3. A INSISTÊNCIA DO SIMBÓLICO
3.3 A interpretação dos sonhos
3.3.1 Os processos anormais de pensamento: a perplexidade de Freud
Um sonho substitui certo número de pensamentos, que têm origem na vida cotidiana, e que formam uma seqüência absolutamente lógica. Tais pensamentos, que se originam da vida mental normal, podem ter surgido no dia anterior e prosseguido não- observados pela consciência até iniciar-se o sono. Uma seqüência de pensamentos como essa foi designada por Freud como ‘pré-consciente’; é absolutamente racional, e pode ter sido simplesmente negligenciada, ou interrompida e suprimida. Para que tenha lugar a formação onírica, é necessário que surja, no pré-consciente, uma seqüência de pensamento desprovida de uma catexia pré-consciente, e que tenha recebido uma catexia de um desejo inconsciente. A partir deste ponto, a seqüência de pensamento passa a ser submetida a uma série de transformações que Freud não mais identificou como processos psíquicos normais, e que conduzem a uma estrutura psicopatológica. Com relação a isso, ele afirmou que
[...] nosso edifício ainda se acha incompleto. À parte as muitas questões desconcertantes em que nos envolvemos ao abrir caminho pelas obscuridades da psicologia, parecemos achar-nos perturbados por uma nova contradição. Por um lado, supomos que os pensamentos oníricos surgem inteiramente através da atividade mental normal, mas, por outro, descobrimos um certo número de processos bastante anormais de pensamento entre os pensamentos oníricos [...]. Tudo o que descrevemos como ‘elaboração onírica’ parece afastar-se tão amplamente daquilo que identificamos como processos racionais de pensamentos que as mais severas críticas emitidas por autores anteriores sobre o baixo nível de funcionamento psíquico nos sonhos têm de parecer inteiramente justificadas (ESB, 1969, vol. V, p. 630).
Freud descreveu quatro desses processos anormais a que os pensamentos oníricos, antes construídos em linhas racionais, sujeitam-se no decorrer da elaboração onírica. Saltam aos olhos as semelhanças entre esses processos, considerados por ele anormais, e as formulações lacanianas acerca da primazia do significante e do modo próprio de funcionamento do simbólico.
O primeiro processo diz respeito ao fato de as intensidades das idéias individuais serem capazes de descarga em bloco e passarem de uma idéia para outra, formando idéias providas de grande intensidade. A partir da repetição desse processo, a intensidade de uma seqüência inteira de pensamento pode terminar concentrando-se em um elemento ideacional simples. Freud descreveu a condensação, principal responsável pela impressão desconcertante causada pelos sonhos, “por que absolutamente nada que lhe seja análogo nos é conhecido na vida mental que é normal e acessível à consciência” (ESB, 1969, vol. V, p.633). As condensações nos sonhos avançam na direção determinada pelas relações racionais pré- conscientes dos pensamentos oníricos, e pela atração exercida pelas lembranças visuais do inconsciente. Isso resulta na obtenção das intensidades necessárias para forçar caminho aos sistemas perceptivos.
No segundo processo, sob influência da condensação e em decorrência da liberdade com que as intensidades podem ser transferidas, ‘idéias intermediárias’, que se assemelham a acordos, são construídas. Trata-se, novamente, de algo que não é encontrado nas cadeias normais de idéias, onde a ênfase é posta na seleção e na retenção do elemento ideacional “correto”. Mas tais estruturas compostas e compromissos ocorrem, muito freqüentemente, nos lapsos de linguagem. Ao descrever o terceiro processo anormal a que os pensamentos oníricos são submetidos no decorrer da formação onírica, Freud afirmou que as idéias que transferem mutuamente suas intensidades são ligadas por relações muito frouxas, por associações de um tipo que o pensamento normal despreza, e que o uso dos chistes acolhe, especialmente aquelas baseadas em homônimos e similaridades verbais. Com relação ao quarto processo, Freud reconheceu que pensamentos mutuamente contraditórios podem persistir lado a lado, sem esforçar-se por anular-se uns aos outros. Freqüentemente eles se combinam para formar condensações, como se não houvesse qualquer contradição entre eles.
Freud destacou, como principal característica desses processos, o fato de toda ênfase ser aplicada no intuito de tornar a energia catexial móvel e capaz de descarga. O
conteúdo e o significado corretos dos elementos psíquicos aos quais se ligam as catexias são tratados como sendo de pouca importância. Ele concluiu que dois tipos radicalmente diferentes de processos psíquicos participam da formação de sonhos: um produz pensamentos oníricos perfeitamente racionais; outro trata tais pensamentos de maneira que ele qualifica de altamente desconcertante e irracional. Este segundo processo é reconhecido como a elaboração propriamente dita. Tem lugar, então, a indagação acerca da origem desse processo.
O progresso no estudo da psicologia das neuroses contribuiu para este esclarecimento. Freud descobriu, a partir da histeria, que processos psíquicos irracionais dominam a produção de sintomas histéricos. Mas há aí, também, uma série de pensamentos absolutamente racionais, tão válidos quanto os pensamentos conscientes. A análise do sintoma permitiu descobrir que tais pensamentos normais foram submetidos a um tratamento anormal. Eles constituíram o sintoma por meio da condensação e da formação de compromissos, através de associações superficiais e do desprezo pelas contradições. Diante da completa identidade entre aspectos peculiares à elaboração onírica e aqueles da atividade psíquica presente em sintomas psiconeuróticos, Freud sentiu-se justificado em transpor para os sonhos as conclusões a que fora conduzido pelas investigações psicanalíticas da histeria. Ele tomou de empréstimo, da teoria da histeria, a tese segundo a qual uma seqüência de pensamento normal apenas é submetida a tratamento psíquico anormal se um desejo inconsciente, oriundo da infância e em estado de recalcamento, for transferido para ela.