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3. O DEBATE SOBRE A POBREZA E OS PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIA DE

3.3. OS PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA COMO “FACILITADORES”

Embora a bandeira do desenvolvimento tenha se tornado o principal promotor do capitalismo, este se expandiu de forma desigual ao redor do globo e atingiu a todos de diferentes maneiras. É verdade que o capitalismo permitiu a produção de bens e a acumulação sem precedentes e, com isso, foi capaz de ampliar a qualidade de vida de uma parcela considerável da população mundial (HALL, MIDGLEY, 2005). Os avanços tecnológicos permitiram, também, ampliar o acesso à agua potável, saúde e educação em áreas que, antes, eram fadadas a secas, desastres naturais e isolamento. No entanto, devido às suas contradições, o desenvolvimento no sistema capitalista, também ampliou as desigualdades sociais, recrudescendo a concentração de renda especialmente entre as nações mais pobres, em destaque nas décadas após a Guerra Fria. Os programas de transferência de renda se constituem como estratégias de países periféricos para tentar minimizar ou inaugurar um processo de reversão do quadro de desigualdades sociais. Segundo Joseph Hanlon, Armando Barrientos e David Hulme (2010), em seu livro

Just Give Money to the Poor, os programas de transferência de renda são considerados uma

resposta do Sul Global às políticas “paternalistas” dos países ricos, que, por meio de condicionalidades impostas pela ajuda externa – e cooperação internacional – impunham o seu modelo de desenvolvimento aos países mais pobres e, ao mesmo tempo, se mantinham no controle de como a ajuda aos mais pobres seria utilizada e distribuída (RIDDEL, 2008; HANLON, BARRIENTOS, HULME, 2010).

Outros autores observam que os programas de transferência de renda respondem às políticas de focalização fomentadas pelo Banco Mundial e outras organizações de Bretton Woods que marcaram os anos 1990 (KRAYCHETE, 2012; MARQUES, 2013). Neste caso, as políticas

de focalização massiva têm como alvo as famílias pobres ou extremamente pobres, geralmente compostas por menores, e podem possuir contrapartida (ou condicionalidades) e focam na ideia de desenvolvimento e acumulação de capital humano a longo prazo ou, em outras palavras, na quebra da poverty trap, fazendo com que os beneficiários das políticas de transferência de renda, principalmente as crianças e os adolescentes, tenham capacidades e mobilidade diferentes de seus genitores (MARQUES, 2013). Esta política, diferentemente das políticas de microfinanças, visam à inserção de famílias pobres no mercado para que elas possam atender às suas necessidades básicas (KRAYCHETE, 2012).

Isso se torna evidente, por exemplo, no Relatório do Banco Mundial de 1991, intitulado,

Development. Neste relatório, o Banco Mundial advoga que o crescimento econômico é

imprescindível para promover a melhoria na qualidade de vida das pessoas, mas que, diferentes programas devem ser criados para aliviar a situação dos menos abastados, de modo a diminuir as desigualdades geradas pelo desenvolvimento e, também, para não deixar que um grupo considerável de pessoas escape da lógica capitalista de acumulação. O Banco Mundial reforça que – baseados em evidências de programas anteriores ao relatório – estes programas devem ser focalizados e, ao mesmo tempo, eficientes, atingindo à camada mais pobre da população carente para que, em conjunto com outras medidas, eles possam continuar consumindo e contribuindo para estimular a economia local (BANCO MUNDIAL, 1991). Em consonância com essas ideias, o Banco Mundial defende reformas na maneira como o Estado atua dentro de uma perspectiva liberal.

Estas reformas devem estar centradas no aumento da eficiência do aparato estatal e na retirada de seu papel como promotor direto do desenvolvimento, deixando para o mercado essa missão (BANCO MUNDIAL, 1997; UGÁ, 2004; KRAYCHETE, 2012). Neste sentido, as práticas de “boa governança” propostas pelo Banco Mundial incluem

criar um ambiente macro-econômico estável para a ação dos mercados, ou seja, criação de enabling environment, que gere certezas à iniciativa privada; eliminar a corrupção, que poderia subverter os objetivos das políticas, deslegitimando as instituições públicas que dão apoio aos mercados, e ainda, assegurar os direitos à propriedade (UGÁ, 2004, p. 57-58).

Muitas destas práticas foram exportadas aos países em desenvolvimento por meio das condicionalidades dos programas de ajuda externa e cooperação internacional dos países centrais e visavam, antes de tudo, a harmonização das diversas políticas de fomento ao desenvolvimento. Os documentos provenientes dos fóruns de alto nível da ONU de cooperação internacional para o desenvolvimento, por exemplo, explicitam o maior poder que

foi dado às organizações internacionais sobre os governos e parceiros nacionais que tiveram de implementar metodologias de gestão de projetos similares às de corporações privadas para dar cabo de seus projetos de redistribuição de renda e combate à pobreza (KRAYCHETE, 2012). Quando se referem ao mundo do trabalho, os relatórios do Banco Mundial o dividem em indivíduos que conseguem atuar no mercado e aqueles incapazes de integrar-se a ele, os pobres e, mais precisamente, as camadas mais carentes deste segmento social, para quem os Estados deveriam cuidar se utilizando de políticas sociais residuais e focalizadas (UGÁ, 2004; KRAYCHETE, 2012).

Independentemente de como interpretemos a criação e a proliferação de programas de transferência de renda – quer como uma revolução do Sul global, quer como uma tendência adotada pelos países subdesenvolvidos, ao se adaptarem às necessidades da nova economia de mercado, respondendo às políticas fomentadas pelo Banco Mundial de políticas focalizadas para o combate à pobreza –, estes programas possuem larga evidência empírica de funcionamento.

As evidências do funcionamento e da efetividade dos programas de transferência de renda foram sintetizadas por Hanlon, Barrientos e Hulme (2010). Após fazerem um panorama dos programas nos dias atuais, dando ênfase aos programas pioneiros do México, Brasil, África do Sul, Índia, China e Indonésia, e observarem o desenvolvimento de outros programas ao redor do globo baseados nos primeiros, eles argumentam que “cada país [...] tem gerido as transferências de maneira diferente; mas, os estudos oferecem forte evidência que transferências de renda funcionam para reduzir a extrema pobreza e promover desenvolvimento humano de longo prazo (HANLON; BARRIENTOS; HULME, 2010, p. 27).38

Para que um programa seja efetivo e eficiente, eles argumentam que o seu desenho deve refletir os objetivos e as prioridades colocadas pelos policy makers. Nos países em desenvolvimento, grande parte das políticas de transferência de renda tem como objetivo principal o aumento da renda dos pobres. Há três objetivos gerais, contudo, que podem ser sumarizados. O primeiro deles é o de garantir renda àqueles que não podem ser produtivos, isto é, oferecer suporte aos jovens, idosos e portadores de deficiência física. Devido à baixa cobertura dos trabalhadores pela previdência social em países em desenvolvimento, este

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Texto original: “Each [of the six] countries has handled the transfer differently, but the studies offer strong

evidence that cash transfers work both to reduce immediate poverty and to promote long-term human development”

objetivo é muitas vezes colocado em prática por meio de pensões não contributivas, bolsas e auxílios para a família e para as crianças. O segundo objetivo geral se relaciona com o aumento da renda média de pessoas que, mesmo empregadas ou realizando alguma atividade produtiva, não conseguem renda suficiente para a sua sobrevivência. Nestes casos, os programas de transferência de renda visam a aproximar a renda destes trabalhadores da linha de pobreza vigente no país. Por fim, o terceiro objetivo geral é aquele das redes de segurança e está fortemente associado com a ideia dos “pobres merecedores”. Neste objetivo, se encaixam os seguros-desemprego, os auxílios-doença e medidas de curto prazo destinadas a vítimas de desastres naturais (UGÁ, 2004; HANLON, BARRIENTOS HANLON; BARRIENTOS; HULME HULME, 2010).

Além de aumentar a renda da parcela mais pobre da população e prevenir a fome e o sofrimento, os programas de transferência de renda são considerados promotores de desenvolvimento ao combater a poverty trap. Enquanto a citação “Growth is good for the

poor” (O crescimento é bom para os pobres) se tornou praticamente uma crença (DOLLAR;

KRAAY, 2002; DERCON, 2003), os estudos de diversos autores, alguns deles já mencionados neste trabalho, revelaram que a maior parte daqueles que eram pobres continuaram na mesma situação após seus países experimentarem processos de desenvolvimento e, em alguns casos, tiveram a sua condição piorada, provando que muitas vezes os pobres permanecem na mesma situação por conta das imperfeições do sistema de mercado capitalista (DERCON, 2003; SALAMA; VALIER, 1994; HALL; MIDGLEY, 2005; HANLON; BARRIENTOS; HULME, 2010).

Assim como “uma onda crescente afunda barcos furados (HANLON; BARRIENTOS; HULME, 2010, p. 21)”, há um provérbio que diz: “dê um peixe a um homem e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e você o alimentará por toda a vida”. No entanto, uma pessoa que saiba pescar, mas que não tenha o equipamento necessário para tal, tampouco será alimentada por toda a vida apenas por saber pescar. Analogicamente, os pobres são mantidos na pobreza justamente por não terem acesso a grande parte dos mecanismos de mercado. Hanlon, Barrientos e Hulme (2010) argumentam que os pobres geralmente têm solicitações de empréstimos negados, dificilmente tem capital para iniciar um pequeno negócio e os custos de alimentação e de enviar os filhos à escola, por exemplo, tem um impacto muito maior na renda das famílias mais carentes que na renda daquelas economicamente estáveis. Assim como barcos furados, os pobres não conseguem acompanhar

a onda de crescimento que impulsiona a sua nação se a sua participação efetiva no mercado lhes é negada.

Os programas de transferência de renda funcionam como uma maneira de eliminar a poverty

trap. Eles impulsionam o crescimento econômico ao estimular a demanda: embora os custos

destes programas sejam de cerca de 1% do PIB na maioria dos países, a pequena quantia de dinheiro extra nas mãos de famílias carentes pode aumentar o seu poder de compra em até 20% (HANLON; BARRIENTOS; HULME, 2010). Como os pobres, geralmente, utilizam o dinheiro proveniente dos programas em estabelecimentos de sua própria região, a economia local é impulsionada para responder às demandas das famílias. Concomitantemente, os programas promovem segurança para pequenos investimentos ao permitirem que os seus beneficiários possam comprar produtos para a comercialização, fertilizantes para a atividade rural ou material utilizado para a manufatura ou artesanato, além de permitirem o risk-taking. Por fim, os programas também incentivam a criação de capital, isso é, muitas vezes, o dinheiro proveniente destes programas é o capital inicial utilizado por aqueles à margem do mercado e pelos pobres para investir.

Os programas, também, têm impacto direto no bem-estar das famílias de baixa renda. Isto se explica porque grande parte do dinheiro proveniente dos programas é gasto em alimentação, melhorando, consequentemente a nutrição das famílias beneficiadas e, concomitantemente, a sua saúde. Saudáveis e satisfeitas, as crianças podem ir à escola ao invés de trabalharem para auxiliar na renda familiar, enquanto os adultos ganham capacidade produtiva, aumentando o seu capital humano.

Para que os programas sejam, de fato, favoráveis aos pobres e contribuam para diminuir as desigualdades sociais, os governos que o gerem têm de estar atentos à eficiência da focalização. Tal eficiência é medida por meio dos índices de vazamento de recursos (leakage), ou seja, quando um benefício alcança pessoas ou famílias que, por meio dos métodos de mensuração, não são consideradas pobres e, portanto, não deveriam ter acesso a tal benefício (HANLON; BARRIENTOS; HULME, 2010). Taxas elevadas de vazamento de recursos, inclusive, podem exacerbar as desigualdades de renda e ampliar as dificuldades que os pobres têm de converter a sua renda em capacidades reais na economia de mercado.

Para compreender como os novos métodos de mensuração da pobreza e as abordagens para a sua minoração tiveram efeito na economia e na sociedade azeri e, de que maneira, as relações econômicas de mercado foram adotadas, é necessário, ainda, observar a transformação do

fator humano. As políticas fomentadas pelas organizações internacionais e o fomento ao mercado foram entregues a uma “classe dirigente” que se encarregou de garantir a transição de modelos econômicos e a aproximação de capital, por meio da adaptação às necessidades do mercado. O subcapítulo a seguir trata destas questões.

3.4. OS CONCEITOS DE HOMO TRANSFORMATICUS E DELTSI: OS VETORES E