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Os processos de trabalho e as consequências à saúde

No documento Meio Ambiente e Qualidade de Vida (páginas 26-36)

Como visto nas produções anteriores, o trabalho sempre foi o ponto central de estruturação das organizações sociais. Nas sociedades primitivas o homem era movido pelos instintos de sobrevivência e reprodução, sua força laboral era direcionada a estes objetivos.

A Revolução Industrial é considerada um marco na história da humanidade. As formas de produção introduzidas revolucionaram o modo de vida da sociedade, ocasionando diversas transformações nos aspectos socioeconômicos e ambientais. Com a Revolução Industrial, o trabalhador, antes artesão, passou a vender sua mão-de-obra e assumiu diferentes papéis conforme o modelo produtivo adotado na indústria. Veja na Figura 3 uma foto do século XIX dos operários de uma fábrica têxtil localizada na Espanha.

No final deste mesmo século, Frederick Taylor criou um sistema de organização industrial e administrativo denominado taylorismo, ou administração científica. Seu propósito era maximizar a produtividade nas fábricas através da divisão de tarefas e especialização dos trabalhadores.

Figura 3 – Parte dos 340 operários da fábrica têxtil Brunet y Cía, construída em 1845 em Guipúscoa, Espanha (GOVERNO BASCO, S.d.).

Fonte: Wikimedia Commons | Iñaki LL | CC0 1.0 | Public Domain

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Oriako_langileak_-_Brunet_y_C%C3%ADa.jpg

Os meios de produção adotados no sistema taylorista visavam conter os custos operacionais e melhorar o aproveitamento do tempo na execução do trabalho (TEIXEIRA; SOUZA, 1985). Seguindo a mesma ideia, Henry Ford desenvolveu em 1914 um sistema de produção em massa, denominado Fordismo, no qual o trabalhador era considerado apenas mais um componente da maquinaria, necessário ao correto andamento das atividades dentro da indústria.

A produção em massa era baseada na ideia de sistematização das partes do todo através das linhas de produção. “As mudanças implantadas permitiram reduzir o esforço humano na montagem, aumentar a produtividade e diminuir os custos proporcionalmente à elevação do volume produzido (WOOD JUNIOR, 1992, p. 9).”

Ainda nos dias atuais podemos observar características fundamentadas nestes moldes produtivos sendo reproduzidas. As redes de fast food são exemplos de empresas que se utilizam do sistema de linha de montagem e produção.

Outro padrão de produção industrial a ser discutido é o toyotismo.

Desenvolvido nos anos 1950 no Japão, também foi inicialmente aplicado na indústria automobilística, mais especificamente na fábrica da Toyota, com aspectos que se contrapõem ao taylorismo-fordismo.

Antunes (2001, p. 181-182) cita algumas das principais características do toyotismo:

1) Sua produção muito vinculada à demanda.

2) Ela é variada e bastante heterogênea.

3) Fundamenta-se no trabalho operário em equipe, com multivariedade de funções.

4) Tem como princípio o just in time, o melhor aproveitamento possível do tempo de produção e funciona segundo o sistema de kanban, placas ou senhas de comando para reposição de peças e de estoque que, no toyotismo, devem ser mínimos.

Enquanto na fábrica fordista cerca de 75% era produzido no seu interior, na fábrica toyotista somente cerca de 25% é produzido no seu interior. Ela horizontaliza o processo produtivo e transfere a "terceiros" grande parte do que anteriormente era produzido dentro dela.

Por sua vez, o volvismo foi um modelo introduzido pelo grupo sueco Volvo na década de 1990 em suas linhas de produção. Suas principais características eram: substituição das linhas de montagem tradicionais por módulos de montagem paralelos, formação de equipes para construção dos chassis, ciclos de trabalho de 2 a 4 horas e equipes com autonomia para distribuição das tarefas e ritmo de trabalho (LUCAKS, 2005).

Os modelos de produção citados até agora foram praticados durante o período industrial. Ainda restam resquícios de características nos processos adotados por algumas empresas, porém, foram majoritariamente substituídos por outros modos de produzir.

Nesse contexto, o filme Tempos Modernos (veja a Figura 4) interpretado por Charlie Chaplin, traz uma crítica aos modelos de produção industrial adotados durante a Revolução Industrial. As atividades laborais exaustivas e repetitivas na linha de produção são características dos modelos taylorismo e fordismo, estudados nesta produção.

Figura 4 – Cena do filme Tempos Modernos.

Fonte: Wikimedia Commons | United Artists | Light show | Public Domain https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chaplin_-_Modern_Times.jpg

ACESSE:

O filme Tempos Modernos, protagonizado por Charlie Chaplin é um clássico e retrata a desumanização dos trabalhadores dentro das fábricas durante a Revolução Industrial. Em uma das cenas mais clássicas, Carlitos é puxado por uma das máquinas e entra até as engrenagens, retratando a desumanização dos trabalhadores. O longa completo está disponível neste link: https://www.youtube.

com/watch?v=fCkFjlR7-JQ.

Os modelos de produção trazem consequências à saúde ocupacional. Inclusive a medicina do trabalho surgiu durante o período da Revolução Industrial, na Inglaterra, para intervir no processo acelerado e desumano de fabricação (MENDES; DIAS, 1991).

Mas, antes de adentrarmos neste assunto, você sabe do que se trata a “saúde ocupacional”? Este termo é utilizado para designar a área responsável pela saúde laboral, ou seja, a saúde do trabalhador. Para que a saúde do trabalhador seja promovida e preservada é necessário que as condições laborais propiciem isto.

As empresas são responsáveis por tomar todas as medidas necessárias à prevenção de riscos e danos à saúde física e mental de seus servidores. Para tal, devem adequar-se às normas e regras estabelecidas por órgãos fiscalizadores.

“Entre os determinantes da saúde do trabalhador estão compreendidos os condicionantes sociais, econômicos, tecnológicos e organizacionais responsáveis pelas condições de vida e os fatores de risco ocupacionais” (BRASIL, 2001a, p. 17). As doenças ocupacionais variam conforme a atividade laboral e enquadram-se em diferentes grupos, como transtornos mentais e do comportamento, doenças do olho, ouvido, dentre outros.

Anteriormente à Revolução Industrial os artesãos dedicavam-se a tarefas manuais em pequenas jornadas de trabalho. Com a produção em larga escala nas indústrias e a ambição da maximização de lucros, os atuais trabalhadores assalariados viam-se obrigados a trabalhar horas a fio sem descanso.

Logicamente, a rotina de até 16 horas diárias de trabalho levava ao esgotamento físico e ao adoecimento:

Tais condições de vida e de trabalho, com pouca e péssima comida, trancafiados em lugares insalubres, seja no trabalho ou em suas habitações, só podia levar a doenças devastadoras, como a tuberculose e o tifo. [...]

Devido à sua indigesta e parca alimentação, diversas doenças dos órgãos digestivos eram muito comuns, como as escrófulas e o raquitismo (SILVA, 2015, p. 224-5).

Algumas fábricas funcionavam 24 horas por dia para obter maiores lucros, com dois grupos de trabalhadores que trabalhavam 12 horas seguidas cada. Superexcitação nervosa, esgotamento do corpo e enfraquecimento físico eram algumas das consequências das atividades laborais. Doenças na coluna também eram comuns devido ao longo período em pé e as más posições adotadas durante as atividades (ENGELS, 2010).

Na modernidade, com os direitos dos trabalhadores garantidos, as jornadas incessantes foram substituídas por atividades com intervalos e prazos máximos estabelecidos. No entanto, o trabalhador continua a adoecer, e agora por motivos principais diferentes do que antigamente.

NOTA:

Vale ressaltar que mesmo com as regras estabelecidas pela legislação, ainda há casos de trabalho análogo ao escravo.

Nestas situações o trabalhador é submetido a condições semelhantes às da época da Revolução Industrial, como jornadas exaustivas em ambientes de trabalho degradantes.

Na sociedade pós-industrial, ou pós-moderna, a informação e a tecnologia dominaram o mercado de trabalho e transformaram completamente seus processos produtivos. A necessidade das empresas passou a ser por trabalhadores criativos, que não necessitam de locais fixos para desenvolverem suas habilidades, ao invés de simples operadores de máquinas.

REFLITA:

Vamos parar para refletir como a organização no trabalho mudou da Revolução Industrial até os dias atuais...

Consideremos os trabalhadores que não exercem força física, mas sim intelectual. Atualmente laptops, tablets e smartphones fazem parte dos materiais utilizados nas atividades laborais.

Escritórios em grandes edifícios, salas divididas entre vários colaboradores... Quais são os riscos destas condições?

De acordo com dados do Ministério da Saúde (BRASIL, 2019a), os cânceres, os transtornos mentais, as Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort) são as doenças ocupacionais que mais atingem os brasileiros.

“LER/Dort são danos decorrentes da utilização excessiva, imposta ao sistema musculoesquelético, e da falta de tempo para recuperação.

Caracterizam-se pela ocorrência de vários sintomas [...] tais como dor, parestesia, fadiga (BRASIL, 2012, p. 10)”. Estas siglas representam um grupo de lesões relacionadas às más condições no ambiente de trabalho e nas atividades laborais em si, como movimentos repetitivos e postura inadequada.

De grandes a pequenas máquinas, os processos de trabalho foram amplamente modificados desde a Revolução Industrial, porém, a necessidade por movimentos repetitivos ainda permanece (Figura 5). A falta de ergonomia colabora para o adoecimento dos funcionários: má postura, levantamento de peso excessivo, monotonia, ritmo excessivo de trabalho, dentre outros agravantes.

DEFINIÇÃO:

“Ergonomia (ou Fatores Humanos) é a disciplina científica que trata da compreensão das interações entre os seres humanos e outros elementos de um sistema, e a profissão que aplica teorias, princípios, dados e métodos, a projetos que visam otimizar o bem-estar humano e a performance global dos sistemas” (International Ergonomics Association, 2000).

Figura 5 – Digitar por várias horas em posturas inadequadas pode levar ao aparecimento de lesões.

Fonte: Pixabay

Até mesmo novas enfermidades têm surgido devido ao modo de vida moderno. As síndromes tecnológicas, como a síndrome do pescoço de texto ou pescoço tecnológico, são recentes e ocasionadas pelo uso incorreto (má postura) de aparelhos como smartphones.

São várias as doenças que podem afetar a saúde do trabalhador, e, como visto nos dados apresentados, não são somente de origem física. Os ambientes de trabalho atuais, com altas taxas de cobrança por desempenho e alcance de metas, trazem danos à saúde mental, podendo gerar até mesmo afastamentos frequentes.

O estresse a que somos submetidos diariamente devido ao ritmo de vida frenético e a necessidade de nos mantermos sempre atualizados é agravado pela competitividade no ambiente de trabalho. Além disso, não é raro encontrar profissionais que fazem dupla jornada ou mesmo que

“levam trabalho para casa”.

A geração atual é pressionada constantemente a ser produtiva, apresentar resultados, e isto não é só no ambiente de trabalho. A

depressão, considerada o “mal do século”, possui gatilhos nos diversos ambientes em que o ser humano convive.

Além das doenças, o trabalhador também está sujeito a acidentes no trabalho. De acordo com o art. 19 da Lei Complementar nº 150/2015:

Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados [...], provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

Dentre as lesões mais frequentes estão os cortes, fraturas, contusões e distensões. Conforme dados do Ministério Público do Trabalho (BRASIL, 2019b), de 2012 a 2018 os setores econômicos com mais comunicações de acidente no país foram: atividades de atendimento hospitalar (378.305), comércio varejista de mercadorias em geral, com predominância de produtos alimentícios - hipermercados e supermercados (142.909), administração pública em geral (119.273), construção de edifícios (104.646) e transporte rodoviário de carga (100.344).

Um ponto que cabe ser destacado é a importância da utilização correta de Equipamentos de Proteção Individual – EPIs no ambiente de trabalho. Os EPIs são itens de segurança fundamentais que oferecem proteção ao trabalhador, reduzindo os riscos de acidente.

DEFINIÇÃO:

“Considera-se Equipamento de Proteção Individual - EPI, todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho (BRASIL, 2001b).” As transformações nos diversos aspectos da vida em sociedade influenciam não só na saúde laboral, mas também na qualidade de vida. Veja na próxima produção considerações acerca deste tema.

SAIBA MAIS:

Quer se aprofundar neste tema? Acesse o link a seguir e assista a entrevista do médico Dr Carlos Alencar sobre a promoção da saúde do trabalhador.

https://www.youtube.com/watch?v=Nv6tR_Dzstc (Acesso em 15/01/2020).

RESUMINDO:

Encerramos mais esta etapa, agora chegou a hora de verificar se você aprendeu mesmo tudo o que lhe foi apresentado. Ao longo deste material você estudou sobre os efeitos dos processos de trabalho na saúde ocupacional.

Inicialmente, aprendeu sobre as formas de produção exercidas durante a Revolução Industrial: taylorismo, fordismo, toyotismo e volvismo. Viu também a definição do termo saúde ocupacional e a importância da sua promoção dentro do ambiente laboral. Após compreender que a saúde ocupacional se trata da saúde do trabalhador, lhe foram apresentadas as principais enfermidades resultantes das jornadas incessantes e das más condições de trabalho dentro das fábricas. Na sociedade pós-industrial o trabalhador continua a adoecer, mas desta vez por causas diferenciadas. Cânceres, transtornos mentais, LER e Dort são as doenças ocupacionais que mais atingem os brasileiros na atualidade, ocasionadas por fatores como a falta de ergonomia e os altos índices de estresse nos ambientes de trabalho. Ademais, o uso excessivo de aparelhos eletrônicos como o celular e o tablet deu origem a novas síndromes tecnológicas, como o “pescoço de texto”, contribuindo às alterações negativas na saúde acarretadas pelo trabalho.

Identificando os reflexos do capitalismo e

No documento Meio Ambiente e Qualidade de Vida (páginas 26-36)

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