidade com 27 mil habitantes, convergiram, em apenas um ano, 100 mil pessoas. Como consequência de tal deslocamento, aumentaram-se as queixas dos citadinos acerca da prática de roubos, prostituição, suicídios, mendicância, assassinatos e até antropofagia212.
Frederico de Castro Neves apontou vários bandos de criminosos que se criaram no interior da província e que espalhavam terror e pânico, sobretudo, junto àqueles que detinham propriedade e que tinham ainda alguma esperança de conservá-la. Podem-se citar os Calangos, os Matheus e os Pellados, bandos que “foram formados a partir de crimes cometidos por
vinganças pessoais e familiares e podem ser apontados como os primeiros grupos de cangaceiros que passaram a percorrer o sertão, semeando o pânico entre as populações interioranas e, ao mesmo tempo, transformando-se em heróis” que contrariavam a ordem hierárquica social, ameaçando os poderosos locais. Esses grupos de criminosos atacavam, nas estradas desertas, das vilas esvaziadas pelos rigores da seca, carroças carregadas com mantimentos e as assaltavam. Na capital, os conflitos e a ameaça à propriedade não demorou a saírem do controle do governo provincial. “Protestos e manifestações”, conforme Frederico Neves, “transformavam a cidade num palco de guerra, muitas vezes com vítimas fatais”213. Os confrontos com as autoridades instituídas originavam-se do atraso do pagamento de ração alimentar aos trabalhadores, ou mesmo, da falta desse.
Aos olhos das elites proprietárias, o excesso dessa população representou desordem social, o que ameaçaria as hierarquias estabelecidas, a distribuição dos privilégios cristalizados. Medidas para afastar os pobres do perímetro urbano foram adotadas, igualmente visando a se
211 O Cearense, ano XXXI, nº 61, Fortaleza, Domingo, 22/07/1877, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1877_00061.pdf>. Acesso em: 15 set. 2014.
212NEVES, Frederico de Castro. A seca na história do Ceará. In: SOUSA, Simone de; GONÇALVES, Adelaide (et. al.). Uma nova história do Ceará. 4. ed. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007, p. 82.
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utilizar compulsoriamente de sua mão de obra. Momento em que escravos fugidos tentavam se passar por retirantes, como Jacinta, de 24 anos, corpulenta, rosto arredondado, “cabelos
crescidos e escarapinhos, olhos grandes, nariz chato, boca regular, beiços grossos, côr parda, falla descançada e grossa, ombros levantados e largos, pés apapagaiados, e andar um pouco inclinado para frente”214; de compleição altiva, dada a postura dos ombros e a costumeira impostação da voz. Natural da Paraíba do Norte, mas comprada no Icó, “atribue-se que o fim
d’ella, é passar como – retirante – por isso é provavel que esteja nos arrabaldes d’esta cidade, ou como tal queira emigrar para fóra”. A artimanha usada por Jacinta era a de confundir-se
com pobres livres escravizados pelo assistencialismo da Província que, se não os vendeu como fossem mercadoria, aproveitou-se de sua força de trabalho compulsoriamente para remodelamento urbano. Jacinta tentava libertar-se atravessando fronteiras da precariedade no Oitocentos escravista, no Ceará. Se se recorrer a imaginação histórica, é possível que tenha encontrado lugar em algum abarracamento para os deslocados do interior.
Os abarracamentos, surgidos entre a administração provincial de Caetano Estelita e José Júlio de Albuquerque, concorreram para evitar a circulação de grande número de retirantes empobrecidos bem como a sua mendicância no espaço citadino. Quando a pobreza se tornou ameaça visível às elites da capital, o que foi, conforme previamente pontuado, motivado pelo deslocamento de pobres do interior rumo ao litoral, e óbice ao propalado progresso e modernização da urbe, ainda bastante marcada pelo modo de vida rural, a abordagem de tal processo, no âmbito do poder público, deu-se pelo viés do reordenamento espacial215. A pobreza era, então, vista como doença, um sintoma do corpo social em mudança; e, por isso mesmo, inspirava receios. Cogitar alteração na ordem social implicava pôr em questão privilégios. Esta possibilidade incomodava a quem detinha condições de minorar os efeitos sociais corrosivos da ordem social instituída da seca de 1877-79. Daí a participação de grandes comerciantes, médicos e intelectuais nas comissões de socorros. Inclusive, a de reconhecidos traficantes de escravos; que, além de se beneficiarem do trabalho de retirantes em diversas obras216 cujo fim era consolidar o perfil urbano de Fortaleza, integravam cargos estratégicos na estrutura assistencial dos pobres, desvalidos de terra e comida. Joaquim da Cunha Freire tornou-se em 15 de novembro de 1876 “presidente do conselho fiscal da caixa economica e monte do socorro
214 O Cearense, ano XXXII, nº 97, Fortaleza, Domingo, 18/11/1877, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1877_00097.pdf>. Acesso em: 29 nov. 2014.
215GARCIA, Ana Karine Martins. A sombra da pobreza na cidade do Sol: o ordenamento dos retirantes em Fortaleza na segunda metade do século XIX. Dissertação (Mestrado em História Social) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2006, p. 99.
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da provincia”217, sendo membros do mesmo conselho o barão de Aquiraz, Antonio Theodorico da Costa, Luiz de Seixas Correia e José Francisco da Silva Albano. Seixas Correia, inclusive, era tesoureiro da Comissão Central de Socorros218. Alguns desses senhores, como o barão de Ibiapaba, enquanto traficava, vendia farinha, víveres e milho “que o governo [segundo o A
Constituição, seu jornal] comprou[va] por mui modico preço” 219 para distribuir às comissões de socorros.
A reordenação espacial da cidade visava a conter os pobres, mantendo-os o quanto possível afastados do núcleo central da capital. Trata-se aqui, tal como observou Geremek no caso da França, do século XVI, quando do ressurgimento das Agências dos Pobres, da separação dos miseráveis da “sociedade global”220. O que se deu, no Ceará, também em termos de reclusão dos pobres, sob o signo do medo, em geral aos mendicantes que não respeitariam a propriedade alheia. E o que se temia, fundamentalemente, era a inversão das hierarquias, como já se anotou. Os abarracamentos ensejaram, em 1877, a criação de novos distritos, que somente foram aderidos pela cidade bem entrado o século XX. Meireles, São Luiz, Pajeú, Alto da Pimenta nºs 1 e 2, Pacatuba, Soure e Tijubana221 constituem-se em áreas onde a pobreza ganha lastro espacial. Constituem-se em territórios do trabalho compulsório e da fome, para aonde convergem os cuidados do governo provincial enquanto polícia dos costumes, da higiene e do trabalho. Os pobres livres pela cidade espalhariam doenças, seria preciso corrigir seus hábitos perniciosos, em nome da higiene física e moral, e impor ciência médica contra a medicina popular, relegando à esfera privada, doméstica, os saberes tradicionais em torno das artes de curar. A ciência médica, que pretende deter o monopólio das práticas de cura, ajudou a recrudescer a perspectiva dos pobres em oposição ao limpo, ao saudável, ao útil. São portadores de corpos classificáveis em válidos e inválidos, adjetivos que dizem respeito à sua capacidade de trabalho e docilidade, ou nas ruas ou nas casas. “A obsessão higiênica e produtivista”, conforme Denise Bermuzzi de Sant’Anna, “atinge o social visível, corpos e espaços, e o
invisível, ar e costumes” 222.
217 A Reforma, ano VIII, nº 259, Rio de Janeiro, Sábado, 18/11/1876, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/226440/per226440_1876_00259.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2014.
218 O Cearense, ano XXXII, nº 97, Fortaleza, Domingo, 18/11/1877, p. 06. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1877_00097.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2014.
219 A Constituição, ano XVI, nº 93, Fortaleza, Quinta-feira, 12/12/1878, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/235334/per235334_1878_00093.pdf>. Acesso em: 09 jul. 2014.
220
GEREMEK, Bronislaw. Os filhos de Caim: vagabundos e miseráveis na literatura européia: 1400-1700. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 191.
221 GARCIA, Ana Karine Martins. Op. Cit., p. 112.
222SANT’ANNA, Denise Bermuzzi de. O receio dos ‘trabalhos perdidos’: corpo e cidade. Revista Projeto
Em lugar da piedade medieval, na qual a pobreza poderia se revestir de valor moral, a assistência aos pobres desde o século XVII passa a ter o trabalho como condição de se realizar. Deve-se dizer, além disso, que a atenção aos desvalidos, que perambulavam pelo espaço urbano, teve conotação de precaução médica, no sentido que aponta George Rosen, ao lembrar que a história da medicina social é também a história da política social (enquanto beneficência)223. Se a caridade envolveu a polícia médica, englobou também o princípio da polícia preventiva. A essa instituição caberia, como já se antecipou, a assepcia do corpo social. A caridade articula-se à noção de asseio da dimensão material da cidade, mas igualmente à de sanidade dos citadinos; tudo isso englobado pelo prisma do filantropismo-higiênico e pela ética do trabalho224. A correção dos vagabundos não se daria apenas pela ajuda em si, mas pelo emprego produtivo do corpo, tornando-o útil à sociedade. O trabalho corrigiria os resistentes conforme o novo ethos social dominante, pois prepararia o corpo e enobreceria o espírito.
A câmara municipal de Fortaleza sinalizou com o interesse de promover manutenção em estabelecimentos e prédios da capital com mão de obra disponível de retirantes. O comendador Francisco Coelho, um dos membros da comissão de apoio ao asilo de mendicidade, foi instado por aquela instituição política para que pusesse em prática tal serviço, que iria desde a manutenção de prédios até a limpeza de ruas, visando à salubridade pública. Aquele ficou tão cioso da higiene pública que, em 1886, levantou-se a suspeita de que a câmara teria mandado dois trabalhadores, Lourenço de Souza e João Vieira, fazer a capinagem da frente do sítio do comendador que ficava próximo à praia. Os trabalhadores receberam, por isso, cinco mil e seiscentos réis225. Durante a seca de 1877-79, essa preocupação com a sugeira acumulada nas ruas ficou mais patente, assim como a confusão entre o espaço público e o privado.
A higiene da urbe, ainda bastante marcada pelo modo de vida rural, estava na pauta da municipalidade como forma de minimizar riscos de desordens e prejuízos ao organismo social que se pretendia conservar – conquanto se admitisse setores médios urbanos, reprodutores do habitus senhorial, que buscavam se estabelecer na estrutura do comércio e da administração pública. A recomendação era acabar com a “grande quantidade de lixo”, sem deixar passar “desapercebida a latrina do palacio do Sr. Ibiapaba, que, apezar de ter elle
mandado deitar areia da praia sobre as materias fescaes que d’ela correm pela calçada, exhala
223
ROSEN, George. De la policía médica a la medicina social. Ensayos sobre la historia de la atención a la salud. 2. ed. México, DF: Siglo Veintiuno Editores, 2005, p. 134.
224GEREMEK, Bronislaw. Os filhos de Caim. Cit., p. 107.
225 Libertador, ano VI, nº 46, Fortaleza, Quinta-feira, 25/02/1886, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/229865/per229865_1886_00046.pdf>. Acesso em: 16 out. 2017.
um fetido horrivel”226. Quem realizava tais serviços? Que mão de obra era mobilizada para garantir a limpeza da cidade?
Os carregadores desses dejetos, que estavam entre os mais pobres da sociedade,