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Mapa 8 Compilação da Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo de Belo

2 PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MUDANÇA: A MILITÂNCIA PELAS ÁREAS

5.2 Os políticos: sujeitos políticos da Mata do Planalto?

Quando me apresentei à Mata do Planalto - falo do lugar no espaço social já que da grande maioria de suas características físicas, descritas no início do capítulo, só conheço o que me dizem os pássaros que vejo no parque, os esquilos que vi pela cerca antes que colocassem tapume, os micos mais ousados, copas de árvores, o córrego Bacuraus que jorra canalizado no Campo Alegre e os graus a menos na temperatura -, era dia de audiência pública, cuja solicitação partiu do Vereador Leonardo Mattos. Foi para acompanhar a votação dos Projetos

de Lei (PL) de autoria do mesmo vereador, um direcionado especificamente à Mata do Planalto e sua declaração como utilidade pública, o outro, PL 89/2013, buscando garantir a preservação das áreas verdes remanescentes de Belo Horizonte que retornei tantas vezes à “casa do povo” junto com o grupo de mulheres que um dos vereadores disse ter, carinhosamente, apelidado de “meninas do Planalto”.

Ainda que a observação do modo como esse vereador, também vizinho da Mata, se insere na luta - dialogando, participando das reuniões da ACPAD e das manifestações no bairro, informando e orientando sobre os trâmites na Câmara dos Vereadores - iniba predisposições a considerar o sentido pejorativo que pode ter o termo “meninas”, é importante não negá-lo. Além de marcar uma questão de gênero, que não cabe desenvolver neste texto, tal nominação corre o risco de infantilizar a causa e seus argumentos e remeter à associação, ainda presente, dos temas ecológicos e das lutas ambientais à imaturidade juvenil e à utopia, desqualificando- os como temas menores36.

Foi durante a “reunião solene” na Câmara Municipal, na qual Magali foi homenageada recebendo o título de cidadã de Belo Horizonte, que o vereador morador do bairro Planalto deu mostras de querer expressar apreço pelo grupo, sempre presente na Câmara, com a expressão “meninas do Planalto”. Foi esse mesmo vereador quem propôs a homenagem, a contragosto, segundo ele, do presidente da Câmara.

Quando Magali convidou-me para a homenagem, conversamos sobre o que o título de cidadã honorária poderia representar, já que os dias na câmara tinham demonstrado pouco interesse real do conjunto de vereadores pela causa da Mata e diante da informação de que, em data anterior, o dono da Direcional também seria homenageado. O convite à Magali pareceu-me uma estratégia para silenciar possíveis questionamentos à homenagem ao dono da Direcional e acalmar os ânimos do grupo de militantes, visivelmente descontentes com os trâmites da Mata na Câmara. Ela mesma confessou não ter, no primeiro momento, recebido com bons olhos o convite. Achou que não fazia sentido ser homenageada, quando os responsáveis pelo

36 Não teria atentado para o sentido pueril com o qual pode ser utilizado o termo “meninas do Planalto” sem as

contribuições da antropóloga Raquel Teixeira – que aceitou o meu convite para participar do seminário de discussão de alguns capítulos desta dissertação, que se encontravam ainda esboçados, em dezembro de 2015 – dos colegas de mestrado Stephanie Assaf, Renata Santos e Eduardo Faria, que também participaram dessa conversa, assim como minha orientadora, Andréa Zhouri. A todos eles o meu agradecimento, por essa e outras contribuições essenciais para esta escrita final.

caminhar do movimento eram tantos. Foi convencida de que a homenagem não negaria o valor dos outros integrantes do grupo e seria de grande importância para o movimento.

A homenagem mostrou-se uma estratégia de retomar a confiança dos integrantes do grupo da Mata na Câmara e neutralizar o embate. O descolamento da Mata da luta cotidiana por uma cidade mais justa, a partir da atribuição de um valor diferenciado e pontual, ofereceu o risco de minar o seu caráter conflitual, a ruptura com as lógicas dominantes de poder.

A não ser pela injeção de estímulo para os moradores do bairro Planalto envolvidos na luta, não pude perceber durante os meses seguintes de pesquisa de campo outras consequências da homenagem à Magali para o desenrolar do movimento.

Ao mesmo tempo, no momento em que, como visto, a cidade responde a interesses de mercado, em que o prefeito diz abertamente que as áreas verdes não são prioridades para o governo municipal e o presidente da Câmara se declara a favor da construção dos edifícios na Mata do bairro Planalto, os projetos de lei e a homenagem à Magali parecem ser iniciativas portadoras de uma dose de contestação à ordem dominante.

Fotografia 28 - Imagem feita para a homenagem à Magali, projetada nos telões da câmara dos vereadores

Nos mesmos telões em que dias antes se viu a contagem de votos que vetou em primeiro turno o projeto de lei que buscava garantir a proteção da Mata.

Fotografia 24 - Na mesa da plenária, na Câmara de Vereadores, Magali segurando o título de cidadã honorária de Belo Horizonte

Acompanham-na na foto alguns vereadores da casa e outros convidados para compor a mesa na solenidade. Entre eles, Sr. Antônio, de camisa clara, e João Batista, representantes da luta pelo Parque Jardim América, de pulôver, Fernando Santana, presidente do MAMBH e Dr. Wilson Campo, advogado da Mata.

Fonte: da autora (09/06/2015).

Identifico, assim, também na Câmara Municipal, sinais, ainda que fracos, da vontade política pela Mata do Planalto, vindas de sujeitos políticos que existem apenas “como sujeitos em ato, como capacidades pontuais e locais de construir, em sua universalidade virtual, aqueles mundos polêmicos que desfazem a ordem policial” (RANCIÈRE, 2006, p. 378).

A intermitência do sujeito político, como mencionado por Rancière, iluminou, aos meus olhos, a sucessão de acontecimentos após a não aprovação na Câmara dos Vereadores dos projetos de lei citados anteriormente, O Vereador Leonardo Matos, sob o efeito do que considerou ser sua própria fraqueza na disputa pelo poder dentro da câmara e na influência como conselheiro no COMAM, optou por não reencaminhar, após revisão, o projeto 121/2013. Também não esteve presente na sequência de reuniões do COMAM onde a Mata esteve em pauta. A vazante do político para esse vereador no tal “jogo” da “casa” cedeu espaço para que dois outros vereadores entrassem com um projeto substitutivo que, revisto, tramita nas comissões internas da Câmara.

Efêmero, caracterizo eu, o político que como ato de escapar ao, e tencionar o, curso normal de dominação vê seus sujeitos “sempre suscetíveis de se confundir de novo com simples parcelas do corpo social que pedem apenas a otimização de sua parte” (RANCIÈRE, 2006, p. 378). O maior risco de ver dissipar o político dos sujeitos é que ele se deixe confundir novamente com seu oposto, a polícia, voltando ao lugar que lhe foi conferido no corpo social. No caso dos vereadores, retomando suas relações a partir desse lugar na gestão, pelo estado, dos interesses dos diferentes grupos sociais (RANCIÈRE, 2006). Foi o mesmo, intermitente, sujeito político da Mata do Planalto na Câmara dos Vereadores quem asseverou: “As coisas não funcionam como vocês pensam! Vocês não entendem o funcionamento do legislativo!”

Vejo aí se reproduzir a ação de distribuição das “capacidades” e “incapacidades” segundo os lugares e funções, indício da política como polícia (RANCIÈRE, 2006, p. 372). Nesse ponto é preciso retomar e reformular o que eu disse antes. Ao tratar da razão do dissenso, Rancière traz à tona a possibilidade de o sujeito que o aciona falar, ao mesmo tempo, para dois recortes paradoxais do mundo sensível. O lugar político de fala é o do desvio da ordem naturalizada do poder. Pensar o político de Rancière no quadro dos vereadores envolvidos com a Mata exige considerar não apenas dois mundos para os quais se fala, como também mais de um lugar de fala. O lugar do desvio - como representantes dos sujeitos políticos que acenderam o pavio do dissenso - e o da ordem - como vereador eleito, com posição bem marcada na gestão “política”37 dos interesses dos grupos.

Entrevejo, então, três caminhos para avançar. Ou o desvio do dissenso nessa conformação de “representação política” é mais breve do que o que minha leitura captou propor Rancière, e não pode durar mais que os poucos segundos de uma palavra ou gesto inflamado; ou não há um momento sequer em que essa política como dissenso exista de forma pura, sem que em cada ato se manifeste também uma dose variável de “política”; ou o representante não fala nem dos desvios nem da ordem, mas de um terceiro lugar.

A meu ver, faz mais sentido pensar o sujeito da representação política a partir do segundo caminho, o do espaço de possibilidades de combinações entre o dissenso e o consenso. Espaço onde a ausência da ruptura não seja equivalente à negação do dissenso, onde a constatação do consenso não exclua do ângulo de visão as iniciativas que dele escapam. Por

falta de um nome ou do conhecimento sobre outros argumentos teóricos que me ajudem a explicar esse espaço de variações é que uso a metáfora do café-com-leite: a cor bem marcada do político de Rancière pingado - enquanto prevaleça o dissenso - ou completamente diluído no leite morno da ordem naturalizada.

Os questionamentos sobre a representação política têm aqui apenas o seu início.

5.2.1 Representações: falar pela Mata do Planalto ou da Mata do Planalto?

Carneiro (2014a, p. 69) descreve representação como:

A alquimia social por meio da qual um indivíduo se apresenta e é aceito como portador de uma “vontade coletiva” que a ele se transfere, mas que supostamente se origina alhures (numa entidade, num órgão, num grupo social, numa instituição, etc.).

Se tomei os dois vereadores já citados como centralizadores da vontade política com a Mata do Planalto na Câmara - durante o período da minha observação -, tantos outros vereadores buscaram um lugarzinho no seu espaço de representação.

Os grupos sociais que defendem a preservação da Mata do Planalto e os movimentos socioambientais da cidade são partes entre outras, heterogêneas e fracionadas, que se querem representadas e que despertam o interesse dos representantes como nutrientes de suas posições. As críticas ferrenhas de Magali e Eugênia à Câmara geraram, com frequência, descontentamentos nesses “representantes” da Mata, que se viam mergulhados por elas no poço dos horrores que era motivo de denúncia. Quiseram ter seus nomes citados, salvos um a um da vergonha. Foi assim quando, findada a votação e o veto do PL 121/2013, Magali gritava o seu desapontamento com os parlamentares e o Vereador Heleno (Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB) pedia que ela separasse na fala os vereadores que votaram contra e a favor do PL. O Vereador Leonardo Matos também expressou seu incômodo com a fala de Magali. Durante concessão do título de Cidadã Honorária de Belo Horizonte à Magali, o vereador Heleno fez a plenária sorrir:

E olha, eu conheci a Magali nesses movimentos, nessas passeatas lá no bairro. Eu sabia que ela era brava, mas não sabia que ela era tão brava. Vou dar dois exemplos aqui que eu passei com a Magali. Teve um dia, numa daquelas nossas passeatas lá na avenida, estava a Magali lá com um carro de som na frente e a gente atrás. E a Magali gritando, né: Salve a Mata do Planalto! Cadê o prefeito? Cadê os políticos? Esses políticos ladrões! E estávamos eu e o Silvinho Rezende, lá atrás. [...] Aí eu falei, Magali, estamos eu e Silvinho aqui, nós viemos apoiar eu moro aqui no bairro. E aí a Magali continuou, esses políticos ladrões! Exceto o Heleno e o Silvinho.

Apoiar e representar são atitudes políticas diferentes? Nos dias mais assíduos das líderes do Salve a Mata na Câmara, pelo menos meia dúzia de vereadores citou ou empreendeu verdadeiros discursos sobre a necessidade de preservação da Mata do Planalto, tentando ajustar essa demanda específica a outras causas que buscam tomar como suas. Um dos vereadores da oposição acionou os técnicos de seu gabinete na elaboração de emendas necessárias ao Projeto de Lei 121/2013, do vereador da bancada do prefeito. A assessora deste último, filha de Magali, atentou para o interesse do outro vereador em ter seu nome vinculado à preservação da Mata. Durante a rotina de assistir às reuniões na plenária aguardando o dia em que o PL seria votado e visitar gabinetes buscando o apoio dos vereadores, muitos abriram as portas de seus gabinetes ou pararam nos corredores as líderes do movimento para dizer do seu apoio à Mata do Planalto.

Quando o movimento tomou como estratégia fazer fotos de Magali com os vereadores que apoiavam a causa, foi com alegria e sorrisos que tantos se dispuseram a posar ao lado dela nas fotos que seriam postadas no facebook. Um dos fotografados, dias depois, defendeu arduamente a soberania inquestionável da propriedade privada. Como é possível ao mesmo tempo defender a preservação da Mata do Planalto?

Uma carta de apoio ao movimento foi escrita, na expectativa de colher assinaturas dos vereadores a favor da causa. Já não eram tantos assim os vereadores dispostos a assinar prontamente, sem consultar suas coligações. Na reunião para a qual a Direcional convidou os integrantes do movimento estiveram presentes o Vereador Heleno, acompanhado por outro vereador apoiador da causa. No fim da reunião, durante a qual os integrantes do movimento apresentaram uma chuva de motivos para a preservação integral da Mata, o vereador apoiador chamou a atenção dos representantes da Direcional para a necessidade do diálogo e defendeu a possibilidade do acordo entre a empresa e os moradores para que encontrassem uma forma de construir que atendesse à necessidades de preservação reivindicadas pelos moradores.

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