Capítulo 1 – O conceito de dispositivo
1.2. Os postulados de poder
A análise dos dispositivos em Michel Foucault tem como condição necessária uma reflexão sobre a compreensão do ―poder‖. Essa necessidade se expressa porque, na medida em que o conceito de dispositivo é um problema surgido durante as análises genealógicas, ele está no âmbito das relações de poder. Segundo Dreyfus e Rabinow, durante a década de setenta em particular, o autor de História da loucura tinha como preocupação estudar aquilo que nomeiam de ―ciências duvidosas‖. Tal alcunha se justifica pelo fato de elas estarem emaranhadas em práticas culturais. Desse modo, Foucault procurou ―estudá-las com um método que revela que a própria verdade é um componente central do poder moderno. Assim, tendo excluído outros métodos, Foucault emprega o único que restou: uma interpretação pragmaticamente orientada‖ (DREYFUS; RABINOW, 2013, p. 162). Ora, segundo os autores americanos, é para realizar tal empresa que Foucault introduz o termo técnico ―dispositivo‖18.
Mesmo sendo essa noção de dispositivo forjada pelo historiador tendo como finalidade a constituição de uma grade de análise, ela parece se confundir com as próprias práticas, tal como um aparelho de fabricação e organização de sujeitos e objetos. Assim, para Dreyfus e Rabinow:
O problema é como localizar e compreender um conjunto de práticas coerentes que organizem a realidade social quando não se pode recorrer ao sujeito que a constitui (ou a uma série de sujeitos observando essas práticas), a leis objetivas ou ao tipo de regras que Foucault acreditou serem alternativas evitadas? Por sua vez, dispositivo é uma alternativa inicial de nomear ou, pelo menos, de apontar o problema (DREYFUS; RABINOW, 2013, p. 161).
18 Para uma discussão crítica da noção de dispositivo para os autores norte-americanos cf. Raffnsøe, Sverre.
―Qu‘est-ce qu‘un dispositif? L‘analytique sociale de Michel Foucault. In: ‖Symposium (Canadian Journal of Continental Philosophy / Revue canadienne de philosophie continentale): Vol. 12: Iss. 1, Article 5, 2008, p.
44-66.O texto estádisponível em:
https://www.academia.edu/3374779/Qu_est-ce_qu_un_dispositif_L_analytique_sociale_de_Michel_Foucault
20 Ora, trata-se exatamente de buscar compreender o que são esses conjuntos de práticas socais históricas e determinadas, que constituem e organizam a realidade social. Na verdade, buscamos nessa dissertação estudar, como dito, três dispositivos concretos: o dispositivo disciplinar, o dispositivo de segurança e o dispositivo de mercado. Parece-nos que todos os três cumprem as especificações levantadas aqui.
Com efeito, para haver êxito em nossa análise, queremos neste momento problematizar a noção de ―poder‖, haja vista que a noção de dispositivo é fruto das análises foucaultianas sobre o exercício dos poderes. Assim, Revel afirma que o termo dispositivo
―aparece em Foucault nos anos 70 e designa incialmente os operadores materiais do poder, isto é, as técnicas, as estratégias e as formas de assujeitamento utilizadas pelo poder‖
(REVEL, 2005, p. 39). Desse modo, a noção de ―espaço‖ aparece subordinado ao exercício de poder dos dispositivos. Recorrendo ao curso de 1983 intitulado O governo de si e dos outros Foucault, analisando retrospectivamente seu trabalho, faz a seguinte constatação sobre a analítica do poder:
[...] Tratava-se de analisar [...] as matrizes normativas de comportamento.
[...] Não em analisar o Poder com ―P‖ maiúsculo, nem tampouco as instituições de poder ou as formas gerais ou institucionais de dominação, mas em estudar as técnicas ou procedimentos pelos quais se empreende conduzir a conduta dos outros (FOUCAULT, 2010c, p. 6, grifos nossos).
Ao analisar o modo como o poder se exerce e, evidentemente, sua relação com os indivíduos, fez-se necessário forjar um modo alternativo de análise e compreensão do poder.
Não mais o poder com centro, mas como alguma coisa de fluido. Em outras palavras, não mais análise do centro do poder, mas de seus dispositivos.
Ora, como então compreender o poder? Talvez a melhor análise se encontre no livro Foucault de Gilles Deleuze. Para este filósofo, Michel Foucault, principalmente em Vigiar e punir e A vontade de saber, ―se contenta em sugerir o abandono de um certo número de postulados que marcaram a posição tradicional da esquerda‖ (DELEUZE, 2013, p. 34). Com efeito, Deleuze indica precisamente seis postulados que contornam as concepções tradicionais de poder.
O primeiro 1) é o postulado da propriedade, segundo o qual o poder seria uma
―propriedade‖ de um indivíduo ou uma classe. Esse primeiro postulado é particularmente
21 importante para nossa investigação, pois evidencia que, para Foucault, o poder é uma estratégia, bem como seus efeitos não são atribuíveis a uma apropriação, mas a dispositivos de funcionamento. Porém, esse postulado não deve enganar-nos: ―este novo funcionalismo, esta análise funcional certamente não nega a existência de classes e de suas lutas, mas as insere num quadro completamente diferente, com outras paisagens, outros personagens, outros procedimentos, diferentes desses com os quais nos acostumou a história tradicional, inclusive a marxista‖ (DELEUZE, 2013, p. 35). Em segundo lugar 2) há o postulado de localização, para o qual o poder estaria localizado no aparelho de Estado. Foucault, por sua vez, assinala que o próprio Estado nada mais é do que o efeito de relações de poder que provém de múltiplos focos e engrenagens, isto é, de uma microfísica do poder19. Assim, não há para o filósofo francês um ponto privilegiado ou a origem última do poder, mas antes uma rede bastante complexa que atravessa o corpo social. Em terceiro lugar 3) encontramos o postulado da subordinação. Segundo este postulado o poder encarnado no aparelho de Estado estaria subordinado a um modo de produção que funcionaria como sua infraestrutura. Ou seja, haveria como uma ―determinação econômica‖ última nas relações sociais. Nesse sentido, poderia ser realizada uma aproximação entre os regimes punitivos e os sistemas de produção.
Porém, para Foucault, se há correspondência entre um e outro não é devido a uma
―determinação‖, isto é, o poder não é uma superestrutura, mas está presente na constituição do espaço econômico20.
Já o quarto 4) é o postulado da essência ou do atributo, segundo o qual o poder teria uma essência e seria um atributo que permitiria distinguir os seus possuidores (dominantes) e os que sofrem (dominados). ―Mas o poder‖, escreve Deleuze, ―não tem essência, ele é operatório. Não é atributo, mas relações de forças, que passam tanto pelas forças dominadas quanto pelas dominantes, ambas constituindo singularidades‖ (IBIDEM, p. 37). Sendo assim, o poder perpassa tanto dominantes quanto dominados. O quinto 5) postulado é o postulado da modalidade. Segundo este postulado o poder atuaria basicamente por meio da ideologia e da repressão. O poder, para Foucault não se resume a essas formas extremas (repressão, ideologia etc.) e negativas, antes de tudo ele é produtivo. Isto é, o poder produz. Ele produz
19 No curso de 1979, Nascimento da biopolítica, ao realizar sua tradicional retomada do curso anterior, Michel Foucault se refere ao Estado como ―uma realidade específica e descontínua. O Estado só existe para si mesmo e em relação a si mesmo, qualquer que seja o sistema de obediência que ele deve a outros sistemas como a natureza ou como Deus‖ (Foucault, 2008a, p. 7).
20 Esse aspecto seria analisado com detalhamento nos capítulos 3 e 4 dessa dissertação.
22 indivíduos e realidades, produz verdades e objetos, por meio de instrumentos determinados, a saber, os dispositivos. Por fim, Deleuze aponta em sexto lugar 6) o postulado da legalidade, segundo o qual o poder se expressa na figura da Lei. A lei seria como que um estado de paz posto às forças brutas. Com efeito, ―Foucault mostra que a lei não é nem um estado de paz nem o resultado de uma guerra ganha: ela é a própria guerra e a estratégia dessa guerra em ato, exatamente como o poder não é uma propriedade adquirida pela classe dominante, mas um exercício atual de sua estratégia‖ (DELEUZE, 2013, p. 40)21.
Essa retomada de noções bastante conhecidas da analítica do poder é justificada pelo próprio Foucault, por exemplo, em A vontade de saber. Na investigação do ―dispositivo de sexualidade‖, empreendida na referida obra, o filósofo lança mão de alguns postulados ou recomendações. Por conseguinte, no correr da investigação sobre a vontade de saber que cercou, e ainda cerca, o sexo e a sexualidade, está em jogo a liberação das representações tradicionais do poder. Então, para compreender a formação de um saber sobre a sexualidade é necessário um método que não tome o objeto como algo reprimido ou interditado através da Lei. Assim, para Michel Foucault:
Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si;
enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formação da lei, nas hegemonias sociais (FOUCAULT, 1988, p. 102-103).
Essa caracterização bastante esclarecedora para nossa compreensão da analítica do poder ajuda-nos, igualmente, a compreender o papel da noção de dispositivo neste contexto.
Isso porque, conforme argumenta o filósofo em A vontade de saber, a ―sexualidade‖ como objeto de investigação assumirá o estatuto de efeito das relações de poder que, por sua vez, funcionam através das tecnologias do dispositivo. Não é por acaso que Foucault fala constantemente, em toda a parte intitulada ―O dispositivo de sexualidade‖, em regras para a adequada análise do poder que incide sobre a sexualidade. Em outros termos, na perspectiva
21 Para uma análise mais detalhada dos postulados do poder cf. Deleuze, G. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2013, p. 34-40.
23 foucaultiana é necessário apreender esse novo tipo de poder que se cristaliza no conceito de dispositivo. Como consequência, ―se a sexualidade se constitui como domínio a conhecer, foi a partir de relações de poder que a instituíram como objeto possível; em troca, se o poder pôde tomá-la como alvo, foi porque se tornou possível investir sobre ela através de técnicas de saber e de procedimentos discursivos‖ (FOUCAULT, 1988, p. 109)22.
Conclui-se que, para Foucault, repensar o poder renunciando às análises políticas tradicionais é indispensável para compreender os dispositivos como aquilo que permite instituir, produzir ou fabricar a realidade, os objetos e os sujeitos, com base em uma crescente racionalização das práticas23.