Por fim, oportuno se torna dizer que o modelo estabelecido pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é o único compatível com a dignidade humana das pessoas e com função comunitária dos Estados e dos organismos internacionais. Por tais razões Balera conclui que:
A agenda transformadora que lá foi estabelecida configura a ordem internacional em perspectiva multifária – econômica, social, política, cultural, ambiental e jurídica – impondo certo ritmo para o atingimento dos fins últimos da liberdade, da justiça, da paz e da inclusão. Oxalá chegue logo o ano de 2030! 426
Denota-se do exposto que a Agenda 2030 propõe standarts internacionais aos Estados, decorrentes dos compromissos assumidos em nível mundial, com superação dos desafios contemporâneos dessa Agenda, inclusive na perspectiva interamericana para a efetividade dos Direitos Humanos à luz de um novo olhar de acesso ao ecossistema de justiça.
Outro aspecto a se considerar são os princípios no trato do sistema internacional dos Direitos Humanos e a perspectiva interamericana para a efetividade desses direitos.
Dentre os três tipos de normas anteriormente apontados no universo jurídico:
os valores, os princípios e as regras, incluem-se, portanto, os princípios, os quais devem juntamente com os valores, nortear as regras referentes à análise do sistema internacional dos Direitos Humanos e a perspectiva interamericana para a efetividade desses direitos, com a finalidade de harmonizar esse sistema.
Sobre os princípios, Wagner Balera ensina que “segundo a métrica traçada pelo constituinte, o sistema de seguridade social brasileiro obedece a um conjunto de princípios (apropriadamente denominados objetivos) que possuem, entre si, uma hierarquia além de, claro, sobreporem-se às demais normas do ordenamento protetivo”.
427
Antes de iniciar o estudo dos princípios do sistema internacional dos Direitos Humanos, estampados nos Instrumentos internacionais, faz-se necessária uma breve análise sobre o tema geral dos princípios.
De início, os princípios ostentavam uma função auxiliar e integrativa, como princípios gerais de direito, segundo um viés positivista.
A partir da década de cinquenta do século passado, autores como Esser, Boulanger, Dworkin, Engisch, Wilhelm-Cannaris e Carrió, iniciaram estudos sobre a normatividade dos princípios.
Nesse esteio, segundo uma visão moderna, os princípios são leis e princípios gerais de direito (expressos e implícitos). Assim, autores como Eros Grau e Norberto Bobbio, à luz da doutrina pós-positivista, afirmam que os princípios são normas jurídicas vinculantes, com efetiva juridicidade.
No campo do direito constitucional, doutrinadores como Crisafulli, Robert Alexy e José Joaquim Gomes Canotilho, estudam especialmente o papel dos princípios constitucionais.
O termo princípio vem do latim – principium, principii, origem, começo.
Abbagnano define princípio como ponto de partida e fundamento de um processo qualquer. Os dois significados, ponto de partida e fundamento ou causa, estão
427 BALERA, Wagner. Noções preliminares de direito previdenciário. São Paulo: Quartier Latin, 2010, p.
81.
estreitamente ligados na noção desses termos que foi introduzido na filosofia por Anaximandro (Simplício, Fís., 24,13): a ele recorria Platão com frequência no sentido de causa de movimento ou/e fundamento da demonstração. 428
Barceló aponta, já em outra época histórica, sobre os princípios de direito:
“não há acordo sobre as fontes que os juristas do século XVI buscaram os primeiros princípios de direito. Para uns, o importante era a razão e para outros, a história”. 429430 Para Kant, o uso do termo princípio restringia-se ao campo do conhecimento, sendo princípio toda a proposição geral, mesmo extraída da experiência por indução, que possa servir de premissa maior num silogismo e, de outra banda, trouxe o princípio absoluto ou princípio em si. 431
Na filosofia moderna a noção de princípio perdeu importância. O termo inclui a noção de um ponto de partida privilegiado, não de modo relativo, mas absoluto em si. Nessa linha, Poincaré observou que um princípio não é verdadeiro ou falso, mas apenas cômodo. Em matemática ou lógica, essa denominação está em desuso e foi substituído por axioma ou postulado. Peirce, por fim, chamou de princípio guia ou leading principle o que sustenta a validade lógica de um argumento qualquer. 432
O conceito de princípio recai no momento, ou local, ou trecho em que algo tem origem, começo, causa primária, elemento predominante na constituição de um corpo orgânico, preceito, regra, lei, fonte ou causa de uma ação. Também, proposição que se põe no início de uma dedução, e que não é reduzida de nenhuma outra dentro do sistema considerado, sendo admitida, provisoriamente, como inquestionável, como axiomas, postulados, teoremas.
O estadunidense Ronald Miles Dworkin denomina princípio um padrão que deve ser observado, não porque vá promover ou assegurar uma condição econômica,
428 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bossi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 928-929.
429 BARCELÓ, Rafael Ramis. El nacimiento de la Filosofía del derecho De la Philosophia iuris a la Rechtsphilosophie. Madrid: Editora Dykinson, 2021, p. 42-43.
430 No hay un acuerdo acerca de las fuentes en las que los juristas del siglo XVI buscaron los primeros principios del derecho. Para unos, lo importante era la razón y para otros, la historia.
431 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Primeira segunda Seções. Trad.
Guido de Almeida. São Paulo, Barcarolla, Discurso Editorial, 2009, passim.
432 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bossi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 928-929.
política ou social considerada desejável, mas porque é uma exigência de justiça ou equidade ou alguma outra dimensão da moralidade. 433
O autor, ao criticar o positivismo, define a aplicação das regras como tudo ou nada (all or nothing), no caso de haver o preenchimento da hipótese de incidência de uma regra, ou seja, ou a regra é válida ou é inválida. De maneira diversa, os princípios contêm fundamentos, com dimensão de peso (dimension of weight), que são ponderados no caso de colisão entre princípios. Dessa forma, o princípio com maior peso é aplicado, sem que o outro princípio comparado perca sua validade.
O jurista alemão Robert Alexy trata dos princípios como mandamentos de otimização, mandamentos considerados em sentido amplo, inseridas aí também as permissões e as proibições.
Para ele, princípios são mandamentos de otimização, que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a medida devida de sua satisfação não depende somente das possiblidades fáticas, mas também das possibilidades jurídicas. 434
Miguel Reale, por sua vez, entende que princípios são, pois, verdades ou juízos fundamentais, que servem de alicerce ou de garantia de certeza a um conjunto de juízos, ordenados em um sistema de conceitos relativos a dada porção da realidade. Às vezes também se denominam princípios certas proposições que, apesar de não serem evidentes ou resultantes de evidências, são assumidas como fundantes da validez de um sistema particular de conhecimentos, como seus pressupostos necessários. 435
Genaro Carrió, por sua vez, afirma que há focos de significação do conceito de princípio, tendo em vista que o termo princípio constitui uma palavra polissêmica, com vários significados, como, por exemplo, núcleo básico, característica central; regra, guia, orientação; fonte geradora, causa ou origem; finalidade, objetivo, meta; premissa, axioma, essência, propriedade definitória; regra prática de conteúdo evidente, verdade ética inquestionável; máxima, aforisma, provérbio. 436
433 DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. Trad. Nelson Boeira. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 36.
434ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Trad. Virgílio Afonso da Silva. São Paulo:
Malheiros, 2008, p. 90-91.
435 REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, passim.
436 CARRIÓ, Genaro. Princípios jurídicos e positivismo jurídico. Buenos Aires: Abeledo Perrot, 1970, p.
33-34.