• Nenhum resultado encontrado

3.3 O problema do acesso à ordem social brasileira 134

3.3.1 Os problemas da violência 136

Que a violência na sociedade brasileira foge do controle, isso não se questiona (ARGUELHES; PARGENDLER, 2013). Dados inúmeros sugerem que essa fase endêmica de violência no país persistirá enquanto não se erradicar a grande diferença de renda e as

desigualdades sociais, econômicas e políticas. Isso impacta, inclusive, na legitimidade das instituições286. Referida violência não se condiz somente com o presente. Como já relatado em Vianna (1999), desde os primórdios da história “civilizatória” que o Brasil lida com problemas de violência. Hoje, principalmente, através de uma polícia de herança militarizada, do profundo descaso do público para com os problemas policiais e sociais, pelo déficit tecnológico de investigação da polícia civil, pelas notórias dificuldades do sistema carcerário, enfim, por uma lista de graves falhas institucionais, formais e informais.

Retomando o passado, tenta-se argumentar aqui que a violência tinha configurações tão parecidas, mutatis mutandis, com o que possui hodiernamente. Graças às coalizões entre elites, a violência, apesar de endêmica, era a pedra de toque do sistema econômico. A política e seus pactos garantiam o acúmulo de renda (NORTH; WEINGAST; WALLIS, 2009, p. 18- 19). Confere-se trecho de Vianna (1999, p. 265):

Desde o período colonial, como vimos, os grandes proprietários latifundiários haviam sido levados a organizar um sistema de poderosas instituições defensivas: – o clã feudal; o clã parental; a imunidade do feudo, etc.; instituições estas que – com o novo regime eletivo – vieram a servir aos senhores rurais de garantia tutelar contra as violências dos outros chefes de clãs, quando se encontravam eventualmente no poder.

As elites de outrora – classes dirigentes de Dantas – eram claras e facilmente se identificavam, notadamente pela homogeneidade do Brasil colônia ou império, ou mesmo república287. Com o relativo fortalecimento do Estado brasileiro e sua estratégia de fomento presente em todos os campos e ordens sociais distintas, a violência ganhou novas formas e características. Os antigos “clãs” de que tratava Vianna se pulverizaram, a classe dirigente alternou no poder e os interesses destes se bloquearam ao ponto de não mais se vislumbrar qualquer possibilidade dada e concreta de auxiliar a classe dirigida. As normas sociais de “defesa e ataque”288 se solidificaram nas micro-organizações dirigidas brasileiras. Classe

286 Como bons exemplos, além do já citado trabalho de Cunha et al (2015), vale frisar pesquisa da Anistia

Internacional (2014) onde esclarece que, em termos de percepção quase 80% (oitenta por cento) dos brasileiros não possuem certeza se serão ou não torturas caso detidos por autoridades policiais de seu país.

287 Sobre a influência do aventureirismo bandeirante na cultura violenta brasileira, analisar as vinhetas sobre Viana

Moog em Aguilar Filho (2009, p. 139-145).

288 Ainda sobre os conceitos de Vianna (VIANNA, 1999, p. 238), ilustrando bem a questão da cultura “clânica” de

ataque e defesa, conferir o trecho a seguir: “De norte a sul, os sesmeiros, senhores-de-engenhos e de fazendas, em face deste perigo, foram obrigados, como vimos, a organizarem os seus clãs de defesa ou ataque.

Organizados os clãs (que acabaram poderosamente estruturados), criou-se então esta tradição de união e solidariedade, de cooperação das famílias contíguas e aparentadas, em face do inimigo comum.”

dirigida e classe dirigente se viam e, de certa forma ainda veem, o Estado como inimigo. É essa a forma de controle e gestão da violência em uma ordem social de acesso limitado.

Hoje, o monopólio da violência não cabe somente ao Estado brasileiro. Organizações em formas de milícias – a organized violence de North, Weingast e Wallis (2009, p. 14) – comandam espaços cujo alcance dos direitos constitucionais não suportam; a polícia cria legitimidade forçada perante aqueles que possuem direitos garantidos – seja pelo Estado, seja por “dignidade pecuniária”, ou poder de consumo –; retrocessos sociais começam a entrar em pauta. As desigualdades criam configurações propícias à permanente ineficácia do Estado de Direito e, consequentemente, ao regresso do “aventureirismo” e às formas grotescas e primitivas – no sentido de North – de monopólio da violência289. “O quanto de desigualdade a sociedade suporta?”, questiona um autorizado sociólogo do direito (FARIA, 2012a).

Aos poucos, o próprio direito vai absorvendo os “custos” dessa violência, criando exceções e permitindo às ditas classes, sejam elites sejam as dirigidas, o convívio relativamente pacífico. Arguelhes e Pargendler (2013) desenvolveram análise dos custos colaterais da violência na elaboração de políticas e questionaram se estaria o direito rumo à modelagem pela insegurança. No caso, os autores põem na agenda a norma formal permissiva de se descumprir comandos de trânsito, como o semáforo indicando vermelho, após as dez horas da noite, ou o uso dos insufilm, além de outras questões como a remuneração de executivos e sua transparência. “De fato, a falta de segurança pública no país tem sido utilizada, com diferentes graus de sucesso, para moldar o desenvolvimento de instituições jurídicas em áreas aparentemente tão díspares como o direito comercial, o direito administrativo e até mesmo as regras de trânsito.” (2013, p. 271). A Tabela 7 abaixo resume o que os autores analisam. É a busca de pacificação entre classe dirigida e dirigentes.

De certa forma, tanto Políticas Combativas quanto as Adaptativas são maneiras de o Estado manifestar o controle de parte da violência. Nesse contexto, a partir do momento em que há um desequilíbrio entre as políticas adaptativas e combativas, percebe-se que as soluções parecem paliativas diante de um quadro institucional que não visa a gestão geral e ao longo do tempo da violência. O quadro institucional daí derivado não entra em sintonia com do que se considera a segunda precondição de transição entre ordens sociais. Ou seja, o legado “lei e

289 Como Dantas (1955, p. 451) bem destaca: “Desacreditadas as classes dirigentes, as classes dirigidas apelam

para o que Maquiavel já denominava a virtù dos homens que lhe sabem captar a confiança através de afinidades emocionais. E quando esses homens conseguem chegar ao poder supremo, cercar-se de uma burocracia civil ou militar por meio da qual restauram a eficiência perdida pela antiga classe dirigente, e criar um compromisso de sobrevivência para as classes dirigente e dirigida, então o cesarismo alcança a sua forma mais estável – o fascismo – suscetível de várias reapresentações históricas, mas definido invariavelmente por esses elementos constitutivos.”

ordem” não costuma ser a favor da “questão social”, sendo apenas uma arma para grupos específicos; limitando-se apenas ao alcance de pequenos destinatários, geralmente em situações limite. São políticas de fluxos condizentes apenas com ordens sociais de acesso limitado. De certa forma, os tipos de políticas destacadas por Arguelhes e Pargendler institucionalizam formalmente a resiliência da sociedade quanto à violência, permitindo assim que as crenças antes apenas incipientes em formas de normas sociais frágeis gerem expectativas formais. E o contexto de desigualdades no Brasil contribui para essa mazela.

Tabela 7 – Custos diretos e custos indiretos (via ordem jurídica) da violência290

Custos da violência Custos de medidas preventivas e repressivas Direitos ou fáticos Mortes; danos corporais; danos à propriedade; danos psicológicos;

desincentivo a investimentos etc.

Gastos com os sistemas judicial, policial e penitenciário etc. Indiretos ou

jurídicos “Políticas Adaptativas” “Políticas Combativas”

Fortalecimento de direitos

individuais de segurança por parte de potenciais vítimas em

detrimento de políticas públicas de efeitos coletivos.

Promoção de políticas de segurança pública em detrimento de direitos individuais de suspeitos e acusados criminais.

Exemplos: menor transparência quanto aos salários de executivos de companhias abertas e

funcionários públicos; distorções em regras de trânsito

Exemplos: fragilização do direito à ampla defesa, da presunção de inocência, da vedação à tortura, da proibição a penas cruéis etc.

Fonte: Adaptado de ARGUELHES; PARGENDLER, 2013, p. 272.

“As pessoas estão mais propensas a obedecer as regras, mesmo a um custo considerável para si mesmas, se elas acreditam que outras pessoas também vão obedecer as regras.” (NORTH; WEINGAST; WALLIS, 2009, p. 16)291. Como a população de uma ordem social de acesso limitado como a brasileira poderá ter incentivos a cumprir as regras paliativas de gestão da violência se, historicamente, como se viu em Vianna, o Estado ser forte não implica ser legítimo ou eficiente? Como cumprir tais “regras do jogo” se não se espera que os marginalizados do alcance do Estado brasileiro assim o façam? Neste contexto, é legítimo à

290 Sendo Políticas Adaptativas aquelas “[...] que realizam um ajuste na ordem jurídica com o objetivo de proteger

potenciais vítimas em face de um cenário de insegurança que é tomado como um dado inevitável da realidade na qual o ordenamento jurídico opera”, e Políticas Combativas aquelas “[...] que atuam direta e primariamente sobre os atores vistos como causadores da ameaça, por meio da criação de desincentivos para potenciais agressões” (ARGUELHES; PARGENDLER, 2013, p. 270).

291 No original: “People are more likely to obey rules, even at considerable cost to themselves, if they believe that

classe média brasileira exigir a quebra de cláusulas pétreas e pleitear retrocessos sociais a fim de se conseguir uma suposta diminuição da violência?

Ao fim, o problema da violência endêmica no país constitui não só objeto de gestão entre elites, mas realiza profundo impacto e possui decisiva parcela na conta da ineficácia de direitos fundamentais mais básicos. Como se explicará adiante, a sinergia de jogos entre normas sociais, implantes e “cópias” de formais, violência e história criam supressões e implementações de detalhes que exigem estratégias próprias na implementação das precondições (doorsteps conditions).