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Segundo Maria Amélia Teles (1999), na época em que Cabral chegou com suas caravelas a estas terras, algumas tribos eram chefiadas por mulheres e as poucas senhoras que vieram de Portugal para a nova terra realizavam apenas trabalhos do lar e eram muito disputadas pelos portugueses, pois a igreja e o reinado de Portugal não admitiam que os seus patrícios se casassem com índias ou escravas, outra categoria de mulheres que, em grande número, constituía o cenário da época, Durante o período escravocrata, muitas mulheres brancas e negras lutaram contra a exploração e a favor da libertação do Brasil de Portugal, em movimentos como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana e, no Brasil Império, começaram a reivindicar o direito ao acesso à educação no mesmo grau dado aos homens.

Contudo, os primórdios do movimento das mulheres no Brasil foram iniciados mesmo na virada do século XIX para o século XX, quando nossas mulheres passaram a se organizar de forma mais incisiva, influenciadas pelas vanguardistas da Europa que lutavam pelo direito de votar e serem votadas. O pensamento feminista surge pela primeira vez através das figuras de Nísia Floresta Brasileira Augusta, que publicou “Conselhos à minha filha” (1842), “Opúsculo Humanitário” (1853) e “Mulher” (1856) e Mary Wollstonecraft que traduziu A vindication of the rights of women (1832). Desde então, o feminismo brasileiro se engajou na dinâmica da nossa sociedade, ora sufragista, anarquista, socialista, comunista, burguesa ou reformista (COSTA e SARDENBERG, 2008).

Destacamos os trabalhos dessa primeira, Nísia Floresta Brasileira Augusta, que, na verdade, era o pseudônimo adotado por Dionísia de Faria Rocha, que nasceu num pequeno sítio de propriedade de seus pais, na cidade de Papari, no Rio Grande do Norte. Nísia se casou aos 13 anos, deixou seu marido no ano seguinte, quando seu pai fugiu para Recife por causa das perseguições políticas, passando a ser repudiada por toda sua família menos sua mãe. Em 1828, começou a ensinar num colégio para sustentar sua mãe e três irmãos após o assassinato de seu pai. Em 1832, casa-se novamente e publica “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” e, desde então, destaca-se ainda como republicana e

abolicionista, escrevendo diversos textos que provocam polêmicas nos jornais cariocas; viaja para a Europa, onde é prestigiada por diversos escritores como o português Alexandre Herculano, até sua morte em Rouen, na França, em 1885 (TELLES, 2002).

No início do século XX, conforme atesta Céli Regina Jardim Pinto (2003), podemos perceber a coexistência de três tendências: uma “bem comportada”, liderada por Bertha Lutz que figurou na luta das mulheres por direitos políticos no Brasil durante a década de vinte e se manteve ligada às causas femininas até a década de setenta, quando faleceu; outra “mal comportada”, que envolve uma heterogeneidade feminina que se posicionava de forma mais radical frente à dominação masculina, sobretudo, a partir de alguns jornais editados por mulheres na grande maioria professoras, escritoras e jornalistas que defendiam questões como acesso à educação, fim da dominação dos homens e seu interesse em excluir as mulheres do mundo público; e uma última inclinação, que se manifestou no movimento anarquista e, em seguida, no partido comunista, composta por trabalhadoras e intelectuais que defendia a liberação das mulheres de uma forma mais radical.

Bertha Lutz retornou de Paris na década de dez do século passado, quando começou a organizar a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF), maior expressão do feminismo na época. Anteriormente, algumas mulheres haviam fundado o Partido Republicano Feminino, um grupo político que ambicionava representar os interesses das mulheres na esfera política, ainda que fosse composto por pessoas sem direitos políticos. Além do direito ao voto, o partido liderado pela professora Leolinda Daltro e pela poetisa Gilka Machado falava em emancipação e independência femininas. A luta da FBPF também era pelo direito ao voto. As principais ações empreendidas pela FBPF foram a conquista do apoio da opinião pública, a partir de abaixo-assinados levados ao Senado; a composição de uma comissão que pressionou o senador Juvenal Lamartine a ser um aliado da referida Federação no Congresso Nacional; e a campanha política em favor de Lamartine ao governo do Estado do Rio Grande do Norte, onde seria implantado, inicialmente, o voto feminino (PINTO, 2003).

À frente da Federação, Bertha Lutz ainda representou o país no Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho e na I Conferência Pan-Americana da Mulher

nos Estados Unidos e promoveu o Congresso Internacional Feminino no Rio de Janeiro (que contou também com representantes brasileiras dos estados de São Paulo e Ceará) junto com a Associação Americana das Mulheres e a Aliança dos Sufrágios da Holanda. O congresso no Rio de Janeiro foi essencial para a criação de outras federações ligadas a FBPF nos estados de Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Norte, São Paulo, Paraíba e Ceará.

Essas agremiações foram responsáveis, segundo já mencionamos, pela expansão do feminismo “bem-comportado” no território brasileiro, porque não questionava as bases da organização das relações patriarcais, preservando um bom relacionamento com os membros da elite conservadora da classe política nacional. Essas federações eram compostas por um grupo bastante homogêneo de mulheres: filhas da elite intelectual do país, professoras, advogadas, jornalistas, uma médica e uma engenheira que viram sua luta concluída em 1932 com a instituição do novo Código Eleitoral Brasileiro que incluiu o direito de votar e ser votada às mulheres (LIMA, 2003).

A tendência “mal comportada” do feminismo brasileiro nas primeiras décadas do século XX ficava a cargo das mensagens escritas presentes em pequenos jornais, alguns artesanais, de associações e sindicatos, onde eram publicados artigos de opiniões mais radicais sobre a condição das mulheres em nossa sociedade. A maioria trazia ideias patriarcais de comportamento, como a “Revista Quinzenal” e “O Jornal das Senhoras”, de Cândida do Carmo Souza Menezes, primeira mulher considerada jornalista; “Novelista Brasileiro”; o “Belo Sexo” e “A família” que se preocupava com a educação das mulheres como forma de emancipação. Essas produções não duraram mais de cinco ou seis números, todavia serviram para divulgar notícias e construir opinião e, com o passar do, tempo, o rumo foi mudando, abordando a consciência da identidade e dos direitos das mulheres, como demonstra “O Sexo Feminino”, por exemplo (TELES, 1999).

Com a revolução industrial, muitas senhoras, brasileiras e estrangeiras, tornaram-se trabalhadoras da indústria. Além da dupla jornada de trabalho, os salários pagos às mulheres eram bem menores do que os dos homens, mesmo quando essas trabalhavam mais horas. Os direitos escassos para as operárias motivaram as reivindicações trabalhistas,

as greves em favor de melhores condições de trabalho e fizeram com que um grupo de mulheres passasse a defender os ideários anarquistas.

Ressaltamos que, tanto o anarquismo como o comunismo, posteriormente, não tinham uma posição muito clara sobre as questões específicas referentes à condição das mulheres na sociedade brasileira. No entanto, definiam que a exploração das mulheres era resultado da dominação de classe e das desigualdades presentes nas relações de trabalho (TELES, 1999). Para a historiadora Magareth Rago (2010), as mulheres operárias anarquistas e as intelectuais de esquerda, como Maria Lacerda de Moura, longe dos movimentos libertários e da luta sufragista das federações do progresso feminino e do jornalismo feminista, foram as primeiras a apontar a opressão masculina e a reconhecer a especificidade desse abuso e suas consequências.

No final da década de trinta, as mudanças políticas no cenário nacional, empreendidas por Getúlio Vargas, pôs fim aos avanços verificados nas primeiras décadas da República e instituiu o Estado Novo que ‘veio a “barrar” a movimentação feminista, movimentação essa que se expressou a partir das três tendências descritas acima e suas diferentes ideologias. Só em maio de 1947, foi criada a Federação das Mulheres do Brasil (FMB), tendo como primeira presidente Alice Tibiriça. As lutas eram basicamente as mesmas das organizações anteriores. Esse grupo também era influenciado por partidos de esquerda como o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Em 1951, as lideranças femininas organizaram o I Congresso da FMB, com a participação de “146 donas-de-casa e as demais operárias, funcionárias públicas, professoras, profissionais liberais, estudantes e camponesas” (TELES, 1999, p. 49).

A partir das décadas de cinquenta e sessenta, por influência do crescimento da repressão sócio-política e cultural capitaneada pelo governo militar brasileiro, mas também por uma conjuntura internacional de luta democrática nos Estados Unidos, através dos movimentos beat e hippie e, na Europa, principalmente por força de maio de 1968, as mobilizações sociais começam a tomar forma e expressão no Brasil. Questões sociais passam a fazer parte das discussões realizadas por diversos segmentos da sociedade civil. Os militares, que já objetivavam o golpe, recorreram às bases sociais para que essas impedissem as perspectivas governamentais.

Entre esses grupos, as mulheres tiveram importante participação, concentrando centenas de milhares em suas marchas que almejavam barrar as “forças comunistas”, em prol da família e da sociedade. A grande maioria dessas mulheres era impulsionada pela igreja, maridos e patrões, lutavam contra a carestia e a anistia, compondo algumas organizações denominadas “Clubes de mães”, por exemplo. No ano de 1963, elas prepararam o Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora, tendo como principais pautas o salário igualitário e a aplicação das leis sociais e trabalhistas conquistadas pelas mulheres (RAGO, 2010).

Destacamos que, apesar desse movimento feminino, composto em sua maioria por integrantes das classes médias e populares, apresentar uma proposta de intervenção das mulheres no mundo público, fossem elas dona-de-casa, esposa e/ou mãe, não havia um questionamento sobre a condição de opressão das mulheres na sociedade, claramente defendidas por personalidades como Simone de Beauvoir e Beth Friedman que já despontavam no cenário internacional. Essa tendência, portanto, se delineava como algo totalmente dissociado do movimento feminista brasileiro porque seus pressupostos fugiam da luta pela mudança dos papéis atribuídos às mulheres na nossa sociedade. Mas havia uma aproximação entre os dois movimentos, uma vez que ambos problematizavam a questões relacionadas às mulheres.

Segundo Eder Sader (1988), as mulheres, na sua maioria donas de casa, procuravam os “Clubes de mães”, que cresceram em número e importância na década de setenta por três motivos: para extensão do mundo feminino, constituído do espaço familiar; para buscar uma alternativa a uma rotina opressiva; e por razões de ordem instrumental, como um curso de gestante ou crochê. As reuniões eram divididas em dois momentos. No primeiro, as mulheres faziam trabalhos manuais, falavam de suas vidas, trocavam receitas etc. Em seguida, havia uma reflexão coletiva motivada, geralmente, pela leitura de uma passagem bíblica comparada com aspectos da realidade, demonstrando para as “mães” que problemas vivenciados por elas, pensados como naturais e privados, seriam questões sociais que poderiam ser alteradas por novas práticas sociais.

Na verdade, o feminismo brasileiro nunca teve uma “unidade”, pois foi marcado pela dispersão em torno de variadas “causas’ e “bandeiras de luta”. De certa forma, esse

movimento de mulheres, precedeu o novo movimento feminista brasileiro, que surge no final dos anos sessenta, e continua a existir paralelamente ao desenvolvimento do feminismo nas décadas de setenta e oitenta, por isso devemos reconhecer a sua relevância política e social.