Nos campos, onde hoje estão situadas as principais cidades do sul do Pará - Redenção, Pau D’Arco, Rio Maria, Xinguara - como nas matas, onde se localizam as terras privatizadas pela Companhia de Terras da Mata Geral e o município de Cumaru do Norte, no começo do século XX o movimento foi intenso. Tanto em um como em outro se localizaram povoados sertanejos que serviam de ponto de apoio para os comboios que se dirigiam aos locais de extração da goma.
Na pesquisa de campo, detectou-se que no local onde hoje se situa o cemitério da cidade de Redenção, outrora existiu uma corruptela denominada Solta. Neste povoado sertanejo que ficava na boca da mata, isto é, no início da estradinha que demandava por entre a floresta e os cauchais da beira do Xingu, as tropas carregadas de caucho aí estacionavam com a finalidade de descanso e reabastecimento de víveres, para, posteriormente, seguirem viagem até Conceição do Araguaia. Nesta, a borracha era acondicionada em batelões, e, por via fluvial, descia o Araguaia e o Tocantins, até Belém do Pará. Finalmente, as casas exportadoras encarregavam-se de fazê-la chegar às portas das indústrias europeias e norte-americanas.
Frei José Maria Audrin situa a época em que surgiu Solta e também as transformações por que passava o local com a corrida à borracha:
Atraídas pela presença dos missionários e pela miragem de terras novas, muitas famílias afluíram sem cessar dos sertões de Goiás, Maranhão e Piauí. Uma
de uma riquíssima zona de ‘borracha’ nas matas vizinhas. Chegaram logo às centenas os exportadores da preciosa goma castilloa. Conceição tornou-se um dos importantes centros caucheiros da região Amazônica, sobretudo após o encontro nas florestas dos seringueiros do Araguaia com os do Xingu. Era um movimento incessante de tropas chegando de todas as direções.61
As tropas de muares transportavam gêneros alimentícios e instrumentos de Conceição para os povoados que foram fundados na atual região de Redenção e que se localizavam em posições estratégicas em relação aos locais de ocorrência da borracha de caucho, seguiam a rota Conceição-Xingu, através da então conhecida estrada do boi, ou estrada tropeira.
Essa estrada, que teve papel relevante na economia regional durante o período da exploração dos cauchais do Xingu, ligava Conceição do Araguaia ao povoado de Novo Horizonte, que se situava na margem direita do rio Fresco, afluente do rio Xingu, abaixo do atual Posto Indígena Gorotire da Funai. Um dos pontos estratégicos da estrada tropeira era o povoado de Solta, localizado na boca da mata, isto é, no local de transição dos campos para a floresta, exatamente onde hoje situa-se a sede do município de Redenção.
A corruptela de Solta
José Ribamar Ferreira, nascido em Pedro Afonso (TO), descendente de uma das primeiras famílias de criadores maranhenses que vieram para o Pará, vaqueiro tradicional dos campos do Araguaia paraense e proprietário-residente na fazenda Retiro, em entrevista na fazenda em julho de 2007, explica onde era a corruptela de Solta:
Solta era onde está hoje o setor do Colégio Eva Tomé. Quem vai daqui pra Redenção, deixa o cemitério à direita, a corruptela estava no lado esquerdo.
6 Os povoados sertanejos e a corruptela de Solta
Lá na Solta tinha umas doze cabeças de gado dos padres. O cemitério de Redenção está no mesmo lugar de onde era o cemitério de Solta no começo do século XX.62
Outro povoado sertanejo muito importante erigido durante a exploração da borracha na confluência dos campos do Pau D’Arco com as matas do Xingu foi a vila de Novo Horizonte, pois era o principal ponto estratégico da via de comunicação Conceição do Araguaia – São Félix do Xingu, inclusive sendo mais populosa que esta última. Isso porque ali era o porto de saída e de entrada da estrada do boi, que, como já frisado, ligava esta região aos campos de Conceição do Araguaia, e ali tinha como ponto de escala a localidade denominada de Solta, onde hoje é a sede do município de Redenção,63 num trajeto de 150 quilômetros, subindo e descendo grandes cordilheiras, entre elas, a serra Ruim e a serra do Cumaru.
Esse trecho da estrada tropeira, ou estrada do boi, era uma trilha indígena que foi recuperada e aperfeiçoada pelos criadores do Pau D’Arco e ligava a atual sede municipal de Redenção à Vila de Novo Horizonte. A estrada “desvendou uma grande floresta, onde era grande a existência de caucheiros o que deu origem e oportunidade para a intrepidez e audácia dos nordestinos fazer aquela grande estrada tropeira, pois a maioria dos barracões produtores de caucho situava-se ao longo daquela estrada.”64 Portanto o abastecimento da população, direta ou indiretamente envolvida na produção e comercialização do caucho, viabilizou-se pela abertura dessa e de outras estradas secundárias. Contudo, como observado por frei José Maria Audrin:
As estradas que levavam às matas da ‘borracha’ passavam infelizmente junto das aldeias das Arraias e do Pau D’Arco, que se tornaram em breve o ponto de pouso obrigatório para as caravanas de caucheiros. Os campos das Arraias viam multiplicar-se os sítios e as fazendas. As próprias matas do caucho iam sendo ocupadas. Em cada passagem de ribeirão, em cada cabeceira, em cada
trânsito ininterrupto de seringueiros. A consequência inevitável foi a formação rápida de numerosos núcleos mais ou menos importantes: Santo Antônio, da Solta e São Pedro, da Gameleira, nas orlas da mata geral; Triunfo, no centro da mesma; Novo Horizonte, já nas beiras do rio Fresco; Nova Olinda, na foz do Riozinho; São Félix, enfim, na margem direita do Xingu.65
É importante frisar que essas corruptelas surgidas no auge da exploração do caucho na região do Araguaia paraense tiveram um papel relativamente importante no ciclo extrativista local. Embora, quando cessou a atividade extrativista tenham perdido grande parte de seus habitantes, durante esse período serviam como ponto de apoio ao trânsito mercantilista do caucho.
Por outro lado, esses povoados sertanejos, que, superada a fase extrativista, nunca chegaram a ter mais de cem habitantes, abrigavam um campesinato que, por uma ou outra razão, não abandonou a região depois da queda nos preços da borracha. Esses camponeses que haviam migrado para a zona expansionista dos campos e das matas no Araguaia paraense, em sua maioria se retiraram para seus estados de origem, pois com a derrocada da borracha nos anos que se seguiram a 1912, a economia local entra numa significativa estagnação com a queda brusca do consumo e da oferta de trabalho.
Os povoados sertanejos, antes de se extinguirem de vez, funcionaram como apêndices à economia pastoril que, passado o ciclo gomífero, volta a dominar a atividade econômica dos campos. Neles se desenvolvia uma tímida agricultura de subsistência, pequena criação de aves, suínos e gado bovino. Também serviam como reservatórios de mão de obra para o sistema pecuário quando este, por ocasião de vaquejadas, necessitava de um maior número de trabalhadores.
Desta forma, pode-se inferir que da mesma maneira que o capital industrial determinou a expansão da fronteira camponesa extrativista, por meio da instalação do capital comercial na região, o que provocou a
6 Os povoados sertanejos e a corruptela de Solta
monetarização da economia, a formação de mercado, o desenvolvimento do comércio nos campos, enfim, uma dinamização das atividades econômicas e sociais naquela área da Amazônia oriental, determinou também, a estagnação econômica posterior e o regresso predominante do segmento pastoril de subsistência.66
O mecanismo utilizado para baixar os preços da borracha internacional foi o desenvolvimento da tecnologia produtiva. De fato, a Inglaterra desde finais do século XIX já iniciara o plantio de seringueiras em suas colônias da Malásia e do Ceilão, assim como também a Holanda, em Sumatra e Borneu.
O aumento da demanda internacional, no primeiro decênio do século XX, de início pôde ser atendido pela borracha amazônica com o simples aumento da mão de obra. Com o progressivo incremento da procura, a oferta do produto tornou-se insuficiente, o que levou a um grande aumento nos preços. A tecnologia empregada nos seringais e cauchais da Amazônia não permitia um aumento da capacidade produtiva que acompanhasse as exigências do mercado.
Os seringalistas e donos de cauchais locais, ao invés de reinvestir os lucros auferidos em plantações novas, empregavam-nos em gastos supérfluos. O aumento crescente dos preços incentivou ainda mais os plantadores europeus do Oriente e sua plantação aumenta rapidamente, conforme pode ser visualizado na Tabela 1.
Tabela 1 – Produção mundial de borracha (toneladas)
Período Zonas produtoras
Com o aumento crescente da produção asiática, os preços caíram vertiginosamente e a produção dos cauchais dos campos do Pau D’Arco bem como de toda a Amazônia, entraram em profunda decadência. A vida nos campos do Pau D’Arco e na Mata Geral volta a ter um isolamento incomum. Regressa o escambo como forma de trocar o parco excedente produzido. O dinheiro não mais se fará presente na região nos níveis de outrora até que se inicie, por volta de 1960, o desenvolvimento do processo que transformaria radicalmente a natureza e as relações da sociedade naquela região.
Mas, antes deste período, os moradores locais ainda experimentariam um novo e também breve surto econômico durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo brasileiro assinou com os Estados Unidos os Acordos de Washington, instituindo a política conhecida como Batalha da Borracha.67 Entretanto, o impacto na economia local foi muito menos relevante que o do começo do século, e a partir de 1946, ano da derradeira carga de borracha das matas do Xingu, a área transformar-se-ia novamente em fronteira camponesa pastoril produtora de valores de uso.
Nos cerrados, hoje zona urbana de Redenção, formaram-se pastos, fazendas, roçados e criações, em pequena escala, de porcos e galinhas. Na mata, atualmente parte rural de Redenção e município de Cumaru do Norte e Pau D’Arco, os índios Caiapó puderam novamente viver sem o assédio dos caucheiros e cristãos em geral.