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b - Os Presidentes do BCIA do governo Farrell e Perón

O Banco Industrial entre os anos de 1944 e 1962 foi presidido por 12 indivíduos. Nessa sessão apresento de forma sintetizada os dados biográficos e de trajetória profissional que nortearam o processo de classificação ideacional desses atores. Além disso, procuro apresentar o contexto político e econômico da nação, uma vez que tais condições são relevantes para a compreensão das escolhas desses indivíduos e de suas classificações ideacionais.

Sobre a composição do primeiro diretório é nítido o peso da representação da UIA, com o direito de nomear três diretores. Foram eles Aquiles Merlini, Raúl Lamuraglia e Miguel Miranda, todos integrantes da UIA e futuros presidentes da instituição. Já a primeira presidência foi ocupada pelo engenheiro e empresário Ernesto Herbin, então vice-presidente da UIA. Além desses, outros empresários vinculados a UIA ocuparam posições de destaque no estado, como é o caso do empresário Rolando Lagomarsino, nomeado para a presidência do Banco Hipotecário Nacional, que posteriormente se tornaria ministro nos anos peronistas.

O que há de se ressaltar nesse primeiro grupo de integrantes da UIA representados no Banco Industrial é que esses são em sua grande maioria parte do grupo pró-indústria da entidade, que mais tarde se tornariam aliados do governo peronista. A exceção é de Raúl Lamuraglia, poderoso empresário que seria um dos grandes opositores do governo que ascenderia em 1946.

Entre 1944 e 1946, o banco seria presidido por Herbin e Miranda, dois empresários vinculados à ala pró-indústria da entidade. Herbin era engenheiro e empresário vindo de uma importante família da indústria de algodão e têxtil que, mais tarde, já nos anos de Perón, voltaria a presidir o banco. Já Miguel Miranda, como afirma Rein (2008) foi um dos personagens centrais da formulação da orientação econômica peronista. Chegou a ocupar a presidência do Banco Central, do Consejo Nacional de Postguerra além de ser conselheiro pessoal de Perón.

Segundo Vercesi (1996), Miguel Miranda era um grande admirador da teoria keynesiana, apesar de não ser um economista no aspecto formal. O empresário foi presidente do BCIA no governo Farrell e o grande mentor econômico na primeira fase do peronismo. Classificar esse personagem como justicialista é um tanto quanto confuso, uma vez que suas próprias ideias econômicas e nacionalistas fazem parte do que hoje conhecemos por peronismo ou justicialismo, principalmente durante o primeiro triênio desse governo

Em 1947, uma reforma da carta orgânica do banco reformula o modelo de composição do diretório. O presidentes, o vice e 5 de 8 diretores seriam de indicação do Poder Executivo, mas com indicações do Banco Central e não mais do Ministério da Fazenda. Os outros três diretores

seriam de nomeação das forças armadas. O significado dessas modificações ficaram mais claros no capítulo sobre a atuação institucional. Mesmo com tais mudanças e a ascensão de Perón a presidência da nação, em 1946, o banco continuou sendo presidido por indivíduos de perfil semelhante.

Miguel Miranda abdica de sua posição no Banco Industrial para assumir o Banco Central e Herbin retorna à presidência. O empresário têxtil daria lugar, em 1948, a outro empresário, do ramo metalúrgico e ex-diretor da instituição, Aquiles Merlini. Como relembra Jaurégui (2005), esse era um momento onde a indústria metalúrgica ganhava cada vez mais relevância ao sistema político peronista. Junto ao ramo têxtil, esses eram os setores com maior volume de empregados no país (Jaurégui, 2005, p.142). O empresário foi nomeado diretor do banco quando era dirigente da associação metalúrgica e em 1948 se torna presidente do BCIA.

Quadro V: Presidentes do Banco de Crédito Industrial Argentino (1944-1949)

Presidentes Formação Ocupação Prévia

Ernesto Herbin Engenheiro Industrial Empresário têxtil

Miguel Miranda s/ formação Empresário de funilarias Aquiles Merlini s/ informação Empresário metalúrgico

Fonte: Elaboração própria. Para consultar as fontes biográficas ver apêndices A1, A2 e A3.

O período que se estende entre os anos de 1949 e 1952 expôs o esgotamento do modelo expansionista, apoiado na demanda global, na redistribuição de renda, na ampliação do escopo estatal e na consolidação do poder sindical (Ferrer, 1963). Sucede o “triênio expansionista”

anos de dificuldades econômicas e de pressões políticas. A primeira resposta de Perón é uma ampla reforma da equipe governamental no ano de 1949. Personagens importantes dessa primeira fase como os já citados Miguel Miranda, Rolando Lagomarsino, Ernesto Herbin, assim como Aquiles Merlini dão lugar a um elenco mais técnico, dotado de maior experiência governamental, encabeçados por figuras como Alfredo Gomez Morales26, Miguel Revestido e Ramón Cereijo. Nesse contexto, assume a presidência do Banco Industrial um indivíduo de perfil diferente dos seus três antecessores, o contador Rodolfo Garello. Difere dos três primeiros presidentes da instituição, já que não era um empresário e fora recrutado do próprio setor público, onde trabalhou no Ministério da Fazenda e no Instituto Misto de Inversões Imobiliárias (IMIM). Aliás, a mudança para um perfil técnico, tendo na esfera pública o setor de origem, foi

26 O novo ministro da economia se posicionava a favor de um pragmatismo heterodoxo em questões monetárias e via como grande problema econômico a questão inflacionária. Nesse contexto Moralez foi o principal formulador do Plano de Estabilização Econômica de 1952. (Llach e Gerchunoff, 2007).

uma característica dos presidentes do Banco Industrial nessa segunda fase do peronismo, onde os quatro indivíduos que ocuparam tal posição entre 1949 e 1955 compartilham desse aspecto.

Quadro VI: Presidentes do Banco Industrial de la República Argentina (1949-1955)

Presidente Ocupação Instituição Anterior

Rodolfo Garello Contador Instituto de Inversões

Imobiliárias (IMIM)

Hector Julio Diaz s/informação Banco Hipotecário

Argentino

Julio Canessa Engenheiro Yacimientos Petrolíferos

Fiscales (YPF)

Americo Ditaranto Contador Banco Industrial

Fonte: Elaboração própria. Para consultar as fontes biográficas ver apêndices A4, A5, A6 e A7.

Quem sucede Garello é Hector Julio Diaz, ex-presidente do Banco Hipotecário. As fontes biográficas desse ator revela que sua família tinha laços estreitos com a família Duarte da então primeira dama, Eva Duarte Perón. Já Julio Canessa é a biografia do caso argentino que mais se assemelha com os ex-técnicos da CMBEU que posteriormente presidiram o BNDE, que veremos adiante. Canessa era engenheiro de longa trajetória por uma agência estatal, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), e que era especialista em assuntos energéticos. Pelo seu reconhecido conhecimento e claro alinhamento ideológico aos projetos estatizantes peronista, Canessa foi mentor de diversos projetos da área energética, como foi o caso da Destilaria de la Plata, primeira planta de produção de gás líquido no país. O engenheiro sai em 1954 para assumir a Dirección Nacional de Energia (DNE) e é substituído pelo vice, Americo Ditaranto. Este um contador de carreira pública que atuava no próprio Banco Industrial.

Nos primeiros cinco anos de atividade o Banco Industrial foi presidido por integrantes da UIA, dois representantes dos setores que eram maiores responsáveis pela geração de emprego no país, o metalúrgico e o têxtil, e por um dos mentores do projeto econômico peronista, Miguel Miranda. Ainda nesse estágio de consolidação das bases do que seria o justicialismo, esses indivíduos apoiavam o projeto industrial peronista e não rejeitavam as bandeira sociais dessa corrente ideacional, seja pelo alinhamento à essas ideias ou pelas vantagens econômicas que tal política governamental lhes proporcionava. O modelo representativo foi alterado em 1949 num cenário de sinais de esgotamento do “projeto expansionista”. Para os presidentes dessa segunda fase não existem relatos sobre as ideias e posição política de dois deles. Talvez porque a

trajetória desses indicam menor teor político em comparação com a escolha dos três primeiros.

Homens de perfil mais técnico e de trajetória pública passaram a liderar o banco. Julio Canessa foi um claro defensor de medidas típicas do justicialismo, além de também ser um técnico importante para os projetos energéticos do governo. E Hector Diaz um integrante do clã Duarte, próximo ao presidente Perón.

Quadro VII: Presidentes do Banco Industrial segundo ideologia econômica (1944-1955) Presidentes Anos na Presidência Orientação Ideacional

Ernesto Herbin 1944-1945 Pré-Justicialista Miguel Miranda 1945-1946 Justicialista Ernesto Herbin 1946-1948 Justicialista Aquiles Merlini 1948-1949 Justicialista Rodolfo Garello 1949-1952 s/informação Hector Diaz 1952-1953 Justicialista Julio Canessa 1953-1954 Justicialista Americo Ditaranto 1954-1955 s/informação

Fonte: Elaboração própria. Ver apêndices A1-A7.