De acordo com Mara, os encontros e espetáculos promovidos pelo GTOLX são resultado do processo de formação que o mesmo desenvolve junto das comunidades ou grupos com quem trabalha. São criados e dinamizados pelos intervenientes que constituem os grupos, com o apoio dos formadores e/ou curingas que os acompanham e, por vezes, de um grupo de profissionais das artes de palco que colabora regularmente com o Grupo.
Conforme explicou Rui (curinga e representante de um dos grupos comunitários de Teatro-Fórum da Rede Multiplica)50, “todas as interpretações partem da realidade dos elementos dos grupos” e abordam temas eminentemente sociais. A mensagem varia consoante os temas que pretendem abordar e representar. “Pesquisamos e vamos à raiz do nosso problema, do que nos oprime, para falarmos à sociedade que sentimos determinada opressão, pois somos nós, enquanto elementos da sociedade, os responsáveis pela existência desse problema, dessa opressão”, explicou Rui.
Por isso, o trabalho com os grupos, ao longo do tempo, provoca muitas mudanças nos seus elementos, visto que a metodologia de Teatro do Oprimido pressupõe cultivar uma visão mais crítica sobre si mesmo, sobre a sociedade e sobre o seu papel enquanto cidadãos participativos, tornando-se mais interventivos e ativos, atuando, eles próprios, como mediadores de conflitos, “servindo de exemplo o facto de alguns deles regressarem à escola porque entendem que o seu futuro passa por uma educação melhor, tornando-se modelos dentro das suas comunidades e embaixadores das mesmas fora delas”. Com a experiência, os elementos dos grupos podem, também eles, tornar-se formadores e curingas, assumindo, então,
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responsabilidades de gestão e acompanhamento de grupos, contribuindo para o crescimento da Rede Multiplica, conforme referiu Mara.
Para que a participação da comunidade se torne efetiva é necessário desenvolver um trabalho educativo, que ajude a comunidade a entender os aspectos envolvidos nas relações interpessoais e “inter-humanas”, bem como ambientais, visando colmatar a ausência de debate e discussão, em torno das situações de opressão, discriminação e preconceitos que não são analisados nem ultrapassados e que “prejudica o exercício da cidadania, que pressupõe a discussão coletiva dos problemas sociais”, como referiu Mara. O contacto com a metodologia de Teatro do Oprimido possibilita que a comunidade redescubra a sua capacidade de “metaforizar”/(re)criar, através de “representações do real”, servindo de objeto para discutir os problemas vividos e ensaiar formas de resolvê-los e ou superá-los.
No que se refere à experiência observada, o 2º Laboratório Ami Afro propriamente dito, foi notória a importância que os jovens lhe atribuíram, convictos e unânimes em dizer que se tratou de “uma oportunidade para adquirir conhecimentos e aprendizagens” (de uma forma não formal) “sobre si próprios”, bem como sobre as suas pretensões e reivindicações sociais (n.c. 04/05/2013).
Acima de tudo, foi evidente a vontade de participação dos jovens envolvidos, bem como o desejo de expor as suas ideias e experiências, demonstrando a sua capacidade de argumentar e o seu espírito crítico, em relação ao mundo que os rodeia. Foi igualmente percetível a noção que têm de uma realidade que lhes é próxima, nomeadamente no que se refere aos bairros sociais e suas dificuldades económicas e estruturais. “Embora muitas pessoas não gostem do aspeto físico do bairro, nós sentimos que temos o essencial e gostamos de lá viver. Os que lá vivem têm bastantes dificuldades económicas”, argumentou Rui.
Foi interessante, verificar como associavam a descriminação às generalizações, muitas vezes, provocada por rumores ou pelas próprias instâncias de poder. “Somos um bairro esquecido pela sociedade. Somos um bairro à parte. Há muita descriminação em relação a nós”, disse Rui.
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Da relação com o(s) curinga(s), os jovens destacam a atitude dialógica e também a da partilha recíproca, pois “eles (curingas) aprendem connosco e nós aprendemos com eles” (n.c. 04/05/2013).
Conscientes das várias formas de oprimir e ser oprimido, sentem o Teatro do Oprimido, nomeadamente, a técnica Teatro-Fórum, como “uma forma de ultrapassar as dificuldades e resolver os problemas” (n.c. 04/05/2013), compreendendo a tensão existente entre individual e social, que é um dos substratos da metodologia, ou seja, “de que sendo um problema pessoal é, ao mesmo tempo, coletivo e, que, como tal, deve ser também ele resolvido, em grupo, com a união de várias forças” (Barbosa, 2011, p.78).
A questão da união foi, aliás, referida várias vezes durante as entrevistas e observação, demonstrando, desta forma, uma postura ativa, participativa e lutadora, que acredita no potencial transformador do Teatro do Oprimido e, também, no seu próprio potencial, como seres humanos e cidadãos, pois, embora evidenciem preocupações com o futuro, esclarecem que este está nas suas mãos, reivindicando os seus direitos enquanto jovens e cidadãos.
Como referiu Boal (1978), “o Teatro do Oprimido começa quando acaba. Quando acaba, a gente tem de ir para a rua. A gente tem de ir para a nossa vida, tem que ir para transformar, aqui é uma espécie de laboratório” (p.22)
Segundo Freire (1980), considera-se, porém, que a realidade só pode ser modificada quando o sujeito percebe que ela é modificável e que pode fazê-lo a partir de um necessário processo de conscientização, preparando o indivíduo “(...) para um juízo crítico das alternativas propostas pela elite, e dar a possibilidade de escolher o próprio caminho” (p. 20).
De acordo com Soeiro (2012) o Teatro do Oprimido é “mais um momento do trabalho dos oprimidos para a sua libertação” (p.2). Não representa, por isso, um fim em si mesmo, “não é mera celebração da arte pela arte, não é a busca de acontecimentos sublimes que se bastariam a si próprios” (idem, ibidem), ou melhor, não se contenta em ser apenas um espaço de expressão daqueles a quem a voz, a
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palavra e o gesto são normalmente “confiscados”. Embora, seguramente, abranja um pouco de tudo isso, “mas é sempre um teatro inacabado” (idem, ibidem).
O Teatro do Oprimido reclama sempre a ação fora de si próprio, porque é ensaio! (idem, ibidem)
7. Construir caminhos para a Cidadania e Transformação Social: a