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3.1. Os recursos comuns no contexto dos sistemas socioecológicos  

Como já apresentado na introdução, os recursos pesqueiros podem ser classificados como um tipo de recurso comum ou recurso de uso comum (da expressão “commons” em inglês). Esse grupo de recursos naturais apresenta duas características principais: o controle de acesso de usuários é sempre um problema (questão de exclusão); e cada usuário pode subtrair uma parte do recurso que está disponível para os demais usuários (questão de subtração) (OSTROM, 1990). Também entram nesse grupo de recursos as florestas, águas continentais e marinhas, atmosfera, a fauna, parques e demais espaços públicos (OSTROM, 1990).

O campo de pesquisa em torno dos recursos de uso comum se intensificou como uma forma de resposta ao famoso artigo de Hardin (1968),

“The tragedy of the commons” [A tragédia dos comuns]. Nesse trabalho, o autor demonstra os riscos de degradação dos recursos comuns através de um exemplo hipotético em que os usuários intensificam o uso de um espaço em busca de uma maximização individual, ignorando os custos futuros que isso trará para todos, levando o sistema a uma “tragédia nos recursos de uso comum”.

Para Hardin, a única solução para questões como a apresentada é a privatização ou estatização dos recursos.

Contudo, em sua análise, Hardin não considerou todos os regimes de apropriação (property-rights regimes) dos recursos comuns hoje descritos na literatura: propriedade privada; propriedade estatal; livre acesso; e propriedade comunal ou comunitária5. Propriedade comunal ou comunitária é aquela em que o recurso em questão é controlado por uma comunidade definida de usuários, que podem excluir outros usuários e regular o uso desses; enquanto o livre acesso é a ausência de direitos de propriedade definidos, sendo esse sistema considerado inviável no longo prazo (VIEIRA, BERKES & SEIXAS, 2005). Em       

5 Esses quatro regimes são tipos ideais, mas na prática os recursos tendem a ser controlados por diferentes combinações desses regimes (BERKES, 2005).

sua análise, Hardin não considerou a existência de regimes comunitários de gestão, equivalendo essa forma ao sistema de livre acesso aos recursos comuns.

Berkes (2009) relata que o paradigma dos recursos comuns evoluiu muito nas últimas duas décadas. Na pesca de pequena escala a teoria dos recursos de uso comum tem fornecido subsídios para a compreensão das dinâmicas socioecológicas e para o aperfeiçoamento das ferramentas de gestão pesqueira (SEIXAS & BERKES, 2005). Berkes (2009) também afirma que essa teoria vem sendo corriqueiramente descrita para a situação da pesca de pequena escala, porém, ainda é pouco considerada no processo de gestão.

Conforme Folke et. al (2002) dois erros foram feitos no passado em relação às políticas públicas ambientais – onde se inserem as políticas pesqueiras –, o primeiro de que as respostas do ambiente ao uso humano são previsíveis e controláveis, e o segundo de que os sistemas humanos e naturais podem ser tratados separadamente. Porém, segundo os autores, hoje, muitos trabalhos no mundo todo mostram que os Sistemas Socioecológicos (SSE) se comportam de maneira não linear, agindo de forma complexa e integrada.

Conforme Berkes & Folke (1998), o sistema socioecológico é um conceito que considera a perspectiva do ser humano-na-natureza (humans-in-nature), tratando os sistemas sociais e ecológicos de maneira integrada. Este conceito procura unir, de maneira holística, aspectos sociais e naturais (YOUNG et al.

2006), fornecendo uma visão mais ampla sobre os cenários de uso humano dos recursos naturais. Assim, o contexto dos recursos de uso comum, no caso dos recursos pesqueiros, se insere na temática dos sistemas socioecológicos.

O conceito de sistemas socioecológicos evoluiu a partir da definição de sistema como um complexo de elementos e processos em integração, seja ela de natureza material ou imaterial (BERTALANFFY, 1975). Assim, entra-se no universo dos sistemas complexos, onde os processos não são lineares entre as partes, e há um alto grau de incerteza (BERKES, COLDING & FOLKE, 2001).

Nesse contexto, a pesca aparece como uma atividade particular, sendo altamente complexa, principalmente quando nos referimos à pesca artesanal

(CASTELLO, 2004). Conforme Amanieu (1991)6 apud Andriguetto-Filho (1999) a atividade pesqueira é um sistema complexo “de múltiplas interações sociais e ecossistêmicas (…) com componentes inter-relacionados, fluxos e orçamentos e balanços, com dinâmica espaço-temporal e funcionamento.”

Aqui vale uma ressalva, pois mesmo sendo clara a importância da abordagem integradora da temática dos sistemas socioecológicos, se faz necessário reconhecer componentes e processos distintos entre os dos sistemas sociais e os sistemas naturais. Segundo Berkes & Folke (1998) os sistemas sociais compreendem as relações de direitos de propriedade, sistemas de apropriação de terras e recursos, sistemas de conhecimento e visões de mundo e ética pertinentes ao ambiente e aos recursos; e os sistemas ecológicos, como de consenso geral, são os ambientes naturais. Também é importante frisar que a aplicação de abordagens sistêmicas, como no caso dos sistemas sociecológicos, não limita análises disciplinares, sendo estas muito importantes para uma análise mais ampla de sistemas complexos.

Outro aspecto importante para o conceito de SSE é a questão de escala.

Gibson, Ostrom & Ahn (2000) definem escala como sendo “uma dimensão espacial, temporal, quantitativa ou outras utilizadas para medir ou analisar algum fenômeno, considerando ‘níveis’ como as unidades de análise que estão localizados em diferentes posições na escala”. Esta não é uma questão nova em análises de recursos de uso comum no contexto socioecológico, mas cada vez mais ela vem sendo utilizada com mais sofisticação, como por exemplo, pelo fato da teoria de sistemas complexos sustentar que os diferentes níveis em uma hierarquia estão ligados, mas que cada nível requer novos conceitos e princípios (BERKES, 2008). Ainda segundo Berkes (op. cit.), muitos pesquisadores do commons ainda não trabalham com a questão de escala, considerando apenas os dois princípios básicos dos recursos comuns, a exclusão e subtração. O autor ainda salienta que a consideração dessas duas regras básicas nesse tipo de estudo é essencial, mas em um mundo multinível é insuficiente para compreender a lógica necessária para um manejo eficiente.

      

6 AMANIEU, M. Um chercheur face aux pêches artisanales. In: DURAND, J.R.; LEMOALLE, J.

WEBER, J. (Ed.). La recherché face à la pêche artisanale. Symp. Int. ORSTOM-IFREMER, Montpellier. ORSTOM, Paris, t I, p. 51–62, 1991.

Esse determinante da escala só reforça a necessidade de análises com abordagem sistêmica na questão dos recursos de uso comum no contexto dos sistemas socioecológicos, relevando as relações complexas e inter-escalares presentes nesses sistemas. Isso se apresenta como um desafio para pesquisadores, principalmente pela escassez de informação e de ferramentas para se trabalhar na interface – isso se comparado a campos disciplinares da ciência.

O modelo de análise dos sistemas de produção pesqueiros (ANDRIGUETTO-FILHO, 1999, 2002 e 2003), apresentado na introdução, propõe uma análise na interface dos sistemas, revelando as relações complexas entre sistemas sociais e naturais. No tocante aos trabalhos citados, não se abordaram as bibliografias relacionadas à temática socioecológica, entretanto, a proposta de classificação da pesca em sistemas, determinando limites para agrupamentos de características semelhantes, como a proposta pelo autor citado, pode ser considerada como um modelo de classificação de sistemas sociecológicos relacionados ao ambiente pesqueiro. O conceito de sistema de produção pesqueiro e o modelo de análise relacionado a esse conceito serão apresentados na seção seguinte.

3.2. A pesca e os sistemas pesqueiros  

A pesquisa e a gestão pesqueira tradicionais ainda são em grande parte focadas em avaliações de estoques e modelos estatísticos, considerando o homem como elemento exógeno do sistema e, assim, ignorando as complexas relações socioeconômicas (CASTELLO, 2004). Para Diegues (2004), a pesca não pode ser entendida por apenas uma disciplina devido a sua complexidade, devendo ser estudada por diversas linhas, mesmo que essas mantenham seus paradigmas e métodos próprios. Segundo Castello (op. cit.), embora haja um reconhecimento explícito da importância da interdisciplinaridade para a gestão pesqueira, ela ainda não é uma prática estabelecida em todo meio acadêmico.

Isso fica claro no texto de Berkes et al. (2006, pag. 24):