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Os professores como intelectuais

CAPÍTULO 2 – OS PROFESSORES COMO INTELECTUAIS E O ESTÁGIO NA

2.1 Os professores como intelectuais

A perspectiva dos professores como intelectuais teve origem do conceito de “intelectual orgânico” de Antônio Gramsci (1982), nos fazem compreender o mesmo com um potencial explicativo para o profissional que almejamos.

Segundo Gramsci (1982), todos os homens são intelectuais, mas não são todos que desempenham essa função na sociedade.

Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura [...]. (GRAMSCI, 1982).

Observar o professor como um intelectual a partir de Gramsci nos propicia uma compreensão da profissão do professor como um lugar de luta de classe, de ideologias, de consciência do que a profissão tem de status, o que ela realmente é, e o que deveria ser, pensando no seu ato criador de pessoas, de formas de pensamento, entre outros. Assim, escolhemos esse conceito de intelectual para discutirmos o papel do professor, por ele considerar o contexto de trabalho desses profissionais.

Para Gramsci (1982) nossa sociedade pode ser dividida em política e civil. A primeira tem um poder de cunho mais impositivo como o governo, a polícia e diversas instituições públicas. Já a segunda constitui o seu poder de maneira ideológica, sendo representada por órgãos como as igrejas, os sindicatos e outras entidades de caráter mais privado. A ideologia se apresenta por meio da hegemonia (termo também utilizado por Giroux, a partir de Gramsci), que é a supremacia de um povo sobre o outro por meio da propagação consensual de normas e valores que possuem elementos políticos, sociais e culturais.

Segundo Giroux (1996), historicamente a formação de professores não têm permitido que eles se identifiquem profissionalmente como intelectuais. A crescente tecnocratização e falta de condições nas escolas colaboram para que o professor deixe os discursos sobre os objetivos educacionais para discutir como atingi-los. Ou seja, ao invés de pensarem por que eles são importantes para a formação de um cidadão, de forma crítica, eles desenvolvem uma narrativa unica de cunho prático.

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Há uma condição de trabalho deste profissional que o subordina e torna quase impossível ele assumir a postura de intelectual que desejamos. Porém, encontramos professores que, apesar dessas condições, avançam e conseguem produzir conhecimentos.

Para que esses profissionais possam avançar como intelectuais, entendemos que a sua formação deve permitir que eles desenvolvam os conhecimentos que aprenderam quando se tornarem professores visto que os intelectuais orgânicos são aqueles que representam uma mesma consciência sobre a própria função. A partir do momento em que eles vão moldando sua forma de pensar sobre como deveriam agir ao assumir sua função profissional, eles criam um novo tipo de intelectual, isso sem deixar de existir o anterior, porém, assumindo o antigo em momentos distintos (não frequentes).

Antes de discutirmos como as condições que o estágio proporciona pode cooperar para cada tipo de intelectual, apresentaremos separadamente as categorias consideradas por Giroux (1992). É importante deixarmos claro que essas categorias são típico-ideais e um tanto exageradas com a finalidade de delinear o núcleo de elementos integrados que indicam os interesses e as tendências de cada uma delas (GIROUX, 1992). Além disso, reforçamos que os estagiários transitam entre as categorias e ao mesmo tempo eles podem pertencer a mais de uma. Assim, apresentamos a seguir essas diferentes categorias de intelectuais.

2.1.1 Intelectuais transformadores

Os pertencentes a esta categoria trabalham com diferentes grupos12(podendo

os trabalhadores mais marginalizados estarem ou não incluídos neles) na busca constante pelo emprego do discurso autocrítico – tanto para a construção de si mesmos, quanto para a construção dos demais indivíduos que convivem na sociedade. Para Giroux (1992) a função principal desses intelectuais é construir um estreitamento entre a dimensão pedagógica e política, tornando o pedagógico mais político e o político mais pedagógico.

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Tornar o pedagógico mais político significa inserir a educação na esfera política, visto que “a escolarização representa tanto uma disputa por significado, como uma luta a respeito de relações de poder” (GIROUX, 1992, p. 32). Já tornar o político mais pedagógico significa utilizar “formas de pedagogias que: tratem os estudantes como agentes críticos, que problematizam o conhecimento, que utilizem o diálogo e tornem o conhecimento significativo de tal modo a fazê-lo crítico para que seja emancipatório” (GIROUX, 1992, p. 32-33).

Com essa intensa proximidade entre o pedagógico e o político, a escola ocupa um espaço central perante as condições históricas, culturais e ideológicas das contradições e lutas existentes na sociedade. A escolarização se torna uma ferramenta para a disputa e a consolidação de um projeto social, portanto, os estudantes devem problematizar o conhecimento, dialogar e atuar como responsáveis na luta contra as injustiças sociais. Nesse sentido, a reflexão crítica e a ação ganham valor como eixos para as mudanças necessárias, tanto em nível geral quanto em nível pessoal. Dessa forma, o professor precisa conhecer a realidade dos alunos, a fim de compreender o que compõe as condições sociais em que vivem, e às quais eles pertencem. Já os estudantes devem ser observados como atores coletivos em suas formas de viver e ser.

2.1.2 Intelectuais críticos

Esses intelectuais seguem ideologias cujos ideais não têm necessariamente relação com as instituições das quais participam. Eles se consideram críticos neutros, que não adotam apenas uma única causa, e “tampouco se veem desempenhando uma função social que seja expressamente política por natureza. Seus protestos constituem uma função crítica que eles compreendem como parte de seu status profissional ou de sua obrigação como intelectuais” (GIROUX, 1992, p. 34).

Tal grupo não se vê pertencente aos problemas estruturais das instituições. Assim, quanto menos ligados a uma classe social em particular, mais entendem que podem fazer uma crítica ao que existe, uma vez que não “viciam” seu conhecimento em uma ideologia.

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Em contrapartida a essa visão, Giroux (1992) defende que separar a ciência da ideologia é uma forma de ideologia. Afinal, a ideologia da modernidade é um discurso vazio de valores. Os movimentos sociais influenciam os sujeitos, assim como os sujeitos modificam os movimentos, em uma troca constante. Esse tipo de intelectual categorizado como crítico acaba não colaborando tanto para a emancipação humana. Conforme afirma Giroux (1992, p. 37), “intelectuais críticos esquecem-se que a emancipação não pode ser conseguida do lado de fora”.

2.1.3 Intelectuais adaptados

Como o nome da categoria sugere, esses intelectuais se adaptam à realidade e adotam uma posição ideológica e práticas materiais que os fazem ter status de apolíticos, fazendo com que fiquem longe das reflexões e discussões sobre as questões sociais. Porém, esse status (presente em grande parte da sociedade) mantém os grupos de elite, de forma mais intensa que outros grupos, uma vez que tem uma ferramenta muito eficaz: o senso comum. O professor educado neste sistema “legitima o status quo. [...] o conhecimento adquirido em sala de aula é geralmente considerado parte de uma estrutura de ‘falsa consciência’; e os professores parecem esmagadoramente presos a uma situação em que não há como vencer” (GIROUX, 1992, p. 197).

Desse modo, o intelectual adaptado inconscientemente promove os interesses dos grupos dominantes, mesmo sem pertencer a eles. Esse intelectual é influenciado pelo pensamento hegemônico e se torna o principal difusor das ideias dominantes.

2.1.4 Intelectuais hegemônicos

Os intelectuais hegemônicos são aqueles que de modo consciente favorecem o poder da classe dominante. Com o objetivo de propagar a ideologia dominante, eles atuam na sociedade legitimando a hegemonia de classe por meio do poder burocrático daqueles que já dominam. Quando não têm cargos de direção, agem na defesa incondicional da ordem, com interesses baseados na preservação do que já existe.

A seguir, apresentamos a constituição das leis que dão subsídios para a existência do estágio como atividade formativa dos sujeitos.

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