3 O DIREITO PENAL DO INIMIGO
Exposta a evolução do Direito Penal ao longo da história da humanidade e o panorama conflitivo da atual sociedade frente ao crime, torna-se necessário adentrar ao estudo do direito penal do inimigo, parte vital do presente trabalho e cujos postulados serão de utilidade ímpar para a conclusão do objetivo proposto no ensaio sub examine.
Assim, Jakobs identificava que as novas demandas penais, principalmente a criminalidade organizada, estava impulsionando o Direito Penal a deixar de ser uma reação social contra as ocorrências delitivas para configurar-se como defesa estatal contra um inimigo. Todavia, não teceu maiores considerações e, tampouco, construiu uma teoria sobre o assunto.
Posteriormente, no ano de 1999, na Conferência do Milênio realizada em Berlim, também na Alemanha, Jakobs afirmou, em nova palestra, que a tendência anteriormente constatada na Alemanha estava, em verdade, presente em todo o mundo. Nos mais variados locais e continentes, era possível constatar uma proliferação de legislações destinadas a combater com notável rigorismo as ameaças de crimes cada vez mais elaborados e praticados por organismos dotados de admirável organização.
Ao conjunto de características que representavam um enrijecimento do Direito Penal, Jakobs denominou de direito penal do inimigo, sendo essa a primeira vez em que o termo foi empregado. Veja-se, então, que Jakobs jamais partiu do zero para falar em direito penal do inimigo, mas sim constatou a existência de uma tendencia e simplesmente deu um nome a ela: direito penal do inimigo.
Em que pesem as vozes que se levantaram contra a nomenclatura, provenientes de adeptos ferrenhos do garantismo e de uma intervenção estatal mínima, Jakobs continuou analisando o tema de modo tímido, acreditando que, ao invés de fechar os olhos para as tendências evidentes, era melhor analisar os motivos pelos quais elas haviam se tornado realidade e teorizá-las a fim de limitar a ação que provocava sua assunção.
Foi então que ocorreram os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. 2.996 pessoas morreram e mais de 6.000 ficaram feridas em decorrência das ações perpetradas pela organização fundamentalista muçulmana Al-Qaeda, originando a “guerra ao terror”, lançada pelos norte-americanos com o intuito de extirpar a ameaça terrorista que pairava contra o mundo ocidental.
Posteriormente, no dia 11 de março de 2004 foi a vez de a Europa entrar na mira do terrorismo islâmico: dez bombas colocadas em trens metropolitanos de Madri explodiram quase que simultaneamente durante o
horário de pico, ocasionando a morte de 191 pessoas e deixando ainda mais de 1.700 feridos.
No dia 07 de julho de 2005, em Londres, em menos de uma hora quatro bombas explodiram (três delas em trens metropolitanos e uma em um ônibus), também na hora de maior movimento, ocasionando a morte de 56 pessoas, além de deixar outros 700 feridos.
Mais recentemente, Indonésia, Índia, Rússia, Nigéria, Quênia e França também foram assolados por atentados terroristas que expuseram, mais do que uma criminalidade doentia por parte de seus autores, as fraquezas do ocidente em lidar com a ameaça que as células terroristas representam e o perigo de ignorar a existência delas.
Assim, nos cinco primeiros anos do século XXI, o mundo foi abalado por imagens chocantes de massas de pessoas inocentes sendo assassinadas de maneira brutal por indivíduos altamente organizados cujo mister era chamar a atenção para uma ideologia que cultuavam e que estaria sendo desrespeitada por preceitos típicos do mundo ocidental.
Eric Hobsbawn (2007, s.p.), afirma, mais especificamente com relação ao episódio americano, que:
A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.
Parecia evidente que a criminalidade estava se modificando de maneira veloz, e sua potencialidade lesiva era tamanha que era imperioso que o Direito também se modificasse e se tornasse capaz de combater a nova ameaça que se descortinava no limiar do novo milênio.
E Jakobs, à vista disso, encontrou campo fértil para o desenvolvimento de suas teses e da teorização do direito penal do inimigo, principalmente em sua obra publicada no ano de 2003 juntamente com Manuel Cancio Meliá. Em tal obra, Jakobs abandonou seu discurso inicial, de mera análise do ordenamento, e passou a defender a sua ideologia.
É bem verdade que nem a terminologia “direito penal do inimigo”
nem a ideia que Jakobs por meio dela externou são novas. Mais correto é dizer que são contemporâneas e estão muito em voga. A ideia de um inimigo criminoso a ser combatido por meio do Direito Penal data da criminologia positivista, como visto na análise das ideias de Garofalo, e de tempos ainda mais remotos, quando a ideia do crime era associada a um pecado que, caso não punido, prejudicaria toda a comunidade.
Além disso, quando Franz von Liszt, precursor do sistema penal clássico, criou seu Programa de Marburgo no ano de 1882 e se utilizou de diversas terminologias assemelhadas no intuito de indicar que a sociedade de então deveria encarar a criminalidade como um inimigo de guerra. É o que ensina Manuel Monteiro Guedes Valente (2010, p. 39):
FRANZ VON LISZT não propulsionou uma visão belicista do Direito penal. Mas, ao defender que existiam três categorias de delinquentes – reincidentes, delinquentes habituais e delinquentes por tendência – que deviam estar sujeitos a prisão perpétua ou de duração indeterminada, com a consequente perda duradoura de direitos civis e políticos, podemos aferir que, não obstante defender uma política criminal cimentada em uma política social, VON LISZT considera aqueles indivíduos como “um exército de inimigos fundamentais da ordem social”. Não um inimigo a ser inocuizado, mas encarcerado ad temporem.
Todavia, Jakobs foi o primeiro doutrinador a construir uma doutrina com base filosófica suficiente forte para ser entendida como séria e, por que não dizer, necessária, diante das incontinências porque passa o mundo do século XXI, sendo esta a razão pela qual se afirma, como visto, incorretamente, que o direito penal do inimigo é um assunto novo.