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2.2 IMAGEM INSTITUCIONAL: UMA REPRESENTAÇÃO SOCIAL PARTILHADA

2.2.2 A Teoria das Representações Sociais de Moscovici

2.2.2.3 Os processos formadores das Representações Sociais

Jovchelovitch (1995) postula que mesmo os mais básicos símbolos são o resultado de uma mistura de imagens, de contrastes, de identificações, que condensam a variedade de objetos, afetos e outros significados. Ocorre um deslocamento de significados entre os vários objetos, dando um, referência ao outro, evocando em um, a presença do outro, misturando em um, a imagem do outro.

A autora argumenta que os símbolos se desenvolvem sobre e com a atividade representacional: O sujeito constrói, na sua relação com o mundo um novo mundo de significados. É através da atividade do sujeito e relação com os outros, que a representação se constrói, permitindo uma mediação entre ele e o mundo, que ,ao mesmo tempo, descobre e constrói.

As representações por sua vez, permitem a existência de símbolos, que podem ser considerados pedaços de realidade social, mobilizados pela atividade criadora de sujeitos sociais, para dar forma e sentido às circunstâncias nas quais eles se encontram. Não há possibilidade para a construção simbólica fora de uma rede de significados já constituídos.

A teoria das representações sociais se constrói, portanto, sobre uma teoria de símbolos. Moscovici (apud SÁ, 1996, p.46) explicita que representar uma coisa não é simplesmente duplicá-la, reproduzi-la através de símbolos, e sim reconstituí-la, retocá-la, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de realismo. Assim, para o autor: “A estrutura de cada representação (...) tem duas faces tão pouco dissociáveis quanto a frente e o verso de uma folha de papel: a face figurativa e a face simbólica (...) fazendo, portanto, compreender em toda figura um sentido e em todo sentido uma figura”.

Moscovici (apud SÁ, 1996, p.45) emprega a imagem da necessidade de uma “cisão de átomo” para penetrar nas representações e descobrir sua estrutura e mecanismos internos. Possivelmente, o primeiro passo para a elaboração da teoria foi a sua proposição da existência de uma estrutura de dupla natureza, conceitual e figurativa, considerando a representação como “um processo que torna o conceito e a percepção, de algum modo, intercambiáveis, visto que se engendram reciprocamente”. Por um lado, o pensamento de um conceito seria capaz de conceber e dar sentido a um objeto não-presente, simbolizá-lo, enquanto a atividade perceptiva recuperaria e figuraria o objeto, tornando-o tangível. Tal processo seria responsável pelas transformações entre o que é “tomado” do real e o que é a ele “reenviado”.

Os processos formadores denominados de Objetivação e Ancoragem concretizam as representações sociais, ao trazerem para um nível quase material, a produção simbólica da comunidade. As características desses processos decorrem da configuração estrutural das representações estabelecida por Moscovici.

O processo de Objetivação materializa um objeto abstrato, duplicando um sentido por uma figura. Consiste, segundo Jodelet (1984, apud SÁ, 1996, p.47), em “uma operação imaginante e estruturante, pela qual se dá uma forma - ou figura - específica ao conhecimento à cerca do objeto, tornando concreto, quase tangível, o conceito abstrato, como que materializando a palavra”.

Segundo Moscovici (1984, apud SÁ, 1996, p.47), objetivar é “descobrir a qualidade icônica de uma idéia ou ser imprecisos, reproduzir um conceito em uma imagem porque, desde que descobrimos que as palavras não falam de nada, somos compelidos a ligá-las a alguma coisa, a encontrar equivalentes não verbais”.

O autor introduziu a noção de núcleo figurativo, dizendo que as palavras, que por sua capacidade de representar, tiverem sido selecionadas, são integradas ao que chamou de um padrão de núcleo figurativo, que seria um complexo de imagens que reproduz um conjunto de idéias. Uma vez que a sociedade tenha adotado o paradigma de um núcleo figurativo, fica mais fácil falar sobre coisas que possam ser associadas a esse núcleo, fazendo com que as palavras referentes a ele passem a ser usadas mais freqüentemente.

Considerando a abordagem de Jovchelovitch (1995), das representações sociais como um trabalho da psiquê, objetivar é condensar significados diferentes, que, freqüentemente, ameaçam, inescrutáveis, em uma realidade familiar. Dessa forma, torna-se imperativa a ancoragem do desconhecido em uma realidade conhecida e institucionalizada, o que, também, implica no deslocamento de significados já estabelecidos, que as sociedades, na maior parte, lutam para manter.

O processo de Ancoragem duplica uma figura por um sentido, fornecendo um contexto inteligível ao objeto. A ancoragem, segundo Jodelet (1984, apud SÁ, 1996, p.46), consiste na integração cognitiva do objeto representado a um sistema de pensamento social pré- existente, e nas transformações implicadas em tal processo ou na “incorporação de novos elementos de saber em uma rede de categorias mais familiares” (DOISE, 1990, apud SÁ, 1996, p.46).

Segundo Moscovici (1984, apud SÁ, 1996, p.46) ancorar é classificar e denominar: “coisas que não estão classificadas nem denominadas, são estranhas, não existentes e ao mesmo tempo ameaçadoras”. Prossegue, argumentando que, desde que possamos falar sobre alguma coisa, avaliá-la e comunicá-la, podemos representar o não usual em usual, reproduzindo-o como uma réplica de um modelo familiar. Essa argumentação sintetiza a idéia comum existente nas definições de Ancoragem propostas por Jovchelovitch, Jodelet e Doise, apresentadas anteriormente.

Ao longo do desenvolvimento do trabalho, buscar-se-á analisar os processos formadores das representações estudadas, identificando os elementos que a objetivam, constituindo o seu núcleo figurativo, segundo conceito introduzido por Moscovici. Em sendo muitas vezes estranhos, desconhecidos, esses elementos serão transformados ou adaptados a modelos familiares, sendo, portanto, necessário identificar os processos de ancoragem que ocorrem na instituição dessas representações.

Ainda entre os pressupostos da Teoria das Representações Sociais, é importante também ressaltar a argumentação de Moscovici de que a neutralidade é proibida pela própria lógica do sistema em que cada objeto deve ter um valor positivo ou negativo e assumir um determinado lugar numa hierarquia claramente graduada. Assim, ao se caracterizar as representações sociais de Um Bom Negócio de E&P, e da Imagem da UN-BA, para os gestores desse Segmento da Petrobras, será fundamental, não só identificação dos valores que conduzem a instituição dessas representações, como também identificar a sua hierarquia e o sentido a eles atribuídos.

A proposição teórica da transformação do não familiar em familiar, apesar de formalizada definitivamente por Moscovici, posteriormente à formalização dos processos de objetivação e ancoragem, é uma proposição teórica já implícita na formulação original da teoria, constituindo, a rigor, o próprio princípio básico que fundamentam aqueles processos. Moscovici considera que, para se compreender o fenômeno das representações, deve-se começar do começo, perguntando-se o porquê da criação das representações. Responde a essa pergunta dizendo que o propósito de todas as representações é transformar algo não familiar, ou a própria não familiaridade, em familiar. Diz que:

“No todo, a dinâmica dos relacionamentos é uma dinâmica de familiarização, onde objetos, indivíduos e eventos são percebidos e compreendidos em relação e a encontro de paradigmas prévios. Como resultado a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente, a resposta sobre o estímulo, as imagens sobre a realidade”. (Moscovici, 1984, apud SÁ, 1996, p.48)

Ao desenvolver sua teoria, Moscovici enfatiza que é a dimensão funcional do fenômeno que distingue as representações sociais de outros sistemas de pensamentos coletivos, reservando o termo para a modalidade que tenha como função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos. Ressalta que o mais importante na representação social é que ela produz e determina comportamentos.

Abric (1994, apud SÁ, 1996) sistematiza as finalidades das representações em quatro funções especiais:

1. Funções de saber, que permitem compreender e explicar a realidade. Permitem a aquisição e integração de conhecimentos compreensíveis, consistentes com o funcionamento cognitivo dos atores e os valores aos quais aderem. Definem o quadro de referência comum que permite a troca social.

2. Funções identitárias, que definem a identidade e permitem salvaguardar a especificidade dos grupos. Situam os indivíduos e os grupos no campo social, permitindo a

elaboração de uma identidade social e pessoal, compatível com o sistema de normas e de valores sociais historicamente determinados.

3. Funções de orientação, que guiam os comportamentos e as práticas. A representação produz um sistema de antecipação de expectativas, constituindo uma ação sobre a realidade: seleção e filtragem de informações, interpretações, visando tornar a realidade conforme a representação.

4. Funções justificatórias, que permitem justificar, a posteriori, as tomadas de posição e os comportamentos.

Tendo-se como base esses conceitos, entende-se que será através das suas representações sobre a UN-BA, ou seja, da Imagem que tenham da Unidade, que os gestores do E&P apreendem a sua realidade, construindo um quadro de referência que lhes permita agir e justificar as suas ações. Portanto, a imagem se torna um dispositivo de mediação social. Para as pessoas que aí trabalham, e para a Unidade enquanto organização, essas representações têm o papel de criar uma identidade, orientando e guiando os comportamentos e práticas.

Entendendo-se que os comportamentos serão definidos a partir da representação instituída e que essa representação atuará como um modelo de interpretação, antecipando expectativas, justificando tomadas de posições e transformando muitas vezes a realidade, fica clara a influência que uma Imagem não positiva possa acarretar para o desempenho da Unidade.

Uma questão que vem sendo levantada nesse campo de estudos é a definição do que a teoria das representações sociais realmente explica. Propõe-se que uma representação explique o comportamento daqueles indivíduos que possuem uma determinada representação, em uma determinada situação. Entende-se que diferentes condições sociais trariam, como conseqüência, diferentes representações sociais. Questiona-se, então, de que forma as condições sócio-genéticas das representações sociais penetram na teoria.

Wagner (1995) pontua que a existência do processo social explica o sistema de conhecimento individual. O sistema coletivo de entendimento e racionalização desenvolvido pelo grupo define a perspectiva dentro da qual os membros do grupo podem encontrar um entendimento da sua situação social e da sua identidade.

A elaboração coletiva determina que os indivíduos possuam a mesma representação, dada certas condições propícias. Uma representação coletivamente elaborada, avaliada através de meios de comunicação ou análise de documentos, constitui um fato social que se refere ao grupo como um todo e pode explicar uma representação de indivíduos específicos.

Entretanto, para que fatos sociais possam ser usados para explicar ou ser articulados com comportamentos individuais, precisam ser traduzidos em entidades mentais intra- individuais. Devereux (1961, apud WAGNER, 1995), diz que para que o fato social explique o

comportamento individual, este deve ser traduzido em um fato mental para o indivíduo: o fato social explica o seu ser mentalmente representado e a representação mental explica o comportamento individual.

Os objetivos da pesquisa deverão definir a modalidade que estará se adotando para estudar a representação social e conseqüentemente o procedimento de medição. Assim, ao definir o procedimento de medição para qualquer processo social, estará também se definindo o nível em que o fenômeno será mapeado. Wagner (1995) pontua que em ciências sociais, a medição constitui uma parte do processo de interação com o objeto estudado.

Spink (1995) propõe, a partir das duas perspectivas de estudos das representações proposta por Jodelet (1989, apud SPINK, 1995) e citadas anteriormente, duas abordagens para as pesquisas das representações sociais: estudos centrados no processo de elaboração das representações sociais ou estudos centrados no entendimento das representações compartilhadas.

Os estudos centrados no processo de elaboração das representações têm como objetivo entender a representação na interface entre explicações cognitivas-afetivas e os conteúdos socais e históricos que informam os indivíduos enquanto sujeitos sociais. Utilizam como forma de coleta de dados, longas entrevistas associadas a levantamentos paralelos sobre o contexto social e sobre os conteúdos históricos. Permitem entender os ajustes feitos nos elemento cognitivos sob a pressão das ações do cotidiano e o papel dos investimentos afetivos como motores de transformação ou como mecanismos de defesa de identidade.

Os estudos centrados no entendimento das representações na perspectiva dos grupos buscam tanto a diversidade, quanto o que há de comum e compartilhado, utilizando como formas de coleta de dados questionários (auto-aplicáveis ou utilizados como roteiro de entrevista) com perguntas abertas. A estrutura da representação social é, neste caso o resultado da somatória da análise de associação de idéias de várias perguntas.

Objetiva-se nesse trabalho caracterizar as representações sociais estudadas e identificar seus elementos, a sua diversidade e consensualidade, na perspectiva do grupo dos gestores do Grupo I do E&P. Entretanto, pretende-se também melhor compreender a sua estruturação, entender o surgimento dessa representação para o grupo, para que se vislumbrem estratégias que possam ser adotadas pela Unidade, visando o seu reposicionamento no Segmento de E&P. Não se estará centrando o estudo no processo de elaboração das representações, mas entende-se que uma análise e compreensão do contexto histórico e social em que se insere esse grupo, assim como dos processos de transformação e ancoragem, será fundamental para uma adequada caracterização das mesmas.

A identificação de fatos sociais de uma representação coletiva, considerando o contexto, definido não só pelo espaço social, como também a partir da perspectiva temporal, trará

para essa análise, conteúdos culturais cumulativos ou o imaginário social dessa comunidade da Petrobras. A sua identificação, através da análise de documentos e material veiculado pela “mídia interna” da Organização buscará explicar a origem das representações, suportando a análise da ancoragem dos seus elementos.

Essa foi a abordagem adotada para definição da metodologia da pesquisa de Imagem realizada nesse trabalho. Pretende-se caracterizar as representações sociais de Um Bom negócio

de E&P e da Imagem da UN-BA, devendo seus elementos ser identificados através da análise e

interpretação de uma pesquisa realizada com um grupo amostral do universo de gestores do Segmento de E&P da Petrobras.