3. OS PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS DOS PROFESSORES NEÓFITOS DE
3.3. Os pressupostos pedagógicos dos professores neófitos de geografia
3.3.1. Os Pressupostos Pedagógicos da Pedagogia Diretiva
Faremos a partir de agora, uma breve discussão do que se trata cada uma destas Pedagogias que os profissionais da educação utilizam em suas aulas, fazendo uso dos escritos do professor Fernando Becker.
Para início de conversa, na Pedagogia Diretiva, Becker (2001, p. 15-16) afirma que o:
[...] professor que observa seus alunos entrarem na sala, aguardando que se sentem, que fiquem quietos e silenciosos. As carteiras estão devidamente enfileiradas e suficientemente afastadas umas das outras para evitar que os alunos troquem conversas. Se o silêncio e a quietude não se fizerem logo, o professor gritará para um aluno, xingará outra aluna até que a palavra seja monopólio seu. Quando isto acontecer, ele começará a dar a aula.
Como podemos constatar, neste modelo, o professor é o único agente detentor da palavra e de todo o conhecimento dentro da sala de aula. Este educador não está preocupado em ouvir os conhecimentos, que por ventura, seus alunos tenham, e tão pouco permite que eles tentem expô-los. Becker (2001, p. 16) afirma que a aula com este educador é da seguinte forma: “o professor fala e o aluno escuta. O professor dita e o aluno copia. O professor decide o que fazer e o aluno executa. O professor ensina e o aluno aprende.”.
Freire (1979, p. 41) destaca algumas características deste tipo de professor, em que, de acordo com o mesmo, elas retratam um cenário bem típico dos educadores que fazem uso da Pedagogia Diretiva apresentada por Becker (2001), sendo elas:
a) o professor ensina, os alunos são ensinados; b) o professor sabe tudo, os alunos nada sabem (sic); c) o professor pensa para si e para os estudantes; d) o professor fala e os alunos escutam;
e) o professor estabelece a disciplina e os alunos são disciplinados; f) o professor escolhe, impõe sua opção, os alunos submetem-se;
g) o professor atua e os alunos têm a ilusão de atuar graças à ação do professor;
h) o professor escolhe o conteúdo do programa e os alunos – que não foram consultados – adaptam-se;
i) o professor confunde a autoridade do conhecimento com sua própria autoridade profissional, que ele opõe à liberdade dos alunos;
j) o professor é sujeito do processo de formação enquanto que os alunos são simples objetos dele.
Porém, é importante salientarmos que o professor que utiliza esta pedagogia, possivelmente não ensina desta forma porque ele quer, mas talvez, seja em decorrência do que
ele aprendeu durante a sua formação. Se no decorrer da sua graduação, este educador viu e aprendeu que o ensino ocorre desta forma, a tendência é que ele entenda que a maneira mais correta para ensinar seja esta. Em decorrência disso, as possibilidades para que este profissional faça uso deste modelo de ensino e o aplique em suas aulas, é muito grande.
Por outo lado, o profissional da educação pode fazer uso desta metodologia de ensino, se baseando em outros educadores, seja seus ex-professores do Ensino Básico ou do Ensino Superior, ou até mesmo de um colega de profissão. Pensando nisso, Pimenta e Lima (2006) destacam que certos professores podem muitas vezes, desenvolver suas aulas levando-se em conta a “perspectiva da imitação”, ou seja, muitas vezes eles imitam as práticas pedagógicas de um professor do seu tempo de estudante, ao qual ele a denominava como boa, e por isso ele deseja que suas aulas sejam da mesma forma, ou o mais parecido possível com as daquele. Ao abordar em sua pesquisa esta temática, Pessoa (2017) faz algumas ponderações em relação a algumas limitações que estes educadores podem vir a se deparar dentro da sala de aula durante o desenvolvimento de certas metodologias de ensino, baseadas nesta perspectiva de imitação. O referido autor afirma que:
[...] com essa forma de conduzir as aulas, não consegui dar um ensino de boa qualidade aos estudantes. O sentimento de insatisfação devido ao desapontamento foi enorme, demorei certo período para entender que, mesmo dominando os conteúdos, os métodos e as técnicas de ensino, o que não era o meu caso, seria incapaz de ensinar Geografia aos meus alunos da mesma maneira que havia aprendido [...] (PESSOA, 2017, p. 34-35).
Como podemos constatar, não é tão simples desenvolver este tipo de metodologia de ensino, que tem como base a perspectiva da imitação. Caso o professor se limite apenas à realização da reprodução das práticas desenvolvidas por um determinado professor tido como “bom”, correremos um grande risco de não obtermos êxito em nossas aulas, em relação ao educador que serviu como base de referência.
Pimenta e Lima (2006, p. 8) destacam que “o pressuposto dessa concepção é o de que a realidade do ensino é imutável e os alunos que frequentam (sic) a escola também o são”. Ou seja, a forma de ensinar é intransferível. Não podemos pensar que se ensinamos de uma forma a uma determinada turma, e se reproduzirmos esta mesma metodologia de ensino, em outra turma com as “mesmas características”, iremos obter os mesmos resultados. Devemos sempre levar em consideração as particularidades que cada turma apresenta.
Este fato merece ser tratado como muito cuidado, pois devemos analisar cada turma como sendo única e não, como uma sendo igual à outra, por mais que se trate da mesma série
que estas turmas se encontrem. Existem vários fatores que vão interferir direta ou indiretamente para que esta diferença se faça presente entre uma sala de aula e outra, assim como destaca Santos (2008, p. 8), citando que:
[...] a diversidade humana que compõe a escola, sendo necessário para isso, incluir questões a serem discutidas e/ou refletidas tais como: etnia, raça, gênero, classe, sexo, entre outras, valorizando todo o conhecimento que os diferentes grupos trazem para a sala de aula, enriquecendo muito mais o ensino e a aprendizagem, onde, infelizmente acabam sendo despercebidos ou ignorados por muitos professores.
Assim como observado, fica mais claro de entender o quão é diversificada uma sala de aula e como é gritante a heterogeneidade entre duas salas de aula. Este é um dos principais motivos para obtermos resultados distintos em turmas diversas, fazendo uso da mesma metodologia de ensino.
O que não devemos fazer é pensar igual a como está posto neste modelo de pedagogia, apresentada pelo professor Becker (2001, p. 17), pois, de acordo com ele, na Pedagogia Diretiva: “o professor considera que seu aluno é tabula rasa não somente quando ele nasceu como ser humano, mas frente a cada novo conteúdo estocado na sua grade curricular, ou nas gavetas de sua disciplina.”
Porém, não é bem assim que acontece, pois de acordo com Feijó e Delizoicov (2016), todos os seres que chegam ao ambiente escolar, já trazem consigo certa carga de conhecimento acerca do mundo que está em seu entorno. Eles ainda enfatizam, que os conhecimentos prévios que os alunos trazem de suas vivências práticas do dia a dia para a sala de aula, também são denominados de conhecimentos adquiridos, devido estarem correlacionados com o seu espaço de vivência. Os referentes pesquisadores apontam para esses saberes não estarem em harmonia com os conhecimentos que derivam da ciência, e por este motivo que muitos educadores, de forma errônea, os desconsideram.