5. DISCUSSÃO
5.2 Os processos proximais no Grupo de Mulheres
Um dos trabalhos realizados no CREAS citado pelos profissionais e usuárias do serviço foi o Grupo de Mulheres. O grupo foi descrito como um espaço onde as pessoas podiam compartilhar experiências, fazer novas amizades, entender a dor do outro e, consequentemente, adquirir outras referências para que a pessoa pudesse lidar com a sua própria dificuldade. Pode- se notar na fala de todas as participantes o estabelecimento de relações afetivas dentro do grupo e a reciprocidade presente tanto na relação profissional-usuário como na relação entre os próprios usuários. Assim, podem ser visualizados os processos proximais no Grupo de Mulheres.
As relações estabelecidas em grupos de convivência afetiva são capazes de tornar as pessoas mais eficazes frente a situações difíceis, pois os recursos pessoais e sociais adquiridos amenizam os efeitos negativos desse tipo de situação (Brito & Koller, 1999). As mulheres destacaram que no grupo fizeram novas amizades, conseguiram apoio e encontraram pessoas que tinham tempo e disponibilidade para escutar suas demandas e auxiliar no que fosse preciso. Elas incentivavam umas às outras, se apoiavam, se interessavam em saber sobre a superação e as estratégias desenvolvidas pelas colegas para a promoção do desenvolvimento de cada uma delas, além de criarem vínculos que se estenderam para outros contextos e situações.
A participação no grupo permitia às usuárias aprenderem a respeitar a diferença, a ouvir, serem ouvidas e mobilizarem novas condutas que refletiam no dia a dia de cada uma delas. Nesse contexto, visualiza-se a importância do afeto, que é descrito por Diniz e Koller (2010) e Garmezy e Masten (1994) como um dos fatores que dá continuidade ao processo de
desenvolvimento ao longo das várias fases que compõem o ciclo vital e pode ser considerado como um componente importante em relação à superação e às mudanças que perpassam a vida e o desenvolvimento do indivíduo.
A interação entre usuários e técnicos que estavam presentes no desenvolvimento do Grupo propiciava o surgimento de sentimentos mutuamente positivos que viabilizavam resultados desenvolvimentais de competência, ou seja, conduziam o indivíduo a um desenvolvimento positivo (Bronfenbrenner & Morris, 2006). Referindo-se à relação entre os participantes do grupo, sejam eles profissionais ou usuários, percebe-se que o afeto também era direcionado ao mediador do grupo que seria o profissional. Este era visualizado como alguém que investia naquelas mulheres, que se disponibilizava a ouvi-las, com quem elas podiam contar, sem o estabelecimento de relações hierárquicas.
As pessoas se reuniam para compartilhar experiências independentemente da quantidade de pessoas presentes e os próprios usuários, com o auxílio dos profissionais, conduziam o grupo. O profissional, na verdade, atuava como facilitador da atividade, ou seja, o profissional não determinava regras ou normas, mas sim viabilizava o processo de desenvolvimento do grupo dentro do ritmo do que as próprias pessoas ali presentes estabeleciam (Moreira, 1999). Para os profissionais, a mulher que frequentava o grupo demonstrava interesse pela atividade e vontade de mudança, ou seja, ela se engajava na proposta de trabalho ali estabelecida e esse interesse consequentemente reforçava e também mobilizava a participação do profissional, possibilitando a observação da bidirecionalidade dos processos proximais e consequentemente um grau mais complexo de envolvimento com o serviço. A partir disso, consegue-se promover mudanças relacionadas às características da pessoa, que serão discutidas mais adiante.
Estudos realizados por Meneghel et al. (2003) e Moreira (1999) com grupos de mulheres vítimas de violência no Rio Grande do Sul/Brasil e Chile, respectivamente, legitimam o fato de
que a experiência de trabalhos em grupo favorece o desenvolvimento de novas habilidades e estratégias para mulheres saírem da situação de violência. Costa e Lopes (2012), também reconhecem a prática com grupos como potencializadora da promoção de saúde e do empoderamento individual e coletivo em relação às práticas violentas. Mais especificamente em relação à realização dos grupos dentro do CREAS PAEFI, foi verificado que práticas que envolvem trabalhos com grupos, estão sendo bem aceitas e surtindo efeitos positivos nos trabalhos realizados com esse público (CFP/CREPOP/2009).
Nos estudos citados acima também é discutida a questão do atendimento em grupo e/ou o atendimento individual das vítimas. Considera-se que algumas mulheres não conseguem desenvolver habilidades e estratégias para lidar com a violência vivida apenas com o grupo de mulheres e necessitam ser direcionadas para o atendimento psicológico individual. No contexto do CREAS PAEFI estudado isso foi bastante discutido pelos profissionais e usuários já que, devido à transição CEAV- CREAS/PAEFI “Adulto”, o atendimento psicológico que era individual foi substituído pelo Grupo de Mulheres.
Estudo realizado pelo CFP (2013) mostra que muitos psicólogos acreditam que o atendimento ao público deveria ser realizado por meio de psicoterapia e, de acordo com as pesquisas realizadas pelo Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CFP/CREPOP/2009), foi verificado que muitos psicólogos acreditam que fazer psicoterapia é a sua função. De forma geral, os estudos têm apontado para a manutenção de um modelo de atuação tradicional do psicólogo no campo social, mostrando que a ação do psicólogo não tem se libertado do modelo clínico de atuação profissional que caracteriza a prática da psicologia no Brasil, mesmo com a inserção da psicologia no setor social público (Yamamoto, 2007). A recente conquista de espaço institucional de atuação profissional dos psicólogos no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) representa uma novidade que ainda não se encontra
suficientemente delineada. Corroborando essa informação, Trindade et al. (2009) realizaram um estudo com treze instituições da Região Metropolitana de Vitória/ES que faziam atendimento a pessoas em situação de violência e foi verificado que os profissionais, dentro da Assistência Social, não descreviam com clareza sua própria atuação. Assim, reitera-se a afirmação de Bock (1999) de que a inserção recente do psicólogo em novas áreas leva à necessidade de construir novas práticas que consigam atender a realidade apresentada.
A dificuldade em desenvolver técnicas para o atendimento do psicólogo no setor público não se restringe apenas aos serviços relacionados à temática da violência e dentro do SUAS. Estudo realizado com nove psicólogos que atuavam nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da rede pública do Estado do Espírito Santo em 2002, mostra que foram surgindo novos serviços, programas e dispositivos no geral para trabalhar com os diversos públicos e houve então a necessidade de uma redefinição de função e implementação de novas práticas (Figueiredo & Rodrigues, 2004). Todos os profissionais psicólogos, do estudo mencionado, consideraram sua prática pautada no atendimento clínico, demonstrando dificuldade em romper com o modelo dominante. Costa e Olivo (2009), por sua vez, entrevistaram psicólogos que atuavam no Programa Saúde da Família (PSF) e também encontraram o predomínio da identificação de tais profissionais com o modelo clínico de atuação.
Retomando os atendimentos realizados dentro do SUAS, os estudos realizados pelo CFP/CREPOP (2009) destacam que a psicoterapia não é uma atividade que deve ser desenvolvida dentro do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), devendo, portanto, ser oferecida pela política de saúde. Isso é o que vem sendo realizado pelo serviço PAEFI de Colatina, que tem tentado obter maior discernimento das atividades que devem ser realizadas pelo CREAS, acolhendo a demanda do usuário e, caso seja verificada a sua necessidade, encaminhando-o para serviços da Secretaria de Saúde para receber um atendimento
individualizado. O estudo do CREPOP apontou a dificuldade de se conseguir vagas para que os usuários sejam encaminhados para os profissionais da saúde, dado este presente nos resultados do presente trabalho.
Com relação aos encaminhamentos, foi verificada a articulação do CREAS com os serviços que compõem a rede de atendimento à mulher vítima de violência. Em relação aos desafios na articulação do CREAS com a rede, os resultados mostraram uma maior dificuldade em relação aos serviços de saúde e também a dificuldade que existia mais inicialmente dos encaminhamentos serem aceitos pelos outros serviços, já que grande parte da população e dos serviços da cidade não tinham conhecimento do CREAS PAEFI e sua função na rede de atendimento à mulher vítima de violência. O estudo realizado pelo CFP (2012) corrobora tais questionamentos, quando diz que a pesquisa nacional feita pelo CREPOP (CFP/CREPOP2009) aponta a articulação com a rede de saúde como um dos maiores desafios quando comparada com outros serviços, além de frisar a burocracia dos encaminhamentos mesmo considerando que essa situação vem melhorando com as intervenções realizadas com o tempo.
Assim, cabe dizer que, independente das dificuldades enfrentadas, o Grupo de Mulheres desenvolvido pelos profissionais do CREAS mostra que esse tipo de trabalho tem surtido efeitos positivos como estratégias que viabilizam um desenvolvimento saudável das mulheres que participam da atividade. Sendo assim, verifica-se a importância do investimento na rede de apoio sócio afetiva para este público considerando o desenvolvimento de novas metodologias de trabalho no CREAS PAEFI.