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CAPÍTULO II O CAMPO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS AÇÕES

2.2 AÇÃO AFIRMATIVAS: O QUE SÃO, PARA QUÊ E PARA QUEM

2.2.1 Os princípios da meritocracia e da igualdade

Pensar os princípios da meritocracia e da igualdade se faz necessário por tratar de conceitos basilares para compreensão das ações afirmativas. Discutir a meritocracia trata-se de algo complexo e polêmico na sociedade brasileira, pois se trata de um critério de hierarquização e ordenamento social que mantém os grupos sociais dominantes em seus lugares de privilégios no espaço social reproduzindo a desigualdade. Desse modo, a meritocracia é comumente conceituada como uma forma de seleção social e ordenamento baseada numa concepção de esforço, do talento e das habilidades individuais. Sendo uma

abordagem basilar que reforça/reproduz os pressupostos do modo de produção capitalista, além de ser amplamente aceita na sociedade por utilizar como principal fundamento o princípio da igualdade.

Nessa lógica, Barbosa (2008) afirma a meritocracia como um conjunto de valores em que as posições dos indivíduos nas organizações devem ser consequência do mérito de cada um, ou seja, do reconhecimento público da qualidade das realizações individuais. Assim, para a autora, o critério básico da organização meritocrática é o desempenho das pessoas, sendo a partir dele que se permite diferenciar, avaliar, premiar, punir e legitimar a ordenação dos indivíduos; pois, cada um deve receber na devida proporção de seu próprio esforço e capacidade (IDEM, 2008).

A ideia do estabelecimento de lugares por mérito recebe diversas críticas de pesquisadores e dos movimentos sociais, com base na argumentação de que não estabelecem a igualdade, pois sistema trata todos os indivíduos da mesma maneira – desiguais como iguais – sem considerar as suas condições sociais, políticas, étnico-raciais e econômicas, e, dessa forma, cumpre seus principais objetivos: perpetuar o sistema, aprofundar desigualdades e restringir o acesso das minorias a espaços decisórios e de poder na sociedade. Para Barbosa (2008), a meritocracia engloba a autonomia, a competitividade, o empreendedorismo, o esforço e o trabalho como valores centrais da existência, tais valores passam para o indivíduo a mensagem de que estes têm a responsabilidade exclusiva pelos resultados de suas vidas, pois quaisquer outras variáveis serão ignoradas. Por essa linha de compreensão, entendemos que ―o fracasso ou sucesso são vistos como diretamente proporcionais aos talentos, às habilidades e ao esforço de cada um, independentemente do contexto‖ (IDEM, p. 45).

A meritocracia se consolida por carregar em si o discurso sobre a igualdade, uma igualdade formal que não abarca as singularidades da vida social de cada indivíduo. Quando se fala em igualdade a primeira noção que nos acomete trata-se da igualdade perante lei, prevista no Art. 5ª da Constituição Brasileira de 1988 que assegura: ―todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza‖. Essa ideia trata-se uma noção de igualdade formal ou procedimental que não considera as condições dos indivíduos na disputa dentro do sistema meritocrático. De acordo com Gomes (2005), as nações que historicamente se apegaram ao conceito de igualdade formal são aquelas onde se verificam os mais gritantes índices de injustiça social, eis que, em última análise, fundamenta toda e qualquer política governamental de combate à desigualdade social na garantia de que todos terão acesso aos mesmos ―instrumentos‖ de combate corresponde, na prática, a assegurar a perpetuação da desigualdade.

Contrariamente à ideia de igualdade formal, Gomes (2005) insere a noção de igualdade de resultados, material ou substancial que tem como nota característica exatamente a preocupação com os fatores ―externos‖ à luta competitiva – tais como: classe ou origem social, natureza da educação recebida –, que têm inegável impacto sobre o seu resultado. Para ele, trata-se desse tipo de igualdade objetivada pelas políticas de ações afirmativas em que todos aqueles(as) marginalizados(as) por uma estrutura excludente tenham acesso aos direitos garantidos na Constituição e aos bens materiais, sendo esse o mote principal das lutas sociais travadas neste século pelos movimentos sociais. A igualdade substancial perpassa pela discussão político-econômica e pela garantia da afirmação da identidade e do reconhecimento no mundo contemporâneo, nos conduzindo a percepção do racismo50 de forma estrutural e sistêmica (IDEM, 2005).

Dentro da noção de igualdade, apresentamos o conceito de equidade que se encontra no centro das discussões contemporâneas sobre justiça social, desse modo, caracteriza-se como um princípio diferenciado em que somente há justiça a partir da compreensão e da medição das desigualdades existentes entre os(as) sujeitos(as) e seus grupos sociais. Por isso, não separamos a igualdade da ideia de equidade, pois consideramos que se trata do estabelecimento das mesmas oportunidades na garantia de acesso aos bens próprios da cidadania a populações discriminadas seja por raça, gênero, classe etc.

Nessa ideia, Sposati (2002, p. 5) defende que a equidade como o reconhecimento e a efetivação, com igualdade, dos direitos da população, sem restringir o acesso a eles nem estigmatizar as diferenças que conformam os diversos segmentos que a compõem. Assim, a autora entende que a equidade se trata da possibilidade das diferenças serem manifestadas e respeitadas, sem discriminação; condição que favoreça o combate das práticas de subordinação ou de preconceito em relação às diferenças de gênero, políticas, étnicas, religiosas, culturais, de minorias etc.

Portanto, ressaltamos que a igualdade jurídica, fundamento das políticas universalistas realizadas pelo Estado, não foi suficiente ao longo do tempo para resguardar as minorias os bens da cidadania, especialmente, da população negra, por não oferecer as mesmas oportunidades a diferentes grupos sociais dentro do sistema meritocrático, sobretudo, na educação. Desse modo, as ações afirmativas foram para estabelecer modos de igualdade

50 Para Cashmore (2000), racismo é doutrina, dogma, ideologia ou conjunto de crenças, cujo elemento essencial é que a raça determina a cultura, e dela derivam as alegações de superioridade racial. Num sentido ampliado, a palavra é usada para incorporar práticas, atitudes e crenças. Afirma ainda queum dos derivados do racismo é o preconceito, definido como conjunto de crenças e valores aprendidos, que leva um indivíduo ou grupo a nutrir opiniões a favor ou contra os membros de determinados grupos, antes de uma efetiva experiência com estes.

substancial para população negra e outras minorias, isso não significa afirmar que os movimentos sociais da atualidade perderam a dimensão da transformação por pautarem mecanismos de mobilidade social. Ao contrário, suas propostas se efetivam/efetivaram nas contradições do sistema questionando o princípio meritocrático e a hierarquização racial, política e econômica da sociedade.