Mapa 18 Local de trabalho dos vendedores ambulantes
3. O TURISMO EM NATAL: O USO PONTUAL E SELETIVO DO TERRITÓRIO O
3.3. OS PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO NO RN
Uma política de suma importância para a consolidação do turismo no Rio Grande do Norte e, principalmente em Natal, foi o Programa de Desenvolvimento do Turismo no Rio Grande do Norte (PRODETUR I-RN), implementado no governo de Garibaldi Alves entre
1995 a 2002 e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com apoio do governo federal e do estado. Esse projeto abrangeu inicialmente cinco municípios vizinhos (Ceará-Mirim, Extremoz, Natal, Parnamirim e Nísia Floresta) mais Tibau do Sul, localizado a aproximadamente oitenta quilômetros de Natal, conforme ilustra o mapa 05.
Anteriormente, no início da década de 1990, o estado já contava com uma significativa infraestrutura turística – concentrada em Natal. Isto porque em 1992 já havia cerca de 80 agências de viagens cadastradas na EMPROTURN, em torno de 200 bugueiros que faziam passeios sobre as duas das cidades e cerca 150 hotéis e pousadas. Todavia, esse período é caracterizado por empresas locais e nacionais, visto que só a partir de 2000 empresas e redes internacionais passaram atuar intensamente no território potiguar (COSTA, 2011).
Os recursos destinados para a primeira etapa do PRODETUR-RN foi direcionado, sobretudo, para amenizar o déficit em infraestrutura dos municípios supracitados. Dessa forma, os recursos serviram para implantação de acessos viários às principais praias; continuação da Rota do Sol (entre as praias de Cotovelo a Barreta); saneamento de parte da Via Costeira, do bairro de Mãe Luiza e da praia de Ponta Negra; drenagem do bairro de Ponta Negra; reurbanização da orla de Ponta Negra e da praia da Redinha; implantação do Parque Estadual das Dunas de Natal; criação do Conselho de Turismo Estadual (CONETUR/RN) e para reestruturar o aeroporto Internacional Augusto Severo (MARANHÃO; AZEVEDO, 2010). Além do mais, Fonseca (2005) aponta que:
O PRODETUR/RN contou com o apoio do BID financiando 50% dos projetos executados e os outros 50% ficaram a cargo do governo do Rio Grande do Norte. Para sua execução o estado potiguar recebeu um empréstimo de US$ 22.475.000,00, sendo o investimento total da ordem de US$ 44.950.000,00. Consistiu em um programa de implementação de infra-estrutura básica para atender a atividade turística e seus recursos foram divididos em três componentes: desenvolvimento institucional, obras múltiplas e aeroporto. Todos esses investimentos foram efetuados entre 1996 e 2001 e, no conjunto, foram realizadas vinte obras no Rio Grande do Norte com recursos do Programa (FONSECA, 2005, p. 232).
Dentre os componentes que mais receberam investimentos do PRODETUR-RN destaca-se o aeroporto. Sozinho, ele abarcou 56% do montante para sua ampliação e modernização. Ademais, 39,2% do valor foi destinado a urbanização e saneamento dos principais pontos turísticos de Natal (Ponta Negra e Via Costeira), construir e ampliar a infraestrutura viária, possibilitando melhor acessibilidade entre os atrativos turísticos do polo; e apenas 4,7% dos recursos foram destinados ao desenvolvimento institucional, ou seja, aparelhar órgãos institucionais e definir o uso e ocupação do solo dos municípios que integram o projeto através de planos diretores (FONSECA, 2005).
Se considerarmos apenas os investimentos que servem para a maior fluidez do território e as interações sociais, observamos que 77,8% dos recursos disponibilizado pelo PRODETUR/RN foram destinados ao aeroporto e aos eixos viários – objetos técnicos fundamentais para implantação e manutenção da atividade turística nos lugares. Ou seja,
como não existe turismo sem deslocamento, o governo estadual priorizou, inicialmente, a modernização do aeroporto Augusto Severo e as rodovias prioritárias para o desenvolvimento do turismo.
Nesse sentido, há uma nítida valorização depreendida a infraestrutura e equipamentos que possibilitem o acesso aos atrativos turísticos dos municípios participantes da primeira etapa do PRODETUR/RN pelos turistas e/ou visitantes. Por esse motivo, Santos (2008b, p. 255) nos adverte que a geografia dos fluxos depende da geografia dos fixos. Em relação aos investimentos que cada município recebeu, Natal foi o que mais se beneficiou, em detrimento até mesmo de Tibau do Sul, um dos principais polos turístico do estado. Conforme expõe Fonseca (2005, p. 233):
Do total dos investimentos efetuados pelo PRODETUR/RN (excetuando-se o aeroporto que é um investimento com características diferentes), Natal absorveu 23,10%, sendo o único município que recebeu recursos para a recuperação ambiental e para saneamento, além das estradas. Todos os demais municípios receberam recursos para o desenvolvimento institucional (atualização cartográfica e elaboração do plano diretor) e para a implantação e/ou melhoria de estradas. A distribuição desses recursos para os demais municípios ocorreu na seguinte proporção: Nísia floresta – 7,23%, Parnamirim – 5,00%, Ceará-Mirim – 3,07%, Tibau do Sul – 1,82%, Extremoz – 1,60%. Os investimentos efetuados para melhoria e modernização de alguns órgãos estaduais totalizaram 2,14% do total.
Tal fato é decorrente do esforço demasiado, por parte do governo do estado, para formar um polo turístico onde Natal ficasse na posição central, concentrando os investimentos. Logo, constata-se uma psicosfera (a esfera da ação) que dá legitimidade a implantação dos objetos técnicos (tecnosfera) mais densamente em Natal, permitindo novos usos ou mesmo mudanças de usos do território para a melhor inserção do turismo em relação aos demais municípios que integram o PRODETUR/RN.
Como assevera Fonseca (2005), os resultados alcançados pelo PRODETUR I foram satisfatórios e atingiu os objetivos da política pública, que era tornar o turismo uma das principais atividades econômicas do Rio Grande do Norte, melhorando o produto turístico do estado. Para balizar a discussão, entre 1996 e 2000, a receita turística estadual aumentou 36, 09%, fruto do crescimento do fluxo turístico global que cresceu 127,35%. Ademais, houve um expressivo crescimento (84,86%) nos meios de hospedagem e de desembarques (66,28 %) no aeroporto Augusto Severo, os investimentos gerados pelo PRODETUR/RN fomentou o aumento do fluxo de turista internacional, bem como a inserção de redes hoteleiras estrangeiras no território potiguar.
Seguindo as análises das políticas públicas para a promoção do turismo no Rio Grande do Norte, há, também, importantes apontamentos a serem feitos sobre a segunda etapa do PRODETUR/RN. O primeiro delas refere-se às ações prioritárias dessa segunda etapa, visto que enquanto na primeira etapa visou mitigar o déficit de infraestrutura e promover o desenvolvimento turístico, a segunda etapa volta-se para a consolidação da etapa anterior, enfatizando as ações qualitativas de desenvolvimento social como, por exemplo, o apoio à gestão municipal e a capacitação profissional, além da valorização do meio ambiente. Como destaca Maranhão e Azevedo (2010, p. 09):
As propostas para a segunda etapa do PRODETUR/RN II foram: promover o controle, manejo e implantação de infra-estrutura das unidades de conservação e recuperação de áreas degradadas; ações de saneamento; proteção dos mananciais; criar condições para trato dos resíduos sólidos, desde sistemas de coleta, tratamento final até a conscientização da população; criar condições para que as municipalidades possam receber os turistas e os investidores, com legislação moderna, infra-estrutura e políticas com vistas na capacitação de mão-de-obra, para que os benefícios retornem aos autóctones; sinalização turística e de segurança e ainda a estruturação das orlas marítimas para receber o fluxo de forma segura.
Pelo citado acima, observamos que o PRODETUR II continua financiando infraestrutura básica para a promoção do turismo. Contudo, se na primeira fase apenas seis municípios litorâneos foram contemplados, nessa segunda foram abrangidos 21 municípios45 – que formam o polo Costa das Dunas. Para essa segunda etapa do programa foi investido o valor de US$ 64.508.000,00, acreditando-se que, a exemplo da primeira fase, tenha a geração de novos empregos (MARANHÃO; AZEVEDO, 2010).
Com a intenção de receber apoio do referido programa, o governo do estado, por meio de sua Secretaria de Turismo (SETUR), regionalizou o turismo em cinco polos (Polo Serrano, Seridó, Agreste/Trairi, Costa Branca e Costa das Dunas) visando à diversificação do seu produto turístico (leia-se interiorização) e o desenvolvimento da atividade.
Contudo, cabe, nesse momento, uma importante constatação: embora os polos estejam “repartindo” o estado do Rio Grande do Norte, há uma concentração de investimentos e atrativos turísticos no polo Costa das Dunas. Isto desencadeado, em grande medida, pela centralidade de Natal no que se refere aos equipamentos turísticos para atender os visitantes.
É importante destacar que o PRODETUR em suas duas fases influenciou o turismo no RN, sobretudo Natal, município que foi contemplado nas duas fases. Enquanto a primeira fase
45 O polo é formado pelos municípios: Arês, Baia Formosa, Barra de Maxaranguape, Canguaretama, Ceará- Mirim, Extremoz, Goianinha, Macaíba, Natal, Nísia Floresta, Parnamirim, Pedra Grande, Pureza, Rio do Fogo, São Gonçalo do Amarante, São Miguel do Gostoso, Senador Georgino Avelino, São José do Mipibú, Tibau do Sul, Touros e Vila Flor.
foi baseada no Programa Nacional de Municipalização do Turismo, a segunda foi baseada no Programa de Regionalização do Turismo, mas o único polo beneficiado foi o Costa das Dunas46. Ademais, “O PRODETUR/NE contou com o apoio do governo federal e dos estados nordestinos, financiado pelo BID, sendo os recursos repassados pelo Banco do Nordeste, executor financeiro do programa.” (COSTA, 2011, p. 46).
Em vias de finalizar essa terceira seção, algumas considerações são necessárias para compreender, posteriormente, a expansão do circuito superior em Natal através da atividade turística. Em primeiro lugar, a forma como foi gerida a política pública do turismo no RN está, em grande medida, em consonância com a política federal e regional; por meio do acelerado crescimento dessa atividade econômica nos últimos anos, o estado atualmente encontra-se como um dos principais roteiros turísticos do Nordeste; o megaprojeto PD/VC e o PRODETUR/RN provocaram importantes transformações espaciais através dos novos usos do litoral, havendo forte valorização dos terrenos e especialização dos lugares de lazer.
Todos os investimentos públicos, através dos programas do governo, fizeram com que a década de 1990 e a primeira do século XXI fossem caracterizadas pela expansão e consolidação do turismo no estado, visto a expressivo valor disponibilizado para a criação de infraestrutura básica e hoteleira, possibilitando, assim, o aumento do fluxo turístico.
Contudo, como nos adverte Cruz (2005), por trás dessas ações há, na realidade, uma clara e inaceitável negligência com o território, agravado com o insustentável discurso que a atividade turística, por si, é capaz de reduzir as desigualdades regionais historicamente concebidas pela seletividade espacial própria do sistema capitalista. Porém, a forma como o turismo vem sendo estruturado no país leva, paulatinamente, a fragmentação do espaço e o reduz a meramente uma mercadoria, aumentando as desigualdades regionais.