CAPÍTULO III A ANÁLISE DIALÓGICA DO DISCURSO (ADD)
3.3 Os procedimentos da ADD para os documentos oficiais
A partir do objetivo geral desta tese – analisar as orientações didáticas oficiais de Língua Portuguesa para surdos a fim de compreender os posicionamentos oficiais expressos nos documentos publicados e implementados pelo Ministério da Educação (MEC), no período entre 1979 e 2010, ), no Brasil −, duas questões foram formuladas: (i) Como os governos representados pelo MEC, no período que abrange os anos de 1979 a 2010, posicionaram-se frente às singularidades do estudante surdo? (ii) Que concepções de linguagem e de ensino de Língua Portuguesa engendram os discursos dos seis documentos oficiais?
Para buscar a memória do objeto de pesquisa, – seis documentos oficiais de orientações didáticas de Língua Portuguesa para surdos −, foram estabelecidos três objetivos específicos que refletem a organização desta tese: (i) contextualizar os documentos oficiais de orientação de Língua Portuguesa do MEC para surdos a partir de
sua forma arquitetônica, retomando a memória dos posicionamentos político- educacionais como discursos oficiais; (ii) descrever cada uma das propostas dos documentos oficiais de orientação de Língua Portuguesa para surdos a partir de sua forma verbo-visual, considerando a forma arquitetônica – ou projeto de dizer de um enunciado concreto, histórica, social e ideologicamente, atribuindo-lhe sentido – , com o intuito de revelar posicionamentos em relação às orientações de ensino de Língua Portuguesa para estudantes surdos; (iii) interpretar as orientações oficiais, enquanto política linguística, especificamente comparando as propostas das diferentes épocas, identificando os posicionamentos sobre os estudantes surdo e as concepções de linguagem e de ensino para os surdos.
Para alcançar os três objetivos específicos, primeiramente, recorremos às concepções teórico-metodológicas de Bakhtin e o Círculo para analisar os discursos presentes nos documentos oficiais, considerando os conceitos de “arquitetônica”, “memória” e “enunciado verbo-visual”, advindos do pensamento bakhtiniano ̶ Bakhtin (BAKHTIN, 2002, 2003, 2010, 2016, 2017) e Volóchinov (VOLÓCHINOV, 2017). Fundamentamos na teoria dialógica do discurso, com a finalidade de contextualizar, descrever e interpretar as formulações postas a respeito dos estudantes, de linguagem e de ensino presentes nos documentos oficiais, enquanto propostas destinadas aos estudantes surdos do ensino básico.
Em segundo lugar, a partir da organização do corpus, constituído pelos seis documentos oficiais, recuperamos a memória do objeto constituído, apresentando as principais diretrizes instauradas, no que se refere, sobretudo, às orientações didáticas oficiais de Língua Portuguesa para surdos a fim de perceber posicionamentos expressos nos documentos publicados.
Os documentos oficiais produzidos pelo MEC no período entre 1979 e 2010 trouxeram nas orientações didáticas mudanças em relação às concepções, de linguagem e de ensino para estudantes surdos.
Sendo assim, é possível afirmar que as orientações de Língua Portuguesa relacionadas ao uso de Libras foram consideradas de acordo com as condições de aprendizagem dos estudantes, não mais vistos como ouvintes, uma vez que passam a ser considerados em suas singularidades linguístico-discursivas como sujeitos bilíngues
ativos em um espaço institucional, no qual todos os estudantes devem ter acesso à construção do conhecimento como um ato cultural.
Nos capítulos IV “O discurso arquitetônico nas capas e contracapas dos documentos oficiais” e V “O discurso arquitetônico nos sumários dos documentos oficiais”, abordamos a visão a respeito da concepção de língua e de ensino que subjazem nessa arquitetônica. Isso porque, a capa e a contracapa estabelecem uma primeira interlocução do autor com os possíveis leitores – professores que trabalham com educação para os surdos. Na capa e na contracapa, aparecem enunciados verbo- visuais e a identificação – autor ou autores, título, editora e, provavelmente, os órgãos financiadores ou promotores, uma vez que se trata de documentos oficiais institucionais. No sumário, ocorre a indicação dos temas que serão desenvolvidos e a sequência desses temas. Temas relacionados aos posicionamentos a respeito dos estudantes (surdos), b) a Concepção de língua(em) e c) a concepção de ensino. A partir deles, é possível recuperar sentidos que os autores e editores pretenderam construir no gênero “material didático”.
A descrição das capas e contracapas indica ao leitor uma sobreposição de temas e de sentidos, principalmente ligados aos posicionamentos a respeito dos estudantes e ao ensino – aparecendo as designações dadas aos surdos e as proposições de ensino que vão da integração à inclusão. A análise parte das informações gerais sobre a obra, os fac-símiles da capa e contracapa de cada documento, iniciando propriamente a descrição com a apresentação da autoria da capa, da descrição topográfica e cromática, do detalhamento dos símbolos, das cores e, por fim, revelando possíveis sentidos para essa arquitetônica no tempo-espaço.
Para as capas e contracapas, é importante a concepção de enunciado verbo- visual, como forma de estabelecer uma confluência entre duas linguagens, a verbal e a não-verbal, a primeira representada pelo texto escrito ou falado e a segunda representada pelo texto visual (ver item 3.3 do capítulo 3), que é uma leitura, implicando um “reagir ao texto, dar-lhe uma resposta, concordando com ele, ou dele discordando; rindo dele, emocionando-se com ele, aplaudindo-o, refutando-o, assimilando-o, fazendo-lhe paródia, e assim por diante (CAMPOS, 2012, p. 249), que implica um olhar valorativo mais interpretativo e responsivo do que a imagem representa.
Com relação aos sumários dos seis documentos oficiais selecionados para este estudo, os organizadores e elaboradores assumem o papel do “eu” e propõem enunciados valorativos em relação aos “outros” – com valorações do tipo “sujeito com perda auditiva”, “deficiente”, “sujeito com identidade surda”.
Nesta pesquisa, os temas abordados nos documentos oficiais de orientação didática são descritos com finalidade de extrair as informações essenciais das sequências de temas apresentados no sumário. A discussão ocorre a partir da ordem, da hierarquia e do ponto de vista das escolhas dos autores na apresentação dos temas do sumário dos seis documentos oficiais do ensino de Língua Portuguesa para alunos surdos. Essa discussão ocorre a partir do conceito de arquitetônica bakhtiniana e remete para as singularidades sobre o estudante surdo, a língua e o ensino.
A análise de um sumário pode permitir que o pesquisador tenha uma visão geral do conteúdo do livro ou documento, e, assim, poder realçar os temas significativos, indicando a sequência de apresentação e a descrição das atividades, que vai desde a apresentação ou da introdução, quando o autor estabelece a interação inicial com o leitor da obra até as considerações finais, revelando os modos de construção arquitetônica da obra.
Apresentamos, a seguir, a disposição da forma arquitetônica nos seis documentos com a descrição dos sumários, os quais indicam ao leitor uma hierarquia, uma sequência de temas, de sentidos e de valorações. Iniciamos apresentando fac- símiles do sumário de cada material. A metodologia adotada apresenta os seguintes procedimentos:
a) Tomada de conhecimento do sumário como um todo.
b) Identificação do número de páginas destinadas à linguagem e ao ensino de línguas;
c) Leitura dos capítulos que discutem as concepções de língua(gem) e ensino; d) Retomada das primeiras hipóteses formuladas e avaliação dos possíveis sentidos construídos nos discursos dos documentos e pontos de vista apresentados.
Para a análise das capas, contracapas e sumários, consideramos as proposições políticas que ocorreram nos documentos a respeito da identidade e alteridade dos estudantes surdos, em particular os posicionamentos que veem o surdo como estranho, estrangeiro, que precisa ser reabilitado, integrado na sociedade por meio da educação ou
que veem o surdo como uma comunidade linguística, com identidade própria distinta das dos ouvintes, que utiliza uma língua própria de comunidade ou ainda que não estabelece dicotomias entre surdos e ouvintes.
Sob o ângulo, da concepção de língua(gem) como meio de interação discursiva, consideramos que há pelo menos dois interlocutores em um tempo e lugar estabelecidos, de modo que, os sentidos são produzidos na interação, pela relação entre sujeitos, sendo fundamental a posição do “outro” para estabelecer a posição do “eu”. Os sujeitos do discurso “eu-outro” assumem posições éticas e estéticas situadas e determinadas pelo gênero e pela esfera da comunicação humana.
Para identificação dos valores que influenciaram os posicionamentos dos responsáveis pela elaboração das orientações didáticas na educação dos surdos, verificamos de que modo aparecia a relação deles com os interlocutores (professores em formação), bem como se havia relação entre textos e contexto, como se deram as relações entre as modalidades da língua, a Língua de Sinais na relação com a Língua Portuguesa, além de buscarmos referências para a variação linguística na Língua Portuguesa e na Língua Brasileira de Sinais (Libras) nos documentos. Como nas línguas orais, na Língua de Sinais, como a Libras, há variações sociolinguísticas, dialetológicas e estilísticas. Isso ocorre em função dos extratos sociais, do meio geográfico e do meio social em que os brasileiros ouvintes e surdos estão engajados.
Consideramos, no capítulo de análise, as propostas e concepções de ensino de Língua Portuguesa para surdos, como o bilinguismo. Investigamos, assim, em que espaço escolar o bilinguismo fazia parte da realidade dos alunos surdos. Para isso, buscamos nos documentos o que era proposto como objeto de ensino, como metodologia, forma de avaliação, posicionamentos sobre o bilinguismo para surdos. Verificamos ainda em que espaço institucional era proposto o ensino de Língua Portuguesa: na escola especial, na classe especial, na sala de recurso de uma escola, na escola bilíngue ou na sala de aula regular.
No capítulo seguinte, será realizada a descrição e a análise dos fac-símiles das capas e contracapas dos seis documentos oficiais de orientação de Língua Portuguesa para surdos, à luz dos conceitos de “arquitetônica”, de “memória” e de “enunciado verbo-visual”, revelando os posicionamentos do MEC, que estão marcados de modo verbo-visual.
CAPÍTULO IV O DISCURSO ARQUITETÔNICO NAS CAPAS E