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Os recursos públicos e os efeitos sociais

CAPÍTULO 4: AS ORGANIZAÇÕES DO CENTRO

4.2. Os recursos públicos e os efeitos sociais

Em 2006, o Fórum Centro Vivo (FCV) elabora um Dossiê Centro de São Paulo

FCV, documento notoriamente crítico à política da nova prefeitura, mas que não difere da

situação do tempo da gestão Marta Suplicy, no qual explica a configuração do centro de São Paulo:

Na cidade de São Paulo existem mais imóveis vazios que famílias sem casa para morar. Segundo o Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE 2000)42, o número de imóveis vazios [254 mil unidades] é maior que a estimativa de déficit habitacional na cidade (203,4 mil unidades). Quase 10% dos domicílios vagos da cidade estão no Centro, descumprindo sua função social. O que em números representa cerca de 40 mil residências vagas. O maior índice é registrado na Sé, onde 26,84% dos 11.384 domicílios existentes estão desocupados. A área considerada pelo IBGE considera como centro a Administração Regional [Subprefeitura] da Sé que engloba os distritos da Sé, República, Santa Cecília, Consolação, Pari, Consolação, Liberdade, Brás, Bom Retiro e Bela Vista (FCV, 2005-2006).

Assim como a situação dos seus habitantes:

A grave situação dos cerca de 600 mil moradores de cortiço [habitações coletivas multi-familiares precárias], das cerca de 1,2 milhões de pessoas que vivem em mais de duas mil favelas na capital, dos loteamentos irregulares e precários, em especial aqueles localizados em área de proteção ambiental, e das áreas de risco [522 áreas com 27.500 domicílios, dos quais 7,5% devem ser reassentados], bem como dos moradores de rua [8.706 adultos e cerca de 1000 crianças e adolescentes] expressa o quadro de violação do direito a um padrão de vida minimamente adequado na cidade (Ibidem).

A denúncia de que o número dos prédios vazios é superior às necessidades em habitação da população, e que os 10% de domicílios vazios no centro significam 40 mil residências sem ocupantes, fazem com que os SDF e os moradores de cortiços e favelas não cessem de aumentar, expondo a vida das crianças e de toda a família. Essa é uma realidade válida, não apenas para esses últimos anos, mas sobretudo, já uma realidade nos anos precedentes. Observa-se assim que, por um lado, o governo PT é responsável por tal situação, o qual segundo Cavalcanti, baseando-se nas entrevistas dos dirigentes UMM, apresenta duas grandes marcas:

a primeira diz respeito ao fato de a negociação entre Estado e movimento social acontecer de forma declaradamente desigual, onde a força da máquina pública é posta em prática de modo a

colocar o ator popular em clara situação de inferioridade. A segunda característica deste governo foi a forma como distorceu os princípios que regiam, de modo geral, as políticas participativas até então empregadas em várias administrações municipais onde o PT era governo (CAVALCANTI, 2006:122).

Enquanto que, por outro lado, em conseqüência do primeiro, no mínimo uma timidez das organizações de moradia em relação ao governo PT, graças à institucionalização acentuada das suas atividades e ao atrelamento de muitas das suas lideranças ao aparelho do Estado, levando-as assim a perder seu potencial de combatividade e sua capacidade de resistência.

Os problemas não se limitam portanto ao déficit em habitação, mas também aos serviços públicos, especialmente em matéria de equipamentos sociais, culturais, urbanos ou financeiros, destinados à população. Na realidade, são serviços entendidos como “recursos” no sentido de proteção, meio e solução às necessidades sociais e não como fonte pecuniária ou com investimento financeiro. Quando esses recursos não correspondem às necessidades - tanto em quantidade, quanto em qualidade -, os problemas começam a surgir na comunidade, acompanhados das distorções ou deformações de comportamento sociais, insatisfações, desmoralizações, revoltas, gerando o martelado síndrome da violência, e modificando os comportamentos e hábitos de todas as camadas da sociedade, inaugurando assim uma nova era para os produtos de primeira necessidade: alarmes, anti-furtos, grades de modelos variados, estigmatizando o pobre como delinqüente. Caldeira (2003) aprofunda os efeitos nefastos das transformações na cidade de São Paulo e no país, justamente pela combinação dos fenômenos da violência e do medo num processo social, traduzindo-os como “a fala do crime”.

Quando os serviços públicos satisfazem as necessidades básicas da população, tanto pela gratuidade quanto pela qualidade, pode-se afirmar que as autoridades políticas dotam assim a sua população do precioso “recurso” social, contribuindo dessa forma para a valorização dos indivíduos. Inversamente, lá onde eles são inexistentes, deficitários ou decadentes, tornam-se desvalorizados, acarretando também a desvalorização humana da sua população, não somente em relação ao outro, mas também para si próprio. A ausência desses recursos ou o estado de precariedade em que se encontram é o caso de certas zonas habitadas por uma população modesta de certas favelas de São Paulo. E é nas zonas

marginais do centro urbano ou no próprio centro, aonde vão se instalar representantes de verdadeiras multinacionais mascaradas de generosas ONGs, de grupos de traficantes, de seitas brasileiras, européias, estadunidenses ou de outras proveniências, com o fim de conquistar novos adeptos às suas causas e aos seus interesses (RIBEIRO, entrevista em 2006). Muitas dessas ONGs justificam a sua presença argumentando que elas servem às comunidades para “manter a paz social”, que isso significa “valor agregado” ao trabalho delas utilizando-o como componente dos seus orçamentos43. Em meio aos grupos, autoridades políticas ou administrativas preferem deixá-los reinar nessa realidade, recorrendo às ações policiais repressivas dirigidas à população pobre quando esta ousa organizar-se para exigir os seus direitos, do que resolver de maneira definitiva as lacunas em equipamentos dos serviços públicos.

Quando o centro de São Paulo é tomado pelas ocupações, inicialmente amedrontando ou espantando os círculos do comércio suspeito, desejosos em aumentar a sua clientela, mas também por uma classe média assustada, sobretudo devido aos efeitos da pobreza, além de enfrentarem as autoridades, cada vez mais exigentes, os ocupantes passam a ter um papel dinâmico e regenerador sobre as zonas antes socialmente decadentes. Apesar da ausência de certos serviços ou da escassez de alguns equipamentos públicos gratuitos para a população que pratica a ocupação, as vantagens do centro são, sem dúvida, superiores às da periferia ou subúrbios. Para a população que se encontra já estabelecida, as vantagens são igualmente superiores e os efeitos das ocupações dos edifícios vazios são apenas benéficos pela animação que suscitam no bairro, pela mudança de natureza dos edifícios vazios, pelas trocas de solidariedade entre os novos recém-chegados e a vizinhança. Os efeitos resultantes das lutas do movimento, da sua organização e da sua presença, influem direta ou indiretamente na população das imediações, em termos de relacionamento de vizinhança, de participação de iniciativas conjuntas entre associações de moradores e ocupantes, militantes do movimento, de práticas e ações coletivas com objetivo de contribuir para o bem estar da vizinhança e do conjunto da população. Os

43

Como no Brasil, na França também, certas ONGs à vocação social integram esse valor agregado numa rubrica especial nos seus orçamentos previsionais a serem submetidos aos poderes públicos para obterem suas subvenções. Elas afirmam que suas atividades em ambiente de conflitos, contribuem para a “paz social”

movimentos passam assim a contribuir para o aumento do “valor agregado” do centro, socialmente em construção ou reconstrução dos seus direitos. É precisamente na qualidade da garantia de uma relativa harmonia entre vizinhos, e de uma coexistência supostamente pacífica entre eles, o que envolve certas regras comportamentais e certas práticas de solidariedade que se tornam capazes de eliminar certas práticas como a prostituição e o comércio de drogas, existentes nessas mesmas zonas. Diferente das ONGs, os movimentos vivem na ameaça iminente de repressão e expulsão, dando início a um processo de “saneamento”.

Entretanto, a reação da vizinhança e das autoridades, relativa aos ocupantes ou à própria ocupação -, tem efeitos benéficos no processo de politização dos movimentos dos seus militantes, sobre as dificuldades para resolver o problema da moradia, constatando que não se trata somente de procurar um teto, mas de compreender a lógica da produção urbana, excluindo milhões de pessoas dos direitos mais elementares. Assim, à medida que o movimento entra em ação, a sua reflexão não aprofunda simplesmente as questões relativas ao objeto da sua mobilização, mas estende-se para outros campos dos direitos sociais, tais como: a saúde; o trabalho; e a educação, levando as suas bases a discutirem sobre essas questões. Esse processo é muitas vezes interrompido ou freado por intervenções externas ou internas, independentes da vontade do próprio movimento: a repressão e as atribuições de moradias dispersando os seus membros. Além das reflexões na base geradas pelas lutas, acrescentam-se os processos de participação dos dirigentes às decisões, iniciados em diversos níveis, permitindo alargar a sua visão de mundo e enriquecendo a tomada de consciência social. Mas, apesar da riqueza da dinâmica gerada no curso das lutas, muitas vezes objetivos e encaminhamentos apresentam-se de maneira contraditória aos seus componentes, provocando cisões, e nesse contexto, fazendo surgirem novas organizações do movimento.

Cavalcanti salienta três fatores contribuindo para o recurso das ocupações no centro: a saturação de grandes áreas vazias na periferia, o abandono dos imóveis públicos ou privados situados em zonas já equipadas de infra-estrutura e a nova regulamentação urbana, sobretudo graças aos dispositivos instaurados com o Estatuto das Cidades (CAVALCANTI, 2006:82-83). No que concerne aos resultados obtidos com o método das

ocupações, quando assumidas como habitação alternativa, pode-se ressaltar três fatores: em primeiro lugar, intervindo na mudança de utilização do espaço urbano e dando-lhe uma função social da propriedade urbana, que passa de um estado de abandono ao estado socialmente útil, transformando e animando o preexistente, o que significa a recuperação das infra-estruturas, equipamentos diversos; repercutindo sobre os aderentes uma importante economia de esforços individuais e coletivos para o movimento dada as maiores ofertas de trabalho. Em seguida, o caráter autônomo do movimento, recorrendo às ações independentemente das iniciativas ou dos dispositivos institucionais, sem interferência das autoridades, mas a partir de uma iniciativa própria, de transformação da função do espaço, levando-o a se auto-organizar nas tarefas de manutenção dos imóveis, de convivência e de vizinhança, de formação e de solidariedade. Por último, essa forma de luta impõe um novo elemento na tomada de consciência dos aderentes do movimento, a relação entre o papel dos indivíduos na cidade e do seu centro e os problemas que emergem sobre uma população precária e marginalizada pelo abandono dos edifícios, diante da passividade das autoridades para resolver os problemas da moradia no centro, contribuindo assim para a politização do conjunto dos movimentos.