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Os Processos Materiais e os Atores Sociais

Capítulo 3 – O Discurso dos Professores

3.3. Os Processos Materiais e os Atores Sociais

Respondendo à sub-pergunta 1.3, na Tabela 3.3 podemos verificar os processos materiais mais frequentes e os atores sociais a eles vinculados na representação dos professores de EF1 da rede municipal (M) e EF2 e EM da rede estadual (E). Ao analisarmos as listas de concordâncias dos processos materiais comuns aos professores dos dois contextos, observa-se o professor como ator social representado em cerca de 80% das ocorrências desses processos, ao passo que ao aluno cabe cerca de 12% dessa representação. Esse resultado pode ser considerado como esperado, uma vez que o professor discorre sobre sua experiência de ensinar inglês. Contudo, embora se saiba que o aluno é participante desse processo, parece-me curioso notar a baixa representação do aluno no discurso dos professores; e sugere que a representação do processo de ensinar

esteja centralizada no professor como transmissor, isto é, o professor faz, trabalha,

dá, passa.

Processos

Materiais Professor Aluno Professor + Alunos Outros Total

M E M E M E M E Fazer 47 84 24 17 4 2 12 14 204 Trabalhar 75 99 - 2 - 2 3 4 185 Dar 39 39 - - - 1 4 5 88 Passar 17 18 3 2 - - - 8 48 Ensinar 23 15 - - - - 2 - 40 Ver 3 1 1 2 2 5 - - 14 Sub-Totais 204 256 28 23 6 10 21 31 579 Totais 460 51 16 52 % 79,4 8,8 2,8 9,0 100

Tabela 3.3 – Os Atores Sociais e Processos Materiais no Discurso dos Professores

Observou-se a alta frequência com que os professores se referem a si mesmos por meio do uso do pronome eu (801 ocorrências), ator das ações, de forma ativa, isto é, por meio de Ativação (VAN LEEUWEN, 2008, p.33) e individualização (VAN LEEUWEN, 2004, p. 37). A segunda escolha mais frequente é o uso do pronome você (457 ocorrências) como representação da própria professora e sua ação, sugerindo uma generalização e ao mesmo tempo indeterminação (VAN LEEUWEN, 2008, p. 35,39), por meio da qual o pronome você pode representar qualquer professor realizando determinada ação. Vejamos os exemplos a seguir:

“Então você trabalha muito com as questões temáticas: frutas, meios de transporte, a casa, escola, tudo dentro desses temas que você vai trabalhar e desenvolver as atividades.” Monica

“E também, ali você dá, vamos supor, eu traduzo o texto e depois eu dou as frases em inglês pra eles, tirado do texto. Estefânia

O professor também faz referência à sua ação sugerindo que ela aconteça de forma coletiva pela escolha da expressão a gente (162 ocorrências) e nós (54 ocorrências, apenas no discurso dos professores da rede estadual – EF2 e EM), portanto, apontando para uma representação menos frequente de um ator social que age coletivamente (VAN LEEUWEN, 2008, p.38). Essas são as três escolhas para

Legenda:

M = Rede Municipal (EF1) E = Rede Estadual (EF2/EM)

representar o professor mais frequentes, totalizando 1.351 ocorrências de 1.563 apuradas.

A partir da informação acima, tornou-se pertinente verificar como os alunos são sistemicamente representados no discurso dos professores. Os dados a respeito da representação desses atores sociais encontram-se compilados na Tabela 3.4. As duas formas mais frequentes de representação sistêmica dos alunos no discurso das professoras da rede municipal são como atores ou circunstância, em geral de acompanhamento.

Fazer Trabalhar Dar passar ensinar ver Total

M E M E M E M E M E M E Ator 24 17 - 2 - - 3 2 - - 1 2 51 Circunstância: Acompanhamento 3 8 16 13 1 - - - 1 - - - 44 Beneficiário - - - - 4 4 3 3 2 1 - - 16 Meta 1 5 1 - - - 1 - - - - 7

Tabela 3.4 – A Representação dos alunos no Discurso dos Professores

Aos alunos são representados como atores de processos materiais como vemos no excerto a seguir:

“E assim, tem muita CRIANÇA que elas TEM problema de comportamento com a professora da sala, que elas não fazem absolutamente NADA e comigo elas FAZEM!” Maitê

comigo elas FAZEM

Circ: acompanhamento Ator Pr:material

“Esse menino ele chegou num ponto que ele queria as lições, então eu tinha que xerocar, ele não escrevia, mas ele pegava e pintava, fazia os desenhinhos. Cantava, você via, assim, a felicidade no rosto dele.”

“Por que o aluno ele faz o SARESP e você TEM - o SARESP desse ano, nessa semana, foi o caderno.” Eduarda

O aluno - ele faz O SARESP Ator Pr: material Meta

Percebe-se que os alunos na maioria das vezes estão representados na circunstância de acompanhamento (44 ocorrências), como ilustram os exemplos a abaixo, e menos como atores:

“Tanto é que um dia eu fiz uma pesquisa com eles das revistas (...) palavras em inglês” Miriam Legenda:

M = Rede Municipal (EF1) E = Rede Estadual (EF2/EM)

“... se ele tem síndrome de down, mas como que eu vou trabalhar com esse aluno com síndrome de down?” Mônica

“Então, e eu comecei a trabalhar com eles muito o inglês instrumental, né?” Estefânia

Em seguida, observou-se o aluno como beneficiário. Apesar da oração material abaixo ter a função de circunstância de contingência – condição - na oração mental, nela pode-se verificar a criança como beneficiária da oportunidade criada pelo professor, representado pelo pronome você:

“Então, você percebe que a criança, quando você DÁ oportunidade pra ela, você ... RECEBE o retorno,...” Mariana

você DÁ oportunidade pra ela

Ator Pr: material Meta Beneficiário

No exemplo a seguir foi identificado o ensino médio representando os alunos dessa fase escolar, presente em uma oração material integrante de uma circunstância de tempo:

“E... outra coisa também veio, quando eu dei aula para o ensino médio, filmes.” Estefânia

E... outra coisa também

veio Quando eu dei aula para o ensino médio filmes

Eu dei aula para o ensino médio

Ator Pr: material

beneficiário

Escopo Pr: material Circ: Tempo Escopo

No próximo exemplo o professor problematiza a atenção que os alunos com deficiência e NEE, beneficiárias dessa atenção, necessitam em uma sala de aula numerosa:

“... fica mais difícil ainda, porque você tem que voltar sua atenção pra uma criança ... ali, tem que dar uma atenção maior pra aquela criança, enquanto 40 crianças vão bagunçar, ...” Evandro

(você) tem que dar uma maior atenção pra aquela criança

Ator Pr: material Meta Beneficiário

Vemos também no próximo excerto mais um exemplo de como o aluno foi representado como beneficiário. A professora faz referência à formação continuada que está participando e que tem como foco central os alunos com deficiência e NEE. Então eu pergunto: “O que eles falam dos alunos de inclusão nessa formação?” e a

“Como você conseguir primeiro se comunicar com esse aluno de inclusão e depois, qual as estratégias que você pode trabalhar pra esse aluno de inclusão.” Mônica

Qual as estratégias que você pode trabalhar pra esse aluno de inclusão

Meta Ator Pr: material Beneficiário

Observe-se que na minha pergunto uso o processo verbal falar. Portanto, o excerto acima é a verbiagem – conteúdo – desse processo uma vez que o falante e o processo, “Eles falam sobre ...”, estão elípticos. Assim, notamos que faz parte

dessa formação continuada abordar as estratégias que o professor pode desenvolver tendo os alunos com deficiência e NEE como sua meta.

Tendo apresentado os processos materiais mais frequentes presentes no discurso dos professores, os significados que os processos acima constroem na representação da experiência de ensinar inglês, e os atores sociais que realizam tais processos, na próxima seção apresento a relação entre os processos materiais e o campo do discurso, ou seja, os tópicos que compõem a representação da prática pedagógica da experiência de ensinar inglês.

3.4. Os Processos Materiais e os Tópicos que Compõem a Representação da