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3 CESARE LOMBROSO: DA TEORIA RACIAL AO PARADIGMA

4.1 OS PROCESSOS E O CONCEITO DE TRADUÇÃO MARGINAL

Como já expomos, todo o processo de tradução é carregado de uma subjetividade na apropriação do saber original que esta limitada por condicionantes temporais e espaciais que nos mostram apenas uma faceta, que a partir do ponto de vista do tradutor pode-se alterar profundamente o sentido proposto, o significante do significado inicial, ou seja, é apenas uma imagem produzida por um caleidoscópio.

Enraizado nessa multiplicidade de fatores, advertimos que o processo de tradução no Centro é diverso do realizado na periferia, pois, como salienta Máximo Sozzo, no processo de transição teórica construída em um contexto cutural-linguístico completamente diverso, a introdução fragmentada do vocabulário e das idéias originais forma uma tradução infiel, o que o autor chama de “traduttore traditore”, fruto do caráter interpretativo, inventivo e criativo indissociável das traduções que são melhores definidas como “metamorfoses” que explicam a “adoção criminológica” em nossa margem.

Decorrente daquela “metáfora da metamorfose”, Máximo Sozzo define, conceitualmente, o processo de tradução como sendo:

[...] uma complexa tecnologia intelectual, da tradução de textos estrangeiros através de diversas técnicas – resenhas, artigos, livros, revistas, visitas e conferências [...]. A tradução implicou processos de importação cultural na configuração de racionalidades, programas e tecnologias de governo da questão criminal, levados a diante por “especialistas” locais distintos – juristas, médicos, administradores de prisões etc. – que operaram, com essas ferramentas importadas, as transformações dos discursos e das práticas existentes nos próprios contextos nacionais.268

Considerando, então, o modelo de desenvolvimento central como sinônimo (da única forma) de progresso (modelo civilizatório, racional, humano, etc., que levaria à modernidade, a solução universal), os processos de tradução marginais se concretizaram em políticas de ajustes temporais, ou atalhos, que colocariam em marcha o desenvolvimento da periferia impulsionando-a, deixando para trás a era pré-moderna ou primitiva, um ajuste temporal e espacial, já que objetivo destas “viagens culturais” era ser o centro contrapondo as dicotomias ser x dever-ser, espaço x tempo, indivíduo x sociedade, civilização x primitividade, progresso x atraso, etc.269

268 SOZZO, 2014, p. 16-17. 269 Ibid., p. 08-09.

Destarte, a tradução da Criminologia Positivista no marco de seu paradigma racial-etiológico em nossa margem tinha a responsabilidade de gerir diferencialmente populações diferentes, nas quais estavam “ilhadas” nossas “minorias ilustradas”.

Dentro desse marco, Máximo Sozzo ressalta que os processos de “metamorfoses”, “uma verdadeira tecnologia intelectual de tradução de vocabulários teóricos em pleno funcionamento, desenvolvida não somente através da escritura, mas também da oralidade, tanto nos cursos da Faculdade de Direito [...]”, quanto nos cursos da Faculdade de Medicina”270

, são desenvolvidos e abrangem duas formas, dois estágios distintos, mas consecutivos e complementares: as traduções em “sentido estrito” e em “sentido amplo”:

Por tradução em “sentido estrito” entendemos o tipo de atividade e produto cultural que se associa tradicionalmente ao verbo “traduzir”. A partir da metáfora da translação, a tradução em sentido estrito é considerada uma operação que consiste em que um texto (oral ou escrito) – uma unidade enquanto conjunto de significados – de um “autor” é trasladado de uma língua para outra por um “tradutor”, mediante o uso dos componentes constitutivos de ambas as línguas, tendo em conta as regras especiais de translação entre ambas, convencionalmente aceitas nos ambientes culturais emissor e receptor. O tradutor se apresenta nesta imagem tradicional como pura mediação neutra entre o ponto de partida-texto do autor na língua de emissão e o ponto de chegada-texto do autor na língua de recepção, assegurando a identidade de ambos.271

A partir dessa “mediação” situada no âmbito da interpretação e apropriação das idéias originais, o autor define as traduções em sentido amplo como um produto diverso, uma vez que:

Essa operação implica a translação de um texto ou fragmentos de texto de um autor, concebidos como “portadores” de definições, descrições, explicações, prescrições, etc., de uma língua de emissão a uma de recepção, mas que é levada adiante por “outro autor”, que inscreve – através de citações textuais, referências bibliográficas etc. – em um complexo textual, geralmente mais amplo, que é concebido por ele mesmo como resultado de uma atividade intelectual própria. Nesse novo texto combinam-se, sempre, na língua de recepção e de diferentes maneiras, as ditas definições, descrições, explicações, prescrições etc., “trazidas” nos textos ou fragmentos de texto trasladados entre si com definições, descrições, explicações, prescrições, etc., que são concebidas como próprias pelo outro autor.272

As traduções criminológicas marginais mantiveram os fundamentos centrais para a construção de racionalidades e programas de gerenciamento estatais nos quais os próprios tradutores se investiram como agentes dos governos, responsáveis pela “ordem e progresso”, mas os problemas específicos de cada país marginal orientaram essas

270

SOZZO, 2014, p. 40. 271 Ibid., p. 18.

traduções no sentido de sua funcionalidade, sendo que essas “metamorfoses” adquiriram aspectos singulares em virtude da preocupação e objetivos locais.

Máximo Sozzo nos ensina que esses processos geraram diversos instrumentos para a apropriação do saber criminológico central, já que não se circunscreveram apenas a adoção das teorias centrais, mas incluíram também adaptação, inovação, complementação e rejeição, um verdadeiro “conglomerado” ideológico.273

Esses conceitos estão inseridos no que o autor classifica de “processo de indenização”, que manteve a matriz racial-positivista, contornada por uma flexibilidade, permitindo assim um recorte seletivo no interior das teorias centrais, ignorando os pontos desfuncionais, moldando e potencializando o discurso, uma prática compensatória que conferiu aos criminólogos marginais o status de autoridades, experts, especialistas, endossados e legitimados pelo discurso das autoridades centrais referenciados em suas traduções.

Para o autor, essa condição que explicita a missão dos criminólogos de tirar os países marginais da zona primitiva, se deve ao fato de que eles:

[...] deixaram de conceber a ordem social [e racial] como algo que se reproduz naturalmente, como a “cultura silvestre” pré-moderna o imaginava, uma vez que era concebida como “produto dos homens”, os intelectuais reivindicaram a capacidade e o dever de moldar a realidade social [e racial] de acordo com os preceitos da razão – a passagem a uma “cultura de jardim”, adquirindo a prática intelectual os traços tipicamente modernos. Essa prática intelectual moderna encarna nos criminólogos positivistas locais, que a partir dessas viagens culturais proclamam sua aptidão enquanto autoridades que determinam “o que é” e “o que deve ser” de forma verdadeira e vinculante, a “correção do conhecimento” (objetivo, universal) e a “efetividade do controle”, como pretensões estreitamente relacionadas e interdependentes (Bauman, 1997: 12-13). Daí a relação intima e indissociável dos criminólogos positivistas locais com os aparelhos do Estado e em sua máxima expressão, sua consolidação como agentes estatais encarregados não somente de conhecer como também e diretamente de controlar.274

É para este norte que aponta também Rosa Del Olmo ao fazer referência à criação de uma Criminologia racial-positivista latina, que nega sua própria história, mas atenta para seus problemas, resultando em uma teoria “deformada e artificial” a partir da “assimilação” dos saberes centrais que resultou em uma “alienação ideológica”, não por acaso, já que a seleção crítica dentro do marco teórico heterogêneo central “[...] respondia às necessidades locais e teve precisamente que ser deformada para se fazer racional dentro do contexto latino-americano”.275

273

SOZZO, 2014, p. 49. 274 Ibid., p. 47.

Nas palavras da criminóloga:

No começo, acolheram-se os ensinamentos da antropologia criminal surgida na Itália, mas as características próprias de nossas sociedades dependentes e subdesenvolvidas, bem como as necessidades de nossas classes, foram deformando essa antropologia criminal, institucionalizando aquilo que fosse útil e descartando o que não respondesse à sua racionalidade histórica.276

Para Lilia Moritz Schwarcz:

A tradução implica seleção prévia de textos e escolha de certos autores em detrimento de outros. No caso, o pensamento racial europeu adotado no Brasil não parece fruto da sorte. Introduzido de forma crítica e seletiva, transforma-se em instrumento conservador e mesmo autoritário na definição de uma identidade nacional [...] e no respaldo a hierarquias sociais bastante cristalizadas.277

Imersas nessa trama complexa, as traduções marginais da Criminologia Positivista possibilitaram e determinaram uma maior adoção de seus postulados em relação ao centro, chamando a atenção de Lombroso, em 1890, quando se refere à escassez de adeptos e, portanto, redução do seu prestígio na Europa, ao contrário do que ocorria na Península Ibérica e na América Latina, onde suas idéias “tiveram um grande desenvolvimento” 278

, não por acaso, países onde a questão racial se apresentava com premência por estruturar essas sociedades.

A seleção crítica das premissas funcionais dentro do marco teórico racial- etiológico, orientada pela contextualização específica de cada país marginal, reorientando e realinhando suas bases, no que Rosa Del Olmo definiu como “política de tentativa e erro” para a incorporação dessas populações no sistema econômico já em vias de globalização279, resultou em uma inversão influenciadora na qual a margem passou a ser referência para o centro, como nos demonstra Máximo Sozzo ao citar uma visita de Gina Lombroso, filha de Cesare Lombroso, e seu marido Guglielmo Ferrero, discípulo e parceiro de Lombroso na obra La donna Delinquente, em 1907, à Penitenciária Nacional de Buenos Aires, durante uma excursão que além da Argentina, incluiu o Brasil e o Uruguai.

Em uma carta escrita, imediatamente após a visita a seu pai, Gina Lombroso, correlacionando a margem argentina e o centro, relata:

Penitenciária que não é um ergástulo, nem uma prisão, mas sim uma casa de redenção, física, psíquica, intelectual e moral, tal e qual a nova escola a concebeu e como na Itália, seguramente, jamais os contemporâneos verão. [...] 276 DEL OLMO, 2004, p. 194. 277 SCHWARCZ, 1993, p. 55. 278 SOZZO, 2014, p. 28. 279 DEL OLMO, 2004, p. 165.

Enquanto percorríamos as vastas salas e os presos levantavam os olhos para nós, cheios de complacência por nossa admiração e de respeito por seu diretor, o Senhor Ballvé, verdadeiro pai espiritual, este nos fazia ver com quanto cuidado havia observado todos os preceitos ditados por meu pai e a mim me dava um nó na garganta pensando que ele estava tão longe e que não podia presenciar a realização de suas teorias, pensando também que nossa Itália, onde trabalhou e lutou toda a vida, não havia sido capaz de recompensá-lo com a criação de um instituto que, sequer remotamente, se parecesse com a penitenciária de Buenos Aires, que será [motivo de] glória e admiração da República Argentina.280

Camila Cardoso de Mello Prando, chamando a atenção para a controvérsia entre “recepção” e “produção”, ou “criação intelectual” vs “consumo cultural” em nossa margem, não sem antes advertir que o consumo é também produção já que reconstrói a obra pela interpretação e significações281, estabelece que no momento da tradução:

O desafio político-jurídico daquele momento era a necessidade de conciliação, de um lado, da proposta de uma ordem de igualdade dentro das estruturas republicanas, e, de outro, da garantia e justificação da desigualdade trazida do contexto político-social monárquico e escravocrata.

Para essa tarefa, o saber da Criminologia Positiva foi importante no processo de apropriação e elaboração de um pensamento jurídico e criminológico no Brasil. O pensamento da Escola Positiva Italiana serviu como forma de propor a conciliação entre proposta igualitária republicana e a manutenção das estruturas de desigualdades sociais. [...]

A apropriação do debate italiano não aconteceu como forma de uma simples transferência de conhecimento. Sua mediação com o contexto político e cultural brasileiro exigiu que se desse atenção a aspectos que não eram relevantes no contexto europeu.

Por exemplo, a miscigenação conduzia o debate biologicista a tergiversações culturais para que a viabilidade nacional fosse possível.282

Na margem brasileira, onde o racismo herdado do centro é estruturante, estrutural e condicionante desde nossa “descoberta”, a questão racial, nos finais do século XIX e início dos XX, ganha contornos protagônicos dentre a elite nacional, pois o futuro e a ruptura com o passado da nação passavam indiscutivelmente por ela, e no caldo heterogêneo que se amalgamavam as teorias raciais centrais nossos cientistas iriam buscar a legitimidade para manter intacta a estrutura da ordem racialmente estabelecida, mesmo sob a bandeira do liberalismo tardio.

A seleção dos pressupostos traduzidos igualmente foi sublinhada por Lilia Moritz Schwarcz, ao indicar a tarefa “quixotesca” da minoria ilustrada brasileira de ditar os rumos (obrigatoriamente progressistas nos termos civilizatórios centrais) do país, explicando que ao se debruçarem sobre o problema racial nacional, essa elite consumiu a ciência central dotando-a de uma originalidade específica que formou um

280

SOZZO, 2014, p. 36. 281 PRANDO, 2013, p. 54. 282 Ibid., p. 92-93.

“modelo teórico viável” para a seleção dos “cidadãos brasileiros” pinçados cientificamente dentro da avançada heterogeneidade biológica e racial brasileira, pois, esses “homens de ciência”:

[...] acomodaram modelos cujas decorrências teóricas eram originalmente diversas. Do darwinismo social adotou-se o suposto da diferença entre as raças e sua natural hierarquia, sem que se problematizassem as implicações negativas da miscigenação. Das máximas do evolucionismo social sublinhou- se a noção de que as raças humanas não permaneciam estacionadas, mas em constante evolução e “aperfeiçoamento”, obliterando-se a idéia de que a humanidade era una. Buscavam-se, portanto, em teorias formalmente excludentes, usos e decorrências inusitados e paralelos, transformando modelos de difícil aceitação local em teorias de sucesso.283

Nestes termos, o racismo, que foi a espinha dorsal da Criminologia Positivista, era a bússola que orientava as traduções, emoldurando os discursos científicos e as ideologias dos responsáveis pela gestão diferenciada dos indesejados que defenderiam a ordem ditada por aquele mesmo racismo, amalgamando diversos “ismos” na construção do que Vera Regina Pereira de Andrade, embasada em Francisco Oliveira, definiu como “ornitorrinco punitivo”.284