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Projeto 1-4 – retratos da violência obstétrica-1

4 OS PRINCÍPIOS E DIREITOS APLICÁVEIS À ASSISTÊNCIA AO

4.2 Os Princípios da Igualdade, da Equidade e da Legalidade

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; (CF, 1988).

A Constituição Federal de 1988 diz que todos tem o direito de receberem um mesmo tratamento, devendo ser proibidos quaisquer tipos de discriminações ou diferenciações arbitrárias sem uma justificativa razoável, salvo nos casos em que a própria lei permite tal diferenciação.

No caso do tratamento entre homens e mulheres, a máxima de que “homens e mulheres são iguais perante a lei” deve ser interpretado no sentido de atenuar os desníveis sociais aos quais a mulher é submetida. O Brasil é um país no qual o machismo, bem como o patriarcalismo, ainda são muito presentes, sendo assim, mulheres estão expostas a diversos tipos de violências pelo simples fato de serem mulheres, nesse sentido, a Constituição permite que a legislação infraconstitucional atue de forma a coibir ou diminuir essas diferenças, para com isso, também resguardá-las. Como exemplo dessas tentativas podemos citar a criação da Lei nº 11.340 de 2006, mais conhecida com Lei Maria da Penha, que em seu texto, traz mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. À violência realizada contra a mulher por causa do seu sexo dá se o nome de Violência de gênero.

Desta forma, se considerarmos que o campo da maternidade é por excelência onde se exercita não só a função biológica do corpo feminino, mas uma função social do papel conferido à mulher regulado por uma construção simbólica, toda e qualquer violência neste campo é fundamentalmente uma violência de gênero. (AGUIAR, 2010, p. 24).

A Violência Obstétrica é uma das muitas manifestações da violência de gênero, de maneira que “Como outras formas de violência contra a mulher, a Violência Obstétrica é fortemente condicionada por preconceitos de gênero (sexismo).” (YUKIKO et al., 2014, p. 11). Essa violência possui um caráter institucional, no qual se evidencia pela relação hierárquica entre vítima e agressor, de modo que a mulher, vista como um ser inferior, torna- se objeto de um controle realizado através da descriminação e maus-tratos. Para Aguiar:

Estes maus tratos vividos pelas pacientes, na maioria das vezes, segundo alguns autores, encontram-se relacionados a práticas discriminatórias por parte dos profissionais, quanto a gênero, entrelaçados com discriminação de classe social e etnia, subjacentes à permanência de uma ideologia que naturaliza a condição social de reprodutora da mulher como seu destino biológico, e marca uma inferioridade física e moral da mulher que permite que seu corpo e sua sexualidade sejam objetos de controle da sociedade através da prática médica. (AGUIAR, 2010, p. 15).

O princípio da igualdade também não é respeitado no que diz aos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, pois, devido a nossa sociedade patriarcal, o exercício da sexualidade feminina é criticado, de forma que transparece na maneira como são tratadas as gestantes, inúmeras vezes sendo assediadas, subjugadas e humilhadas, em atos que chegam a transparecer até mesmo o sadismo.

“Vou dar logo no cu!”

Fala de um médico plantonista em resposta a um pedido realizado no meio da noite para prescrição de medicação para dor na cicatriz da episiotomia. Prescreveu um anti-inflamatório via retal. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES. (REDE PARTO DO PRINCÍPIO, 2012, p. 137).

“Na manhã seguinte do parto o médico passou na porta da enfermaria e gritou: ‘Todo mundo tira a calcinha e deita na cama! Quem não estiver pronta quando eu passar vai ficar sem prescrição!’. A mãe da cama do lado me disse que já tinha sido examinada por ele e que ele era um grosso, que fazia toque em todo mundo e como era dolorido. Fiquei com medo e me escondi no banheiro. E fiquei sem prescrição de remédio pra dor.” P. atendida na ala do serviço público da Maternidade Pró-Matre de Vitória-ES. (REDE PARTO DO PRINCÍPIO, 2012, p. 137).

O princípio da equidade determina que seja dado um tratamento igual aos que se encontram numa mesma situação e que seja dado um tratamento desigual aos que são desiguais, porém na medida de suas desigualdades. Entretanto, na prática o que se percebe é que fatores sociais, culturais, econômicos, políticos e étnicos são levados em conta no tratamento, porém não da forma que o principio prega, pois os mais necessitados são os que mais recebem tratamento muito aquém do mínimo de dignidade, visto que as mulheres pobres, negras e analfabetas são as que mais sofrem com o abuso obstétrico.

Esse tipo de tratamento destinado às parturientes que são vítimas de Violência Obstétrica vai fortemente de encontro ao que prega a equidade, já que o tratamento destinado, nesses casos, é baseado a partir de juízos de valores dos membros da equipe de atendimento e não no que seria moralmente adequado a cada situação. Nas pesquisas de campo de Hotimsky, ela constatou que existe uma

[...] classificação da clientela pelos profissionais de saúde a partir de determinados juízos de valor e há frequente intervenção desses valores na ordem de prioridade do atendimento, do diagnóstico, do tratamento e/ou da orientação final que recebem.” (HOTIMSKY, 2008, p. 229).

De maneira que o tratamento justo, com igual distribuição e acesso a bens, tratamentos, instalações e cuidados é vinculado, pelos profissionais, àqueles a quem eles atendem, de sorte que essa distribuição é definida por valores e preconceitos sociais, que vão contra, inclusive, aos princípios da dignidade humana.

“Ligaram do Hospital Dório Silva pro Conselho Tutelar para denunciar a parturiente, pois ela se declarou lésbica.” F. funcionária do hospital Dório Silva, na Serra-ES 136. (REDE PARTO DO PRINCÍPIO, 2012, p. 135).

“Muitas pacientes são migrantes, tem sotaque do Nordeste. Vêm do Nordeste ter filhos e depois voltam. São muito ignorantes!”. (HOTIMSKY, 2008, p. 214).

O princípio da legalidade é tratado no artigo 5º, inciso II, da nossa Constituição e diz:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

II – Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; (CF, 1988).

O desrespeito ao princípio da legalidade, no caso da Violência Obstétrica, anda de mãos dadas com o desrespeito ao princípio da autonomia. O primeiro garante que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei, já o segundo defende o direito de as pessoas se autogovernem, serem autônomas nas suas escolhas e nos seus atos. Assim, o médico deve reconhecer o domínio do paciente sobre a própria vida, respeitando a sua vontade ou do seu representante, bem como seus valores morais e crenças.

Contudo, a imposição de procedimentos rotineiros contra a vontade das pacientes fere profundamente esses dois princípios. Como exemplo podemos citar a episiotomia realizada mesmo contra a vontade da mulher, da mesma forma a aplicação de ocitocina, entre tantos outros. Essas práticas abusivas resultam em perda da autonomia e da decisão sobre próprio corpo, configurando numa “apropriação” dos seus processos reprodutivos e de sua individualidade.

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