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Os Pressupostos da Reforma Francisco Campos

2. OS CURSOS NORMAIS NO BRASIL: UMA TRAJETÓRIA ENTRE

2.6. Os Pressupostos da Reforma Francisco Campos

Sabemos que no Brasil os processos de estatização do ensino e de formação de professores, bem como a introdução da ciência aplicada à Pedagogia, consolidaram-se somente após o século XX, estendendo-se até a contemporaneidade. Na Europa, por outro lado, esse processo foi iniciado e concluído no século XIX.

Em relação à adoção do cientificismo aplicado ao ensino, consideramos que os princípios da Escola Nova fundamentaram a maioria das reformas educacionais estaduais promulgadasno país, após 1920. Nesse período, havia um desejo de difusão das boas escolas, expressos nas bandeiras do “entusiasmo pela educação” e do “otimismo pedagógico”. Conforme aponta Nagle (1974, p. 264), já não importavam os esforços para apoiar a escola (entusiasmo); o que mais importava era difundir a escola que reproduz um modelo novo (otimismo).

Durante adécada de 1920, também ocorreram outras reformas nos Estados e,ainda, inquéritos sobre a urgentenecessidade dese promoverem mudançasestruturais na educação. SegundoFreitas:

Entendida como doença social, a falta de escolarização era a ideia força de uma razão clínica em processo permanente de apropriação por parte dos que consideravam o analfabetismo o pai de todos os males da nação. A identidade nacional era deduzida a uma paideia médico-jurídico-pedagógica que oferecia as palavras-chave para que diferentes plataformas políticas tivessem, em comum, o mesmo senso de que o país estava amarrado à falta de dinamismo de sua população, deficiência essa decorrente da doença corpórea e do “raquitismo intelectual”. (2009, p. 41).

Eram recorrentes os debates acerca da situação da escola pública, apontada como deficitária einoperantepara reverter o quadrodo analfabetismo no Brasil. Eclodiu,assim, o desejo de elaboraruma política de defesa cívica dopaís, a ser realizada pela escola pública. Para tanto, teve enfoque a necessidade de uma mudança pedagógica no processodeensino- aprendizagem. Por essa perspectiva, caberia à escola pública primária acabar com a ignorância da populaçãobrasileirapermitindo,com isso, findar o parasitismo políticoquese perpetuavanopaís.

Tornar o Brasil civilizado significava incluir as crianças, especificamente aquelas menos favorecidas, consideradas como perigosas, sujeitas à criminalidade e ao abandono social. Segundo Monarcha (2010), seria papel da escola pública exercer uma ação social purificadora, ao eliminar o fardo do analfabetismo, valorizando, consequentemente, a educação comomecanismo para se alcançar esse objetivo.

Além da perspectiva política, que assinalava na educação um instrumento de integração social e fator civilizatório, do ponto de vista econômico, o processo capitalista de industrialização e de urbanização alterava as relações de produção, exigindo mudanças de postura do trabalhador frente às novas demandas porqualificação e entrosamento com o novo mundo do trabalho.

Destarte, tornou-se urgente divulgar a importância da educação escolar como ferramenta necessária para o avanço social da população brasileira. Iniciou-se, assim, um lento e progressivo aumento de escolas no país. Quanto à formação de professores primários, o número de escolas normais também aumentou, não obstante as resistências do Estado que considerava altosos custosdessa formação.

Nesse momento histórico, o sistema educacional era descentralizado, ou seja, cada um dos Estadosdeveria garantiraeducaçãoàs crianças, além de nomearequalificaramaioria dos educadores. No entanto, os cursos de qualificação docente, na maioria das vezes, eram insuficientes para capacitar o contingente de professores necessário para atender o público que carecia do ensino primário.

Nessas circunstâncias, alguns Estados doBrasil resolveram alterar o “Curso Primário Complementar” para o “Curso para Formação de Professores”. Esta mudança na estrutura organizacional do curso primário ocasionou o surgimento de mais uma possibilidade de formação docente: os complementaristas. De fato, a alteração não incidiu no currículo vigente, apenas acrescentou um anoa mais para a prática de ensino ser realizadae anexadaao currículo.

Finalmente, depois de concluir esse curso complementar, os alunos já estavam autorizados aprestarconcurso e atuarem como professores. A nova categoria ficou conhecida como professores complementaristas, pois formados apressadamente por uma prática, como leigos,emcontrapontocom os outros, formados pelos currículos dos cursos normais.

Após a ascensão de Vargas ao poder, em 1930, muitas demandas sociais foram observadas, incluindo a homogeneização de regras para ocampo educacional em todo o país. Em 1931, foi sancionada a Reforma Educacional de Francisco Campos. Importa ressaltar que, para Campos, afinalidade exclusivada Reforma não seria somente a ascensão dos estudantes

aos cursos superiores e, sim, a formação do cidadão para todos os setores da economia nacional.Nas palavras de Lima:

A reforma de Campos atinge tanto o nível primário de formação quanto as escolas normais, como um estágio na consolidação da democratização social. A preocupação é tomar uma série de medidas relacionadas à estrutura interna escolar, voltadas para reestruturação das instituições escolares, a fim de buscar a adaptação necessária para a modernização de Minas Gerais. O sucesso da implantação e modernização do ensino primário, logicamente, também dependia de uma boa estruturação e reformulação do ensino normal, responsável direto e majoritário pela formação de professores que atuariam no ensino primário, a partir das reformas empreendidas por Francisco Campos. (2009, p. 7).

A reforma educacional de Francisco Campos, em Minas Gerais, previa uma transformação na parte física, administrativa e pedagógica dos estabelecimentos escolares, modificações influenciadas pelas teorias da Psicologia Educacional e pelos princípios da Escola Nova.

Uma das consequências dessa nova reconfiguração do ensino foi a distinção dos estudos propedêuticos e profissionais: verificou-se, em alguns Estados, a criação ou ampliação dos estudos complementares, preparatórios ao normal; ou a divisão do Curso Normalemdoisciclos:umgeralou propedêutico e outro especial ouprofissional.

Assim, o Curso Normal tornou-se um curso de segundo ciclo, definido como uma categoria especificamente pedagógica,sem disciplinas de caráter geral como as que já eram ministradasnoginásio.