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4.1 OS COLÉGIOS DE APLICAÇÃO ENQUANTO ESPAÇO SÓCIO-

4.1.2 Os processos de trabalho em que se inserem os assistentes sociais nos

Conforme se discutiu anteriormente, analisar os espaços ocupacionais do Serviço Social, contemplando suas peculiaridades e transformações, faz necessário “[...] inscrevê-los na totalidade histórica considerando as formas assumidas pelo capital no processo de revitalização da acumulação no cenário da crise mundial” (IAMAMOTO, 2009, p.01).

Para tanto, afirma-se a necessidade de compreender as particularidades do exercício profissional e o cotidiano de trabalho na Política de Educação enquanto espaço ocupacional, especificamente nas escolas de educação básica, que são inegavelmente distintas dos demais, onde o Serviço Social já se encontra historicamente institucionalizado. Desta forma,

[...] é fundamental que não se perca a dimensão de totalidade na compreensão do significado que a política educacional tem a partir desse desenho institucional na relação entre o mundo da cultura e o do trabalho, ou seja, no âmbito da dinâmica que particulariza as esferas da produção e da reprodução social (ALMEIDA, 2007, p.04).

A pesquisadora, ao compartilhar espaços de discussão com estudantes de graduação em Serviço Social, tem acolhido relatos de que, ao iniciar a experiência de estágio supervisionado, estes não conseguem apreender a relação entre teoria e prática. Ainda, referem a dificuldade em buscar, nos referenciais teóricos, fundamentação a respeito de instrumentos e técnicas de intervenção. Esse hiato gera sofrimento nos estudantes e, por relato destes, a sensação de que “precisam descobrir como fazer”.

Em sua Tese de doutoramento, Ferreira (2015) aponta para uma possível apreensão inconsistente por parte dos assistentes sociais da dimensão teórico- metodológica. Para o autor, isto se justificaria pela utilização de instrumentos e técnicas de intervenção de forma dissociada do referencial teórico e pela apropriação do objeto institucional como se fosse o objeto profissional. Isso conduziria para uma compreensão reduzida do instrumental de trabalho do Serviço Social aos instrumentos utilizados por estes assistentes sociais em suas intervenções. Assim, considerando que os documentos que normatizam o Serviço Social apontam a necessidade de articulação entre as dimensões teórico- metodológica, técnico-operativa e ético-política, Santos (2013, p. 03) descreve que existe “uma lacuna” no que diz respeito aos instrumentos e técnicas do Serviço

Social no país, e considera que está baseada na apropriação inadequada da teoria e prática na teoria crítica. A partir disso afirma que:

A teoria foi apreendida como: 1) algo que se transforma em prática de forma imediata, portanto ‘teoria de ruptura’ igual à ‘prática de ruptura’; 2) algo que, por si só, oferece os procedimentos para a intervenção, ou seja, que da teoria se retira, também de forma imediata, instrumentos próprios a ela; 3) análoga à formação profissional. E prática foi apreendida como: 1) sinônimo de instrumentos e técnicas, ou seja, resume-se na utilização de instrumentos e técnicas; 2) análoga ao mercado de trabalho exclusivamente; 3) reduzida à prática profissional (SANTOS, 2013, p.05).

Com sua hipótese Ferreira (2015) assinala uma vinculação deste contexto ao ensino da prática nos cursos de graduação em Serviço Social, predominantemente restrito aos estágios supervisionados e ao componente curricular de Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social, que, em consequência, acarreta uma dicotomização das competências teórico-metodológicas e técnico- operativas.

Um dos equívocos gerados na interpretação inicial pelo Serviço Social do referencial teórico marxista, durante e após o Movimento de Reconceituação, este que compôs o projeto profissional de intenção de ruptura com as origens tradicionais e conservadoras do Serviço Social, está relacionado às concepções de trabalho e de processos de trabalho e a forma como foram apropriadas. De modo que,

[...] não existe um processo de trabalho do Serviço Social, visto que o trabalho é uma atividade de um sujeito vivo, enquanto realização de capacidades, faculdades e possibilidades do sujeito trabalhador. Existe, sim, um trabalho do assistente social e processos de trabalho nos quais se envolve na condição de trabalhador especializado (IAMAMOTO, 2008, p. 429).

A apreensão enviesada da teoria marxista pelo Serviço Social ocorreu em decorrência da articulação de três fatores: 1) uma aproximação deste referencial sob exigências teóricas reduzidas; 2) a referência à teoria marxista foi seletiva: estava direcionada mais pela sua vinculação prático-política e organizacional-partidária do que pelo seu potencial de contribuição crítico-analítica; e, 3) não se efetuou a partir da obra marxiana e/ou clássicos marxistas, mas por divulgadores e manuais de qualidade discutível (NETTO, 1989).

O que se reconhece, portanto, é que os assistentes sociais não possuem processos de trabalhos próprios, mas se inserem em processos de trabalho

coletivos, nas instituições onde estão empregados; processos estes que são determinações das condições sociais dadas. Todavia,

[...] o tratamento dos elementos simples constitutivos de todo e qualquer processo de trabalho, dado por Marx (objeto, meios e atividade em si), é quase sempre referido ao trabalho do assistente social e não aos processos de trabalho institucionais, identificando na questão social e na política social seu objeto e meio de trabalho, respectivamente. Não obstante, as análises sobre as inserções concretas nos diferentes espaços ocupacionais tendem a levar em consideração a sua participação em um processo de trabalho coletivo, perspectiva também orientadora da presente abordagem (ALMEIDA E ALENCAR, 2011, p. 142).

Desta forma, o trabalho, “componente da humanidade dos sujeitos” (IAMAMOTO, 2008, p. 429) é compreendido como um elemento subjetivo do processo de trabalho, este que é pautado pelo instrumental técnico-operativo articulado ao arsenal teórico-metodológico. Para Marx (1985a), o processo de trabalho é composto: a) pelo objeto ou matéria-prima; b) pelos instrumentos; e, c) pela atividade em si. Portanto, é fundamental

[...] elucidar o exercício profissional nas particulares condições e relações de trabalho em que se inscreve, reconhecendo tanto suas características enquanto trabalho útil ou concreto (e avançando na leitura das competências e atribuições privativas do assistente social, tais como se forjam na atualidade), quanto sua dimensão de trabalho humano abstrato, em seus vínculos com o processo de produção e/ou distribuição da riqueza social (IAMAMOTO, 2008, p.431).

O processo de trabalho deve ser apreendido enquanto “um conjunto de atividades prático-reflexivas voltadas para o alcance de finalidades, as quais dependem da existência, da adequação e da criação de meios e das condições objetivas e subjetivas” (GUERRA, 2007, p.03).

Ao relatarem suas demandas, as assistentes sociais participantes da pesquisa também referiram as ações profissionais78 que realizam e os procedimentos que as compõem, os instrumentos e técnicas que utilizam, os encaminhamentos e órgãos de proteção acionados, etc.

78 “As ações profissionais teriam uma abrangência maior e expressariam o fazer profissional: orientar,

encaminhar, avaliar estudar, planejar e outras ações previstas como competências e atribuições na legislação profissional, que é desenvolvido em um serviço prestado pela instituição que pode ter variadas formas (como o plantão, por exemplo)” (SANTOS, FILHO E BACKX, 2017, p. 30).

Essas demandas se desdobram em atendimentos individuais e coletivos aos alunos e familiares/ reuniões de equipe/participação em conselhos de classe, confecção de relatórios, concepção e coordenação de projetos e interface com a rede de saúde e assistência do município (AS.03).

Assim, no cotidiano de trabalho, a fim de atender as requisições institucionais e profissionais que lhe são postas, os assistentes sociais, se inserem em distintos processos de trabalho, que se expressam nos Colégios de Aplicação através: do acompanhamento do desenvolvimento pedagógico dos alunos; das ações de enfrentamento dos desafios ao processo de aprendizagem; da promoção da participação da comunidade escolar em espaços decisórios; do planejamento, execução e avaliação de programas/projetos/ações relacionados ao combate do

bullying, dos preconceitos, da intolerância religiosa, da violência intraescolar e

uso/abuso de substâncias psicoativas; na organização e condução de palestras, grupos e/ou oficinas que abordem os temas que mobilizam o cotidiano escolar, como educação sexual, diversidade, saúde mental;

Propor medidas que minimizem o impacto das diferenças culturais e socioeconômicas da comunidade escolar na escolarização dos(as) alunos(as) de modo a reduzir a retenção e a evasão, obtendo melhores resultados escolares, considerando o valor dos conhecimentos não escolares da comunidade (AS.02).

[...] orientar os educandos e as famílias sobre os deveres e os direitos bem como sobre programas e projetos institucionais, serviços e recursos sociais; participar de equipes multidisciplinares na realização e elaboração de programas de prevenção e assistência à saúde; organizar, coordenar e ministrar cursos em seminários ou realizar encontros com os membros dada Comunidade Escolar (AS.05);

Para tanto, os assistentes sociais se utilizam do instrumental técnico- operativo, que por sua concepção, ultrapassa a operacionalização de instrumentos e técnicas, mas engloba “o conjunto das ações e procedimentos adotados pelo profissional”, visando alcançar determinada finalidade, “bem como a avaliação sistemática sobre o alcance dessas finalidades e dos objetivos da ação” (SANTOS, FILHO E BACKX, 2017, p. 30). Este instrumental compreende “estratégias, táticas, instrumentos e técnicas, conhecimentos específicos, procedimentos, ética, cultura profissional e institucional, particularidades dos contextos organizacionais” (SANTOS, FILHO E BACKX, 2017, p. 30).

Contudo, a direção social que assumem não pode ser apreendida a partir da análise do instrumental utilizado, pois ela se dá pelo referencial teórico que respalda o exercício profissional. Dessa forma:

O trabalho realizado pelo assistente social em diferentes contextos institucionais se apoia numa base comum que é acionada a partir do acervo teórico-metodológico e ético-político que dá suporte à formação e ao exercício profissional (ALMEIDA E ALENCAR, 2011, p. 142).

Ainda, a intencionalidade da ação não garante a adequada operacionalização dos instrumentos pois, para isso é necessário que o assistente social domine seu manejo, e que o faça respeitando os princípios éticos tão caros ao Serviço Social, sendo que a escolha pelo instrumental a ser utilizado deve ser coerente com a finalidade a que se propõe, bem como com as condições e limitações institucionais (SANTOS, 2013).

A partir disso, afirma-se que o cotidiano se configura enquanto

[...] mediação elementar entre o particular e o universal, pelas suas características, pela sua estrutura, ele limita as possibilidades de os homens se concentrarem inteiramente nas atividades que realizam, tendo em vista suas características: heterogeneidade [...]; espontaneidade [...]; imediaticidade [...]; superficialidade extensiva (GUERRA, 2017, p. 53-54).

Todas estas características se manifestam, em suas especificidades, no cotidiano de trabalho do assistente social. As demandas ao Serviço Social estão plenas de heterogeneidade, por suas contradições e antagonismos. Estas mesmas demandas, como se tratou anteriormente, ao emergirem ao assistente social, “são apreendidas de maneira imediata e quase irrefletida” (GUERRA, 2017, p. 54), o que, por vezes, faz com que o exercício profissional se torne refém das rotinas, metas de produtividade, critérios de seleção da instituição, contribuindo para uma equivocada e mecânica resposta profissional, dentro das “determinações da instituição” (GUERRA, 2017, p. 54-55).

Considerando a imperiosidade de se romper “com o instituído, ir além das demandas institucionais, há necessidade de se pensar técnicas e instrumentos a partir do contexto no qual se dá o exercício profissional” (SANTOS, FILHO E BACKX, 2017, p. 38), sendo fundamental partir da análise da realidade, tendo por base os preceitos e o que se intenciona transformar. Deste modo, o acervo utilizado pela profissão ao longo de sua trajetória histórica compõe a cultura profissional e

não se pode refutar que os instrumentos e técnicas estão diretamente relacionados com as formas de organização da profissão.

Conforme Torres (2017, p. 10), as ações desenvolvidas pelos assistentes sociais podem ser classificadas em “atividades de atendimento direto ao usuário – atividades profissionais que se configuram como ações de organização e gestão de serviços – atividades que se configuram como ações voltadas a formação profissional”. A análise das informações prestadas pelas assistentes sociais participantes da pesquisa permitiu identificar as seguintes ações que desenvolvem: elaboração de estudo socioeconômico; pesquisa (empírica e bibliográfica); encaminhamentos; elaboração de laudos, estudos e pareceres técnicos; socialização de informações; elaboração, coordenação, execução e avaliação de projetos e programas; supervisão de estágio; assessoria; formação; orientação e planejamento. Se configuram enquanto competências e atribuições privativas do assistente social e são viabilizadas pela operacionalização de instrumentos e técnicas79 como entrevista, reunião, visita domiciliar, trabalho com grupos, observação e acolhimento.

[...] estudar viabilidade de projetos sociais; criar critérios e indicadores para avaliação e seleção socioeconômica; realizar visitas domiciliares; laudos, pareceres e elaborar informações sobre a matéria de Serviço Social (AS. 02).

Realizar acolhimento e acompanhamento sistemático de crianças e adolescentes e suas famílias, reconhecendo seu contexto sócio histórico e suas particularidades e demandas específicas, sempre visando a garantia e ampliação de direitos (AS.04).

[...] planejar, coordenar e avaliar planos, programas e projetos relacionados às necessidades sócio assistenciais dos estudantes; assessorar quanto às questões sócio assistenciais nas atividades de ensino, pesquisa e extensão; fazer encaminhamentos à instituições públicas, privadas ou comunitárias de assistência com vistas ao atendimento de pais ou responsáveis e educandos; realizar perícias técnicas e laudos periciais, coletar informações e emitir pareceres sobre a matéria de Serviço Social; orientar e supervisionar estágio em sua área de atuação (AS.06).

Com este estudo, se pretendeu compreender a opção pelo instrumental técnico-operativo, considerando que “sua instrumentalidade está na ‘resolutividade’, ainda que momentânea e em nível imediato, demandas apresentadas” (GUERRA, 2017, p. 51), de modo que a legitimidade da profissão também se dá na sua

79 Compreendida como “a habilidade no uso destes instrumentos, como uma qualidade atribuída aos

capacidade de responder às necessidades sociais, num determinado contexto histórico. O que se pode inferir é a predominância da utilização do encaminhamento como recurso que possibilita o atendimento de distintas demandas, que se discutiu no subitem anterior, pelas políticas sociais públicas, bem como por serviços privados, tendo em vista as limitações institucionais postas. Ao mesmo tempo, a utilização de instrumentos como entrevista e visita domiciliar, que, apesar de não serem exclusivos do Serviço Social, estão vinculados ao imaginário popular que circunscreve a profissão e prevalecem nas ações e procedimentos de caráter individual. A sua aplicação deve estar sempre vinculada à perspectiva da garantia de direitos, nunca à fiscalização da vida privada dos usuários.

Da mesma forma, destaca-se a ação de elaborar estudo, laudos e pareceres técnicos, que tem por “finalidade conhecer e interpretar a realidade social na qual está inserido o objeto da ação profissional, ou seja, a expressão da questão social ou o acontecimento ou situação que dá motivo à intervenção” (FÁVERO, 2009, p. 21) e, em se tratando de estudo que demande parecer social, é fundamental demarcar o seu caráter privativo ao Social. Visto o exposto, acredita-se que:

Usar um instrumento que tenha surgido em determinado contexto histórico, com uma determinada finalidade e direção social, não necessariamente o inviabiliza de ser empregado em outro contexto histórico, com outra finalidade e direção. Isso é o que permite recorrer a determinados meios que têm uma origem tradicional conservadora e identificar elementos desses meios e fins que podem ser incorporados em outra direção teórica e social (SANTOS, FILHO E BACKX, 2017, p. 33).

Apesar de se reafirmar as condicionalidades que a condição de trabalhador assalariado impõe ao assistente social, vislumbra-se “uma margem de autonomia nos processos de trabalho em que os assistentes sociais estão envolvidos, o que lhes permite desenvolver atividades comprometidas com interesses sociais presentes nos espaços sócio-ocupacionais” (COUTO, 2009, p. 01). Partindo da premissa que o seu trabalho adquire materialidade através do planejamento, pela elaboração de projetos, reconhecer as requisições institucionais e as demandas sociais que mobilizarão o exercício profissional pela sua inserção nos processos de trabalho coletivos, é imprescindível. Para tanto:

Para uma prática coerente com uma perspectiva crítica, faz-se necessário um projeto profissional que acompanhe o movimento da realidade social;

projeto que implica investigações abrangentes e de fundo da realidade sobre a qual atuam os profissionais (MARTINS, 2009, p. 205).

Em vista disso, no próximo subitem se discutirá os limites e as potencialidades do trabalho do assistente social na educação básica, com base nas informações fornecidas pelas profissionais que atuam nos Colégios de Aplicação do Brasil, cuja apreensão é fundamental para a construção do projeto profissional, este que deve

[...] iluminar sua constante avaliação da eficácia de seus instrumentos, técnicas e conhecimentos para atingir as metas propostas, que devem estar articuladas aos elementos presentes no espaço sócio-ocupacional, como também referendarem os compromissos profissionais (COUTO, 2009, p. 04).