4. DIMENSÃO TEÓRICA OPERACIONAL: A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O USO DA IMAGEM
4.6 OS PROGRAMAS MAIS EDUCAÇÃO E MAIS CULTURA
Aqui, apresentamos o Programa Mais Educação e o Programa Mais Cultura do governo federal para entendermos melhor como a educação no Brasil está configurada. A LDBEN que foi o ponto de partida de nossas análises é uma lei que tem mais de 12 anos de vigência e, quando estabelecida, refletia a ordem de uma política que não estava tão comprometida com o enfrentamento da exclusão educacional e social brasileiras.
Sendo assim, com a intenção de trazer para discussão uma perspectiva mais atual, achamos importante analisá-los em contraponto com o nosso objeto de estudo a Linguagem Gráfica, de forma a observar possíveis ações que possam ajudar no desenho da realidade educacional que temos hoje no Brasil.
4.6.1 O Programa Mais Educação
O Programa Mais Educação é uma ação engajada com o PDE, e foi estabelecido através da portaria normativa interministerial Nº- 17, de 24 de abril de 2007. Organiza-se efetivamente através dos ministérios da Educação, o do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Esporte e o da Cultura. É direcionado às crianças, adolescentes e jovens da rede pública de ensino básico e tem como objetivo otimizar as ações e os investimentos, já existentes no país, para que complementem a formação escolar com uma visão integradora do ensino, associando atividades sócio-educativas ao contraturno escolar. Este programa foi posto em prática para trabalhar, de forma coordenada, as políticas sociais existentes nos setores da educação integral no país, tais como: as atividades extraclasses de educação ambiental, de lazer, esporte e atividades culturais.
Do ponto de vista legal o programa faz um recorte muito apropriado da legislação brasileira, cujo viés se dá através da educação, cultura, lazer e esporte, pelo qual perpassam a idéia central de abrandar questões críticas da instável ordem social brasileira.
Para isso ele se apóia no artigo 34 da LDBEN, Lei n° 9.394/1996, que determina a progressiva ampliação do período de permanência na escola; no Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei n° 8.069/1990, que garante às crianças e adolescentes a proteção integral e todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, assegurando-lhes oportunidades que lhes facultem o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, e condições de liberdade e de dignidade.
Do ponto de vista da Constituição Federal, o programa se utiliza do Artigo nº 227, cujos termos discorre que a família, a comunidade, a sociedade e o poder público devem assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária; e o Artigo nº 217 que define o esporte como dever do Estado e direito de cada um, reforçando o compromisso de democratizar o acesso às atividades esportivas como parte da formação integral de crianças, adolescentes e jovens.
O que nos incitou a trazer esse conteúdo para discussão é que, ao lermos os pontos que este programa propõe para agir sobre a população, percebemos que existe uma consciência acerca dos fatores sociais que levam a escola brasileira a ser a dívida social que ela é hoje, havendo um claro esforço para a superação dessa condição.
Essa mudança de postura, ou seja, assumir um caráter de enfrentamento dos reais fatores que tornam a escola uma instituição ineficiente (do ponto de vista da realidade do país), tratando-os como causa da existência desse programa, e não apenas como estatísticas que servem de parâmetros, gera um campo fértil para a transformação das instituições de ensino, cujo direcionamento é muito mais propenso a adoção de uma articulação de saberes mais contemporânea.
Nesta proposta, há passos firmes rumo à igual mudança nos padrões e parâmetros do processo de escolarização do cidadão brasileiro. Em seu primeiro capítulo, referente aos objetivos, temos:
Art. 1° Instituir o Programa Mais Educação, com o objetivo de contribuir para a formação integral de crianças, adolescentes e jovens, por meio da articulação de ações, de projetos e de programas do Governo Federal e suas contribuições às propostas, visões e práticas curriculares das redes públicas de ensino e das escolas, alterando o ambiente escolar e ampliando a oferta de saberes, métodos, processos e conteúdos educativos.
Aqui já não se fala em padrões mínimos, mas, sim, no caráter integral em que a educação deve ser trabalhada. E essa integralidade se articula com as práticas curriculares, visando uma alteração no ambiente escolar. Apoiamo-nos nestas palavras para reforçar o fato de que, ao trabalharmos a inserção de design, não estaremos propondo um ajuste estético na escola. Isto, é certo, será consequência e não causa da mudança que vislumbramos.
De fato, o que afirmamos se engaja numa escola aberta às novas perspectivas que as diversas linguagens contemporâneas ofertam à sociedade e cujo controle didático pode
auxiliar para refrescar a ação escolar, ou seja, torná-la algo prazeroso e ligado ao que, por enquanto, dinamiza mais os ambientes extrínsecos a sala de aula.
No texto seguinte, podemos ler:
Parágrafo único. O programa será implementado por meio do apoio à realização, em escolas e outros espaços sócio-culturais, de ações sócio- educativas no contraturno escolar, incluindo os campos da educação, artes,
cultura, esporte, lazer, mobilizando-os para a melhoria do desempenho
educacional, ao cultivo de relações entre professores, alunos e suas comunidades, à garantia da proteção social da assistência social e à formação para a cidadania, incluindo perspectivas temáticas dos direitos humanos, consciência ambiental, novas tecnologias, comunicação social, saúde e consciência corporal, segurança alimentar e nutricional, convivência e democracia, compartilhamento comunitário e dinâmicas de redes. (grifo nosso)
As propostas de educação que hibridizam estes três campos de conhecimento (educação, arte, cultura) configuram-se numa zona fértil para nossas considerações, principalmente se tivermos como elo articulador e de suporte as ferramentas de tecnologia da informação e comunicação e se realçarmos a necessidade de capacitar o professor no intuito de deixá-lo apto para trabalhar nesse contexto.
Quanto à finalidade do Programa Mais Educação, vale a pena destacarmos aqui duas ações que colaboram para os nossos estudos
Art. 2º O Programa tem por finalidade:
I - apoiar a ampliação do tempo e do espaço educativo e a extensão do ambiente escolar nas redes públicas de educação básica de Estados, Distrito Federal e municípios, mediante a realização de atividades no contraturno escolar, articulando ações desenvolvidas pelos Ministérios integrantes do Programa;
[...]
V - promover a formação da sensibilidade, da percepção e da expressão de crianças, adolescentes e jovens nas linguagens artísticas, literárias e
estéticas, aproximando o ambiente educacional da diversidade cultural
brasileira, estimulando a sensorialidade, a leitura e a criatividade em torno das atividades escolares; (grifo nosso)
[...]
VIII - prestar assistência técnica e conceitual aos entes federados de modo a estimular novas tecnologias e capacidades para o desenvolvimento de projetos com vistas ao que trata o artigo 1º desta Portaria.
Outro ponto de destaque é a questão da tecnologia, ferramenta suporte destas linguagens, e que precisa ser entendida e praticada pelos professores. Desta forma, será
oferecido um processo de alfabetização neste contexto e não apenas a aproximação e obrigação de uso, situação que vinha sendo praticado até os dias de hoje.
No Capítulo III – Artigo 6º, das diretrizes para apoio aos projetos e ações, o programa visa fomentar a articulação de políticas sociais e a implementação de ações sócio-educativas para crianças, jovens e adolescentes. Nas orientações propostas, além do tempo e espaço educativo, é privilegiada a noção de uma formação integral e emancipada. A proposta do programa como um todo se fixa numa perspectiva contemporânea focalizando os atores (Estado, escola, família, comunidade) como agentes integrados de modo a contribuírem para a formação de crianças, adolescentes e adultos jovens.
As diretrizes apontam ainda para uma relação de parceria com universidades, centros de pesquisas e outros campos de estudo e pesquisa na área para fomentar a geração de tecnologia social e a colaboração, com a qualificação e a capacitação de docentes, técnicos e gestores.
Este último aspecto reforça a necessidade de se criar metodologias apropriadas, interdisciplinares entre o design e a educação, no intuito de capacitar em design o professor das licenciaturas. É neste sentido que a legislação nos oferece os meios e os mecanismos legais para a formulação de projetos, ações e bases teóricas da política pública educacional. Precisamos, portanto, trabalhar esse conhecimento na prática escolar e ainda como ação colaborativa para a superação de um contexto educacional conflituoso e indigno do valor de ser brasileiro.
4.6.2 O Programa Mais Cultura
O Programa Mais Cultura foi instituído no dia 04 de outubro de 2007, pela Presidência da Republica, através do decreto Nº 6.226, do Ministério da Cultura, e tem como objetivo ampliar o acesso aos bens e serviços culturais e aos meios necessários para a livre expressão simbólica. Além disso, o programa propõe a geração de estruturas políticas e sociais para qualificar o ambiente social das cidades, do meio rural, e, assim, gerar oportunidades de emprego e renda para os trabalhadores e de empreendimentos da economia solidária do mercado cultural brasileiro.
Este programa tem como cerne o anseio de promover nas ações que ele alcançar a auto-estima, o sentimento de pertencimento, a cidadania, o protagonismo social e a diversidade cultural nos indivíduos brasileiros.
Do ponto de vista da legislação não fica claro por onde irá perpassar os conteúdos de educação, subentendendo-se que esta será uma ação transversal e não integral ao programa. Observamos que o decreto se estrutura focando a ação cultural, como fator de integração da diversidade cultural brasileira, através do respeito às diferenças e como ente fortalecedor da dinâmica social.
Alertamos que a recuperação, mapeamento, catalogação, ou qualquer outra ação de registro dos conteúdos imagéticos é uma ação que tanto gera o fortalecimento dos saberes, fazeres e modos de vida de populações tradicionais, como subsidia a cultura visual brasileira no que se refere à preservação da sua memória, a renovação e estabilidade simbólica. Ações nesse sentido criam um campo imagético que colabora com a identidade visual e se articula com a linguagem gráfica, na medida em que a tem como suporte de sua expressão.
Como podemos observar no artigo 2º, do decreto:
Art. 2o O Programa Mais Cultura compreenderá ações voltadas:
X - ao desenvolvimento da habilidade e do gosto pela leitura e pela escrita; XI - à promoção de programas de capacitação e qualificação do acesso às tecnologias da informação para a produção e difusão cultural;
(http://www.cultura.gov.br/site/wp-ontent/uploads/2007/10/decreto6226.pdf)
Estes dois momentos reforçam a idéia de que educação brasileira continua focada no binômio das linguagens oral/escrita e que as tecnologias de informação e comunicação estão citadas, apenas, para solucionar os problemas de comunicação e informação. Observamos isso quando só o acesso é garantido, mas o processo de empoderamento, ou seja, o de alfabetização nestas áreas ainda não está contemplado.
Nosso diagnóstico, portanto, consiste em que ambas as legislações buscam equalizar a realidade idiossincrática que a maioria da população vive por conta das estruturas precárias de acesso à educação e à cultura. Então, inserir design na formação do professor é uma ação interdisciplinar (enquanto os conhecimentos que imbrica), e de ordem política, para construir a sua articulação frente à ordem social vigente. E isso se aplica quando consideramos o que já existe de estruturas estabelecidas nas políticas públicas para a educação e a cultura.
4.7 O PROFESSOR DE LICENCIATURA E A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA PARA A