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Os rastros de um discurso sobre a morte nas obras

Por meio de sua obra, Virginia parece conseguir evitar uma devastação própria dos elementos da pulsão de morte. Sua escrita aparece, dessa forma, marcada por estes elementos mortíferos, deixando rastros em seus escritos que funcionam para o leitor como testemunhos estéticos de seu sofrimento.

Em “Ao Farol” e “Mrs. Dalloway”, Woolf transporta o leitor para dentro das águas profundas da sua dor. Tais obras, por serem tão encharcadas de características nefastas, convocam o leitor ao encontro com o real, o que é da ordem do que causa estranhamento.

O fluxo de sua escrita parece permeado por elementos de um discurso sobre a morte. Especialmente nesses dois livros, seu sofrimento e sua relação íntima com o que é da ordem do sem sentido escapam para sua escrita e informam ao leitor sobre sua condição.

Escrever sobre esses elementos mortíferos, criar uma ficção e entregá-la ao leitor possibilita com que Virginia ludibrie a morte, o que do real tanto a assola. A ficcção permite que ela burle o fim e permaneça por mais tempo no meio ao criar novos mundos deixando mundo imediato de lado. Sua escrita lhe possibilitava intervalos para respirar em uma existência em que sempre parecia afundar.

Escreve sobre a morte em uma tentativa de matá-la, pois somente assim poderia se manter na existência. Assim como Sherazade, Virginia escrevia para manter-se viva, para sobreviver mais um dia. Escrever sobre a morte parecia criar uma ilha de sentido onde apenas havia um mar de real.

Por mais que tais obras pareçam ter funcionado como forma de invenção sintomática, garantindo uma sustentação para Virginia, esse laço não nos parece bastante para garanti-la na existência por tempo suficiente. Novamente, era invadida pela onda que a assolava ao término de cada trabalho e precisava voltar a escrever para se manter viva.

Havia a possibilidade de torção e de transformação daquilo que irrompia como característica própria da pulsão de morte, e, por mais que sua escrita houvesse funcionado anteriormente para mantê-la a distância disso, precisa retornar a escrever para novamente lutar contra a irrupção destes elementos que respondem à ausência de sentido.

Logo, Virginia Woolf parecia estabelecer com sua escrita uma relação extremamente particular. Nas duas obras investigadas, as quais ela assume que recebeu por meio de choques, parece relacionar-se como se essas fossem um escoamento, ou ainda, uma produção advinda da sua dor. Sua escrita promove efeitos de transmissão levando o leitor a se tocar pelo real da experiência, de onde provém sua importância para a psicanálise.

Leite (2012) fala que a evocação poética provoca efeito de transmissão, visto relacionar aquilo que diz respeito ao mais íntimo e mais exterior. De forma que algumas produções literárias tem efeito de música, e é como se nesta “perdêssemos os limites entre ouvir e ser ouvido” (LEITE, 2012, p.57). Logo, a experiência com a leitura de Woolf parece atualizar uma experiência com o próprio inconsciente e por ser tão marcada com elementos funestos, deixam rastros ao leitor que nos permitem investigar acerca da relação que a autora mantinha com a morte e com sua escrita.

A morte aparece nas obras analisadas em duas faces distintas: a incapacidade de elaboração de um luto e o incessante desejo de morte. O que nos permite, a frente na pesquisa, relacionar essas duas características à sua estrutura existencial, buscando ampliar o entendimento do lugar ocupado por esta incidência da morte em suas obras em relação com a psicose. Ainda, de que forma isso nos permite avançar nas pesquisas sobre a temática.

Não nos interessa, como psicanalistas, analisar ou promover sentidos à obra de Woolf, fechando-a em sentidos imaginários próprios. Buscamos, por meio das obras, um testemunho de Virginia da sua posição frente à morte e o papel essencial que sua escrita parecia estabelecer nesse processo. Pretendemos investigar com isso, os modos como esse testemunho nos traga ensinamentos teóricos e promova uma abertura em relação à obra da autora.

Para Branco e Jorge (2012) a obra não se permite medir por critérios estéticos ou universalizáveis, sendo exatamente essa dimensão que interessa a psicanálise, isso do que é da ordem do difícil de apreender. A obra vai para além do próprio autor, tendo como mestre o próprio inconsciente. “Neste aspecto, a produção artística resiste radicalmente a toda produção de saber e escoa de suas explicações, por mais respeitáveis que esses saberes possam se configurar” (BRANCO; JORGE, 2012, p. 217).

Dessa forma, no próximo capítulo, buscaremos procurar estabelecer as possíveis relações entre a escrita da autora e a incidência da pulsão de morte e do gozo nas psicoses. Tendo como foco principal analisar de que forma, o que foi investigado até agora sobre o papel da morte na vida da autora, pode nos ensinar enquanto psicanalistas sobre a categoria das psicoses.

5 QUESTÕES RELATIVAS AO REAL E O GOZO NAS PSICOSES

“O real não esta na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. (João Guimarães Rosa)

Discutiremos neste capítulo de que forma o real comparece na categoria clínica das psicoses em busca de relacioná-lo à noção de gozo como vista no segundo capítulo. Pretendemos ainda, relacionar a irrupção do real com a teoria do trauma no intuito de rastrear como, ao escrever sobre a morte, Virginia Woolf conseguia fazer empecilho ao que emergia como sem sentido e insistia em destroçá-la.

5.1 Um apanhado sobre a categoria clínica das psicoses em Lacan e sua relação com o