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CENA 2. FUNDAMENTANDO O ESPETÁCULO

2.2 Prática de projetos: uma ferramenta ímpar para os processos de aprender e

2.2.5 Os projetos de pesquisa no Colégio Radical

Os procedimentos utilizados no Colégio e Curso Radical para os processos de aprender e ensinar constituem-se numa prática pedagógica denominada de projetos de pesquisa.

“A aula que apenas repassa conhecimento ou a escola que somente se define como socializadora do conhecimento, não sai do ponto de partida, e, na prática, atrapalha o aluno, porque o deixa como objeto de ensino e instrução. É equívoco fantástico imaginar que o contato pedagógico se estabeleça em ambiente de repasse e cópia, ou na relação aviltada de um sujeito copiado

(professor) diante de um sujeito apenas receptivo (aluno), condenado a escutar aulas, tomar notas, decorar e fazer provas”.

(Demo, 2000, p. 7)

De acordo com a Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina, (1991, p. 11) apesar das discussões, estudos e avanços por que tem passado a educação brasileira nos últimos anos, ainda hoje deparamos com um ensino voltado para uma pedagogia que atende os anseios dos segmentos majoritários da sociedade e sim a um processo de seletividade e excludência deste mesmo segmento, privilegiando os segmentos minoritários. A não superação deste quadro significa permanecer a educação formal como repassadora de um conjunto de “saberes” prontos e acabados, o que vem a negar a educação como processo dinâmico.

Por acreditar que aprender e ensinar são processos dinâmicos ativos e interativos que o Colégio Radical implantou a prática de ensino via projetos de pesquisa, “pois ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar possibilidades para a sua produção” (Paulo Freire, 2002, p. 25).

Quando pensamos24 em implantar a prática de projetos de pesquisa acreditávamos que com esse trabalho a relação professor x aluno era uma relação entre pesquisadores do saber, e que ambos, são autores de processos de aprender e ensinar, são autônomos na relação e trabalham para produzir conhecimentos.

Segundo Freire (2002 p. 25 e 26). “Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem a condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Ensinar inexiste sem aprender e vice e versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar.”

O social foi outro elemento relevante na nossa decisão, pois com a prática de projetos de pesquisa, o professor, necessariamente, precisa criticar e recusar “o ensino bancário” (Freire, 1995) que deforma a necessária criatividade do educando e também do educador. Portanto se faz urgente abrir as cortinas da escola para estabelecer outras relações fora dela ou com ela, produzir relações sociais com outros sujeitos, com outros conhecimentos, outras histórias, outras culturas e produzir outros conhecimentos significativos para a sua sociedade.

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Quando digo pensamos é porque o trabalho foi desenvolvido por mim enquanto psicólogo do colégio e pelo diretor do mesmo.

Este salto teve a colaboração efetiva de Vygotsky, pois este atribui grande importância ao papel das interações sociais no desenvolvimento do ser humano. Vygotsky acredita que o processo de desenvolvimento é socialmente produzido. Vygotsky in Rego (1995 p. 58) acredita que para se humanizar o individuo precisa crescer num ambiente social e interagir com as pessoas. Através dessas interações, os sujeitos produzem trocas de experiências com outros indivíduos e se apropriam de outras formas de cultura, produzindo outros saberes.

Fontana (2000, p. 15) afirma que “inserida num contexto cultural historicamente constituído, a criança, desde seus primeiros momentos de vida, está imersa em um sistema de significações sociais. Os adultos procuram ativamente incorporá- la à reserva de significados e ações elaborados e acumulados. Na mediação do/pelo outro revestida de gestos, atos e palavras (signos) a criança vai integrando-se, ativamente, às formas de atividades consolidadas (e emergentes) de sua cultura, num processo em que pensamento e linguagem articulam-se dinamicamente.”

Segundo Rego (1995 p. 109), para que exista essa apropriação é preciso também que exista internalização, o que implica na transformação dos processos externos, concretizado nas atividades entre as pessoas, em um processo intrapsicológico onde a atividade é reconstituída internamente. O longo caminho do desenvolvimento humano segue, portanto, a direção do social para o individual.

Quando Vygotsky (1998, 1999, 2000) teoriza sobre o desenvolvimento humano dá uma atenção especial à educação escolar, pois acredita que o bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento. Assim permite a compreensão de processos de desenvolvimentos que, embora presentes no indivíduo, necessitam da intervenção, da colaboração de parceiros mais experientes da cultura para se consolidarem.

Segundo Vygotsky (in Fontana, 2000, p. 11) “é no curso de suas relações sociais (atividade interpessoal) que os indivíduos produzem, se apropriam e transformam as diferentes atividades práticas e simbólicas em circulação na sociedade em que vivem e os internalizam como modos de ação/elaboração próprios (atividade intra-pessoal, constituindo- se como sujeitos.

Dessa maneira também que o sujeito vai aprendendo e desenvolvendo os conceitos. Segundo Rego (1995, p. 76/77) na perspectiva vigotiskiana os conceitos são entendidos com um sistema de relações e generalização contidos nas palavras e determinados por um processo histórico cultural: são construções culturais, internalizadas pelos indivíduos ao longo do seu processo de desenvolvimento. Os conceitos cotidianos referem-se àqueles conceitos constituídos a partir de observação, manipulação e vivência direta da criança. Por exemplo, a

partir de seu dia-a-dia, a criança pode constituir o conceito “gato”. Esta palavra resume e generaliza as características deste animal (não importa o tamanho, a raça, a cor, etc) e o distingue de outras categorias tal como livro, estante, pássaro.

No seu cotidiano, observando, experimentando, imitando e recebendo instruções das pessoas mais experientes de sua cultura, a criança aprende a fazer perguntas e também obter respostas para uma série de questões. Como membro de um grupo sócio-cultural determinado, ela vivencia um conjunto de experiências e opera sobre todo o material cultural (conceitos, valores, idéias, objetos concretos, concepções, etc.) a que tem acesso. Deste modo, muito antes de entrar na escola, a criança já construiu uma série de conhecimentos do mundo que a cerca.

Apropriado desses conhecimentos produzidos no seu cotidiano, na sua experiência pessoal e concreta, via projetos de pesquisa leva esse conhecimento até a sala de aula e lá via ensino sistemático relaciona com o conhecimento científico.

Os conceitos científicos se relacionam àqueles eventos não diretamente acessíveis a observação ou ação imediata da criança, são conhecimentos sistematizados, adquiridos nas instituições escolares. Por exemplo, na escola (provavelmente nas aulas de ciências), o conceito gato pode ser ampliado e tornar-se ainda mais abstrato e abrangente. Será incluído um sistema conceitual de abstrações graduais, com diferentes graus de generalizações: gato, mamífero, vertebrado, animal, ser vivo, constituem uma seqüência de palavras que , partindo do objeto concreto ‘gato” adquirem cada vez mais abrangência de complexidade.25

Tanto os conceitos cotidianos quanto os conceitos científicos fazem parte de um único processo: o desenvolvimento da formação de conceitos, e, portanto apesar de diferentes estão relacionados e se influenciam mutuamente.

Fontana (1997, p. 125) afirma que, frente a um conceito sistematizado desconhecido, a criança busca significa- lo através de sua aproximação com outros já conhecidos, já elaborados e internalizados. Ela busca enraíza- lo na experiência concreta. Do mesmo modo um conceito espontâneo nebuloso, aproximado a um conceito sistematizado, coloca-se um quadro de generalizações.

Penim (1994, p. 23 e 25) contribuir com o tema afirmando que, “para a epistemologia, os conhecimentos válidos podem ser de dois tipos: um referente àqueles formulados com base no método científico, organizando um corpo de conceitos e teorias bem definidos. O outro refere-se a conjuntos de saberes que, mesmo não atendendo integralmente aos critérios

25- Isso não significa que apenas a escola possibilita a apropriação de conceitos científicos, ou, esses conceitos são exclusivos da escola.

científicos mas não dispensando os critérios racionais, formulam enunciações contendo “figuras epistemológicas” que os possibilitam ser considerados dentro dos parâmetros da epistemologia. É essencial, porém desconfiar daquilo que já está formulado sobre o real. A constante aproximação com o real sem as amarras do que sobre ele já foi concertado apresenta-se como tarefa perene.”

O importante é estar ciente de que o conhecimento sistematizado refere-se apenas a uma parte do sistema ou a um momento de compreensão do real. Muitas vezes o que está sistematizado refere-se tão somente a uma representação do real.

Porém é necessário acrescentar a importância da escola no processo de aprender e ensinar esse tipo de conceito e, principalmente que os educadores e educandos abram as cortinas da escola para que a articulação entre espontâneo/cotidiano e o científico/sistematizado produzam uma educação mais comprometida com o social.

A busca pela objetivação e concretização da inter-relação desses conceitos constitui objetivo da prática de projetos de pesquisa do Colégio Radical, pois via investigação dos conteúdos científicos através de problematizações do cotidiano, professor e aluno trocam suas experiências, seus conhecimentos, processando atividades de aprender e de ensinar com lugares sociais plurais.

Essa inter-relação social (eu –outros, professor – aluno) é o elemento central da prática dos projetos utilizados pelo colégio Radical. Eis um outro salto com relação às outras práticas de projeto (por temas, de trabalho e PBL) que centram sua metodologia no aluno devido ao seu caráter teórico humanista.

Na prática de pesquisa o aluno é importante, mas o professor e os outros são fundamentais para a concretização dos processos de aprender e ensinar.

É via inter – relações que o processo de investigação (a pesquisa) acontece. A pesquisa, aliás, é o grande instrumento mediador de toda essa prática, pois mediante ela os processos de aprender e ensinar são ressignificados: alunos e professores aprendem e ensinam. A troca de experiências e conhecimentos se pluralizam e a atividade de pesquisa é o trabalho intenso dos atores/autores do processo educativo.

A atividade mediada enquanto instrumentalizadora do processo de aprender e de ensinar, a interação social enquanto produtora de subjetividade e conhecimento e o cotidiano como lugar de vivência e experiência dos alunos e professores, são os três grandes alicerces do projeto de pesquisa utilizado no Colégio. Aliado a eles temos a curiosidade dos adolescentes prontos para desafiarem e serem desafiados, cheios de vontade, ansiosos por novidades, sedentos por descobertas e atentos ao mundo que lhes cerca.

Os projetos de pesquisa são elaborados em comunhão entre professor e alunos e devem ter os seguintes elementos:

1- Conteúdos à Os conteúdos são os propostos pela Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina, pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura), pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e pelo SAEM (Sistema de Avaliação do Ensino Médio). A adoção desses conteúdos é decorrente da preparação desses alunos para o vestibular, pois é uma realidade presente no cotidiano deles. Esses conteúdos são entregues ao professor que os seleciona por bimestre. Além desses conteúdos pré-estabelecidos os professores e os alunos podem acrescentar outros de acordo com a sua realidade.

2- Problematização no Cotidiano à sabendo os conteúdos a serem trabalhados, cada professor, com a participação do aluno, formula o máximo de questões-problema relacionados ao cotidiano do aluno. Todos os conteúdos devem ser problematizados. Quanto mais questões forem formuladas, mais material e instrumentos o professor vai ter em sala de aula, pois na verdade as aulas serão ministradas com base nessas problematizações. De modo que o aluno irá iniciar um conteúdo sempre com o seu cotidiano, algo que ele sabe, para em seguida, apropriar-se do conteúdo científico. Dessa maneira cada conteúdo será problematizado e terá ligação com o cotidiano.

3- Tema de Pesquisa à com os conteúdos e problematizações formulados, o professor conjuntamente com os alunos define o tema a ser pesquisado. O tema necessariamente tem ligação com a problematização e o conteúdo. O tema deve ser abrangente, curioso, desafiador e estimulante para que os alunos possam se sentir desafiados à investigação e produção do conhecimento. Às vezes o tema pode ser a própria questão-problema. Ele deve ser debatido à exaustão de modo que o aluno se sinta provocado a produzir mais.

4- Objetivos à São os objetivos que os alunos têm com a realização da pesquisa. Tais objetivos são importantes para uma análise avaliativa do processo, ou seja, para que no final da pesquisa professor e alunos avaliem se cumpriram ou não os objetivos.

5- Metodologia à são os procedimentos adotados para a produção da pesquisa. Passo a passo o aluno deve organizar seu projeto pensando em todos os detalhes que irá necessitar para a realização da mesma. A metodologia é produzida também na relação professor e alunos. Na metodologia o aluno deve incluir um cronograma,

pois o tempo é algo complicado nesse trabalho visto que as pesquisas são realizadas bimestralmente. Na metodologia também o aluno deverá organizar os recursos que utilizará, as formas de intervenção, os ambientes que observará e coletará os dados, enfim todas as atividades que desenvolverá para a produção da pesquisa.

6- Fontes de Investigação à Essa é a parte do projeto onde professores e alunos deverão identificar as fontes de investigação/ produção da pesquisa. As fontes podem ser bibliográficas (livros, revistas, gibis, documentos) que devem ser especificados com nome do autor(es), edição, número para que o aluno esteja tranqüilo na hora da produção; Internet, pessoas, museus, instituições, praças, natureza, enfim, o mundo é uma fonte inesgotável de saber e esse deve ser o caminho dos alunos e professores para o processo de aprender e ensinar.

7- Intervenção Socialà A intervenção social é o desenvolvimento de uma ação social prática que contribua para a melhoria da sociedade em geral.

Os resultados da pesquisa devem ser entregues em forma de um produto final que pode ser: uma pesquisa escrita (manual ou digitado) contendo introdução, desenvolvimento, conclusão, bibliografia e anexos ou artigos; murais; jornais; enfim, a forma pode variar desde que os conteúdos, resultados da pesquisa forem apresentados. Todo o trabalho prioriza as inter-relações, portanto a pesquisa deve ser produzida em grupo, porém respeitando a individualidade e a escolha dos alunos quanto ao modo de produção.

A avaliação na prática de projetos de pesquisa no Colégio Radical também foi modificada. A avaliação é um processo interativo com a participação constante de todos os envolvidos no processo, a saber, alunos, professor, coordenador pedagógico. É avaliado todo o processo de aprendizagem do aluno e seu desenvolvimento durante o bimestre.

A avaliação é um processo constante, diário, semanal, mensal, bimestral e se concretizam as seguintes atividades:

Atividades de Classe à é uma avaliação diária do aluno pela sua produção

(trabalhos, desafios, questionamentos, participação, leituras, construção do projeto de pesquisa e tudo que demonstre interesse e participação, aprendizagem e desenvolvimento).

Produção de textoà avaliação semanal em que o aluno produz, para cada disciplina,

um texto sobre o seu aprendizado da semana. É produzido discursivamente por escrito. É realizado, às vezes, na sexta-feira, por ser o último dia da semana ou na última aula da semana da disciplina e pode ser refeito, se necessário, aos sábados.

Pesquisa à a pesquisa é a base da avaliação, é produzida durante todo o bimestre e

entregue ao professor no final deste. Pode ser entregue tanto manuscrita como digitada, obedecendo as normas técnicas. A interdisciplinaridade é produzida por professores de áreas afins ou mesmo pelos alunos que tem a liberdade de integrar as disciplinas da maneira que lhes for possível.

Seminário à é a apresentação dos resultados teóricos e práticos da pesquisa. No

seminário os alunos demonstram, de modo expressivo e comunicativo, os aprendizados de todo o processo da pesquisa. O seminário é apresentado individual ou em grupo e é o momento de debate e troca entre o aluno ou grupo, a sala de aula e o professor. Os seminários são realizadas no final de cada bimestre e em cada um dos quatro bimestres, os alunos experimentam uma forma diferente de apresentação. No primeiro bimestre apresentam para a própria classe, no segundo bimestre apresentam para duas ou mais classes, no terceiro bimestre apresentam para todo o colégio e no último bimestre apresentam para toda a comunidade.

Desafio à os desafios concluem a avaliação bimestral. Após os seminários, o

professor inicia um debate com os alunos sobre a apresentação da pesquisa, tira dúvidas, acrescenta detalhes, e em seguida, formula um roteiro de questões para o aluno relatar o seu aprendizado. O desafio pode ser com questões discursivas, ou questões objetivas de acordo com a disciplina e, ou. professor.

Para cada atividade de avaliação é atribuído um percentual de aprendizado, porém o fechamento das médias do bimestre não é um somatório destes percentuais, mas sim de um diálogo entre professores e alunos na sala de aula, sobre a produção de conhecimento de cada um e mais um conselho de classe entre professores, coordenadores e representantes dos alunos sobre a produção e conclusão das médias bimestrais de cada aluno.

Diante do que foi apresentado até o momento, a prática de projeto de pesquisa quando fundamentada na perspectiva histórico cultural se constitui numa alternativa de trabalho que possibilita o resgate do lugar social da escola, do professor e do aluno, enquanto contextos e sujeitos produtores de conhecimento. Constitui-se também como um resgate do interesse e motivação de alunos e professores para o processo de aprender e ensinar, bem como amenizar o “colapso educacional” que ainda hoje se vive.

Pautado no respeito pela singularidade de cada ser que faz parte desse processo, a prática de projetos de pesquisa visa contribuir para o desenvolvimento da educação e da constituição dos sujeitos sociais, principalmente através de muito trabalho e muitas atividades. Estes são os elementos necessários para a nossa existência humana, pois segundo Marx (in

Figueira, 1987 p. 7 e 8) “não há nada humano que exista antes do trabalho e que as transformações ocorridas no trabalho, constituem a própria história. São formas distintas do ser humano produzir-se. E porque ele se produz distintamente, produz instrumentos materiais que correspondem aos seus distintos modos de produzir.”

Na história da prática pedagógica de projetos de pesquisa utilizada pelo Colégio Radical, é visível a preocupação com o social, enqua nto espaço cotidiano, a atividade enquanto trabalho investigativo e pesquisa enquanto recurso metodológico para aprender e ensinar, o que poderá ser vizualizado com os resultados da pesquisa que passo agora a apresentar.