• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 3: A Língua Portuguesa em Busca da Nacionalização

3.2 Os primeiros momentos de contacto com Angola

Reza a tradição historiográfica que a chegada de Diogo Cão à embocadura do rio Zaire em 148252, marca o arranque da historicidade moderna de Angola e, consequentemente, o

arranque do processo que culminaria com o nascimento de uma nova nação: a nação angolana. A literatura das viagens admite a validade desse argumento, por se tratar da data em que a expedição comandada por Diogo Cão, navegador português do século XV, nascido no norte de Portugal, ao que se julga em Vila real, chegou às Cataratas de Lelala53, perto de

Matadi, no reino do Congo. A chegada marca, como é óbvio, os primeiros contactos entre os portugueses e os futuros angolanos e o despertar de uma longa história de convivência comum, feita de cumplicidades, que jamais teve fim (Henriques, 2004).

Vivia-se o período de governação dos Manicongo Nzinga-a-Nkuvu e Mvemba-a-Nzinga (no caso angolano) e dos monarcas D. João II, D. Manuel I e, por extensão, parte do reinado de D (na realidade portuguesa). João III. À chegada, os navegadores encontraram povos com línguas e culturas próprias, cuja hegemonia económica e sociopolítica foi resistindo até à progressiva conquista colonial. Com estes povos, línguas e culturas, os portugueses, que aí embarcaram com a sua língua e cultura, jamais deixaram de partilhar espaço comum, mais de cinco

52 Ainda assim, continua a verificar-se falta de consenso quanto à data da chegada de Diogo Cão à foz do

rio Zaire, se bem que o ano por nós adoptado pareça reunir maior consenso. Por exemplo, Henriques (2004: 16) aponta o ano de 1483 como a data provável da chegada.

séculos passados. Encontraram também um Estado organizado (à moda tradicional), apontado como uma das primeiras grandes unidades políticas formadas no século XIII, após as migrações Bantu (Birmingham, 1974), e que passaria para a história como Reino do Congo.

Depois de uma convivência inicialmente pacífica, marcada por relações até certo ponto cordiais, pois nessa fase as relações eram do tipo horizontal, e, mais tarde, por vários conflitos e até guerras sangrentas, enquanto durou a implantação e consolidação do sistema colonial, venceu o português, colonizador, tornando-se proprietário e senhor de terras de reinos em tempos desavindos que juntou, à luz dos seus interesses, num território único, entre os séculos XV e XIX. O Português, língua do vencedor, acompanhou a hegemonia portuguesa, tendo sido introduzido como língua oficial do novo território e imposto aos vencidos. Simplificamos – é certo. Porém, foi nesses moldes que começou a conquista portuguesa de espaços anteriormente exclusivos às línguas autóctones pertencentes à maioria vencida. A necessidade de difundir a religião criou condições para que o português fosse igualmente considerado como língua da missionação, ao ser usado nas missões para a instrução do indígena. Em suma, 1482 não só marca a data do início de relações comerciais entre dois povos, como também abre uma nova página quer para a língua portuguesa, quer para as várias línguas africanas daquela região de África.

3.2.1 Da horizontalidade à verticalização das relações

Apesar de a língua portuguesa ser introduzida em Angola no século XV, tinha fraca expressão até ao século XIX e mesmo durante toda a primeira metade do século XX. Com efeito, no século XVIII, temendo a resistência das culturas e línguas africanas, e tentando, a todo o custo, impedir a crescente africanização da elite afro-portuguesa emergente nos séculos XVII a XIX (1620 a 1870), assiste-se, no século XVIII, a imposição de medidas legislativas a favor da língua e cultura portuguesas. Como exemplo dessa política linguística, podemos referir-nos ao decreto de Sousa Coutinho, sucessor de António de Vasconcelos no cargo de governador de Angola, que desencorajava o uso das línguas africanas no ensino dos filhos da referida elite. Bilingue, pois incorporava valores tradicionais africanos e europeus, era composta por falantes de língua portuguesa e de uma língua de origem africana, normalmente kicongo ou kimbundu, as duas línguas africanas mais faladas nas áreas sob o controlo português. Posteriormente, a referida elite viria a ocupar cargos de relevo na administração pública, nos centros urbanos, enquanto agia, no interior, como capturadora de escravos, protectora das rotas comerciais e mantedora da paz (Venâncio, 1996). Esta situação ter-se-á mantido, de modo mais subtil até 1850, data que, por influência do triunfo da revolução industrial, se assinala, oficialmente, a proibição da importação de negros, por um decreto brasileiro, uma vez que à semelhança do que fizeram a Inglaterra e a França, o Brasil considerava, naquela altura, o tráfico como um acto de pirataria (Zau, 2007).

No mesmo período, a língua portuguesa restringia-se a zonas urbanas, primeiramente Luanda (a principal cidade da Colónia de Angola) e seu interland, e mais tarde Benguela (anexada à Colónia de Angola em 1779) e seu interland), igualmente. Estas duas cidades antigas na costa atlântica eram pontos de partida para a colonização do interior, para além de serem entrepostos de engorda de escravos capturados em guerras do interior pelos pombeiros ou vendidos pelos chefes tribais. Em contrapartida, o kimbundu, a língua geral do antigo reino de Angola como o chamou Chatelain (1888: 89), dava o ar da sua supremacia. Daí que entre 1575, data da fundação da cidade de Luanda por Paulo dias de Novais, e 1845, data que assinala, entre outros acontecimentos, a introdução do ensino oficial em Angola, a partir do decreto de 14 de Agosto de 1845, o kimbundu54 tornava-se a língua dominante.

A supremacia dessa língua era de tal forma que até os escravos exportados a partir de Luanda, onde ficavam o tempo mínimo para se restabelecerem fisicamente do desgaste provocado pela viagem em caravanas do interior para a costa, com o fim de poderem suportar as condições sub-humanas da viagem para as Américas e a Europa, no âmbito do tráfico negreiro transatlântico, eram obrigados a terem, no mínimo, algumas noções de kimbundu, assim como serem baptizados nessa língua, antes do embarque. Há factores que ajudam a explicar essa supremacia de kimbundu, em oposição à restrição do português, naquela época. Destacamos, aqui, dois: i) as contínuas guerras, quer entre portugueses e os reinos africanos, quer os últimos entre si; ii) as doenças responsáveis pelo elevado índice de mortalidade do já bastante reduzido número de portugueses (homens e mulheres) que se fixaram na altura em Angola para a manutenção de uma vastíssima colónia. Estima-se, nesta óptica, que dos cerca de 2340 portugueses, apenas 300 permaneciam em Luanda em 1592, uma vez que 450 terão morrido na guerra e os restantes por doença, ou terão escapado para o interior, onde assimilaram as línguas e culturas africanas, entre 1575 e 1592 (Santos, 1998; Inverno, 2005). Estamos, pois, pelas evidências, numa fase de assimilação recíproca.