Capítulo I Pressupostos teóricos da comunicação no século 20
1.5. Os pressupostos de uma teoria da comunicação
Será feito neste item um apanhado geral das bases filosóficas das mais diferentes teorias da comunicação, para depois diferenciá-las das premissas da comunicação na semiótica peirceana. Em um dos últimos ensaios de Peirce, em 1913, alguns meses antes de sua morte, denominado An Essay Toward Reasoning in Security and Uberty, (MS 682 e em EP 2.463-474), em bom português, “Um Ensaio para Melhorar a Segurança e a Fecundidade do Nosso Raciocínio”, Peirce afirma ao tratar do raciocínio inferencial:
afirmação, elejo o termo “instinto” para manifestar minha crença no poder de raciocinar estar tão relacionado com a natureza humana como os maravilhosos instintos das abelhas, das formigas, etc., estão relacionados com a sua natureza (MS 682).
Assim, ele define instinto como forma de atuar voluntariamente que prevalece de forma quase universal entre os indivíduos normais de ao menos um sexo ou de outra parte inequivocamente natural de uma raça e que, no presente estado da ciência não é imediatamente explicável de forma satisfatória e completa como resultado de uma forma de ação mais geral. Desse modo, ele coloca todas as ações humanas dentro de um processo natural-evolutivo-instintivo, em que a comunicação não deixa de ser uma dessas ações.
Desde a antiguidade clássica greco-romana a idéia de comunicação vem sendo colocada sempre como um processo top-down, mas jamais em uma linha naturalista- evolucionista. Assim, já em Aristóteles, (384-322 a.C.) assinalava que teorizar sobre determinado tema corresponde a “retirar algo de sua realidade imediata, abstraindo-o, e proceder a um exercício logicamente orientado” (POLISTCHUCK, 2003: 17). Ao discutir o método dos pensadores, em sua obra “Ética à Nicômano” (idem), Aristóteles conceitua o “vocábulo grego theoria” (idem), como gênese significativa de “ação de contemplar” (idem). Pela theoria, o “o ser humano se aproxima de Theous (Deus), a quem ama contemplativamente e contempla amorosamente” (idem).
Assim, como a origem da língua portuguesa é indo-européia e, o componente hindu (de origem no sânscrito, cujos mantrans13 apontam para a aproximação do homem ao divino), é compreensível essa aproximação ao divino para ser obtida a abstração e a pureza de espírito (REY, 1973: 45). Nessa abordagem, a teoria tem em sua origem o significando “contemplação atenta, admiração pelo pensamento, reflexão” (idem). Outra
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Na cultura indiana, sílaba, palavra ou versos pronunciados segundo prescrições ritualísticas e musicais, tendo em vista uma finalidade mágica ou o estabelecimento de um estado contemplativo [Um mantra pode simbolizar ou evocar uma filosofia mística (dársana), um livro sagrado ou um deus; é amplamente utilizado no ritualismo hinduísta e no budista, nas práticas psicofísicas da ioga e no tantrismo.] (HOUAISS, 2001).
referência digna de nota, embora dicionarizada é assim delimitada a partir do grego
theoría, no sentido de reunião de pessoas encarregadas de missão especial solene que as
cidades gregas mandavam às festas dos deuses em procissão solene (idem). Portanto, a origem etimológica da palavra teoria está centrada em atos culturais de oferenda aos deuses. De modo extensivo, a idéia de usar a linguagem humana está diretamente ligada a uma teocêntrica, já que o deus criado pelo homem concebe mundos com palavras e os homens se tornaram seus discípulos ou demiurgos14.
Nesse sentido, o homem teoriza no pleito de encontrar sentidos para os fatos do mundo, é o mesmo que dizer: teorizar é um modo de ação onde a “experiência e o sentimento ao pensamento” (POLISTICHUK, 2003: 17). Assim sendo, segue que a teorização leva a um “sistema ordenado de idéias, formando um corpo de uma doutrina” (idem), que pode ser tomada como uma atividade humana complexa, onde o “significado profundo” (idem) encontra-se na justaposição do “pensamento abstrato ao desejo, à busca de poder, à paixão [...] à fantasia” (idem); atributos esses, que “nos define como seres humanos” (idem). Portanto, através da capacidade humana de teorizar, o homem “se faz consciente de si próprio e do mundo, trocando com vantagem certa ingenuidade natural” (idem: 18) por alguma “engenhosidade cultural” (idem). Assim, a criação cultural do ideal divino, através da linguagem, pressupõe a determinadas classes de humanos, a condição de teóricos hermeneutas, como o poeta e o filósofo, por exemplo. Eles se colocam em posição mais próxima do divino, como no idealismo platônico, enquanto as demais classes produtoras pertencem ao plano terreno, portanto, distantes do divino.
Desde a antiguidade grego-romana, portanto, o ato comunicativo tem merecido dedicação de alguns pensadores que colocam o processo de produzir linguagem em um plano praticamente espiritual. Aristóteles criou o primeiro “modelo” (SANTOS, 1992: 11) de um ato de comunicação, a “Retórica” (idem), constituído de três “elementos: locutor, discurso e ouvinte, visando a persuasão” (idem); e, na época moderna (século
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segundo o filósofo grego Platão (428-348 a.C.), o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através da imitação de modelos eternos e perfeitos (HOUAISS, 2001).
17), Francis Bacon “incorporou a ciência de comunicar à Lógica” (idem). Durante esses dois milênios a comunicação ficou aguardando fundamentação teórica adequada. Somente no início do século 20, começaram estudos mais complexos sobre o tema e só depois da segunda metade desse mesmo século, a comunicação passa a ser vista como objeto científico, devido a sua importância na sociedade de comunicação de massa como um meio capaz de influenciar essa sociedade em todos os seus aspectos.
Assim, no século passado, as teorias da comunicação são estudadas pelos vieses que permeiam os aspectos da cultura, das ideologias sócio-econômicas, da psicologia, da antropologia e da sociologia. Duas vertentes dividem as teorias da comunicação: o marxismo e o estruturalismo. A vertente marxista é utilizada nas análises das relações sociais de determinado sistema produtivo, ela procura enfatizar as discussões econômicas e políticas. Ao ser aplicada à comunicação, a vertente marxista demonstra a atividade empresarial da comunicação nas interrelações da sociedade capitalista, as relações de mercado com a mercantilização da cultura, dividindo as classes entre emissores e receptores, conforme Eliseo Santos: “[...] a classe que detém o controle dos meios de produção determina suas finalidades sociais, enquanto a classe que produz os bens tem condições apenas de consumir uma parcela desses bens” (SANTOS, 1992: 29).
Do ponto de vista da antropologia, ao pesquisador Claude Lèvi-Strauss é atribuída a cunhagem do termo “estrutura” (idem) – que determina o modo como as partes de um todo se organizam. Através de seus estudos, Lèvi-Strauss, procura “identificar elementos que diferenciam uma cultura da outra [...]” (idem). Para ele, “a estrutura é um sistema de relações” (idem) que constrói as relações da sociedade, ao estabelecer relações de semelhanças “de comunicação lingüística, de troca econômica, etc” (idem), a partir das binariedades de oposições: claro/escuro, alto/baixo, etc. Dessa maneira, o termo estrutura entra para o meio científico como estruturalismo: “Além disso, parte do princípio que organizam os sistemas através dos quais as sociedades se organizam refletem processos de comunicação” (idem). Na lingüística, Saussure torna a estrutura da língua base de estudo da mesma, como um sistema que é imposto a todos os falantes, que trazem dele um uso individual.
No plano comunicacional, Eliseo Verón relaciona duas linhas divergentes que se utilizam do termo estrutura: de um lado está o “modelo energético” (idem), oriunda de “tradição físico-organicista, como a dos teóricos funcionalistas” (idem) e, de outro lado, o “modelo informacional” (idem), associado às teorias lingüísticas e teorias da comunicação: modelo produzido pelos franceses. Verón assinala ainda, que:
[...] em todo sistema de comunicação estão presentes um “infra-estrutura” energética (os processos acústicos na comunicação verbal) e uma “super-estrutura” informacional (o conteúdo, a palavra, por exemplo). É à segunda forma de estrutura que os estruturalistas europeus dedicam seus estudos. Verón, 1977 apud (SANTOS, 1992: 29).
Em outra abordagem, Charles Morris desenvolve modelo próprio de análise da comunicação. Ele produziu um sistema classificativo que engloba três campos para conhecer melhor a natureza da comunicação: a) a sintaxe, que estuda o “código e as regras de composição de mensagens” (SANTOS, 1992: 29); b) a semântica, que trata do “referente ou significado” (idem); e, c) a pragmática, que pressupõe os “componentes do sistema de comunicação” (idem: 30). Nessa mesma perspectiva, Verón redefine o termo estrutura como “[...] uma entidade delimitada mediante a aplicação de um modelo destinado a determinar os aspectos sintático-semânticos de um sistema de comunicação, com o objetivo de compreender a natureza das mensagens produzidas”. Verón, 1977
apud (SANTOS, 1992: 30).
Nesse sentido, o modelo desenvolvido por Morris pode ser apreendido como uma nova versão da concepção da linguagem formulada por Ferdinand Saussure, um dos fundadores do estruturalismo lingüístico (SANTOS, 1992: 30). De outro modo, o francês Louis Althusser, elabora na década de 1970, uma teoria mais genérica, que exerce certa influência sobre os teóricos da comunicação de esquerda, que unem alguns pressupostos marxistas aos pressupostos estruturalistas, e fundamentam a “Escola da Técnica Hegemônica e da Dependência” (idem). Em “Aparelhos Ideológicos do Estado”, Althusser confirma que “[...] o preceito marxista de que a reprodução das condições de produção é a condição última da produção, e que essa produção não é feita
no interior dos meios de produção, no local de trabalho, mas através de instituições que reforçam a ideologia do sistema”. Althusser, 1980 apud (SANTOS, 1992: 30). Dessa maneira, Althusser localiza a comunicação além dos signos lingüísticos, ou seja, no materialismo histórico.
É importante ressaltar que, para Althusser, o poder do Estado é divergente de aparelhos ideológicos de Estado (repressor) e, dessa maneira, ele define os aparelhos ideológicos de Estado configurados nas seguintes instituições: “igreja, escola, família, partidos, sindicatos” (idem) e os aparelhos ideológicos da informação: “imprensa, rádio, televisão ect” (idem) e, da cultura, as “artes, esportes, etc” (idem). Mesmo que a sociedade seja instituída pelos aparelhos ideológicos ou repressores, a veiculação das idéias continua sedimentada em estruturas sociais ideologicamente produzidas e não naturalmente nascidas do processo de seleção de idéias de modo praticamente instrutivo.
Para finalizar, essa caminhada adentra-se pelo atalho das ideologias sócio- econômicas e da psicologia. Esta ciência, a psicologia, tem contribuído com seus suportes teóricos a diversas correntes de estudos dos “fenômenos da comunicação” (SANTOS: 31). Alguns funcionalistas examinaram os “efeitos da comunicação sobre o comportamento (provocando mudanças ou condicionamento)” (idem). Carl Hovland estudou as influências da “comunicação nas mudanças de atitude” (idem). De outra maneira, Baudrillard utiliza-se da “psicanálise para definir como o fetichismo, o fascínio que as mercadorias e as imagens exercem sobre os consumidores-receptores” (idem). Outros funcionalistas mais conhecidos, como Merton e Lazarsfeld, fizeram seus estudos sobre comunicação, utilizando-se da psicologia como “processo social” (idem). É importante ressaltar que os teóricos frankfurtianos censuram a “sociologia positivista” (idem) pela separação dada por ela: de um lado “os estudos sociológicos” e, de outro lado, “áreas adjacentes da economia, da psicologia e da história” (idem). Assim, para Adorno e Horkheimer, “os fenômenos sociais são produtos históricos, nos quais as tendências históricas se apresentam como tensões internas dos próprios processos sociais” (idem). Se a visão é psicologizante o fenômeno comunicação continua sendo
top-down, centrada no homem como mente produtora e sofredora do processo de signos