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3. MÃOS QUE CONTAM HISTÓRIAS: OS ORGÂNICOS EM SANTIAGO

4.1 OS REDIRECIONAMENTOS DE OLHAR PARA COMPREENDER AS

A cultura e a mente são os dois objetos mais importantes escolhidos para tentar construir uma ciência dentro da antropologia e psicologia. A mente cria, busca, preserva e usa sentido para construir o mundo, assim, a cultura é criada pela mente daqueles que estão imersos nela (GUEERTZ, 2001).

Nosso cérebro encontra-se em nosso corpo e nossa mente encontra-se em nosso mundo. Cérebro e cultura evoluíram reciprocamente, ou seja, os mundos físico, biológico e social se entrelaçam, formando teias de significado entre si. A cultura não é nada mais do que a interpretação de onde o homem está amarrado a essas teias que ele próprio teceu. (GEERTZ, 1989; GUEERTZ, 2001)

Essas teias se entrelaçam entre os indivíduos que nela vivem, de modo que ao compartilhar o ambiente também acabam por compartilhar experiências, normas e padrões para construir sentido em seus mundos.

Neste ponto percebemos a importância de conhecer as sociedades a partir dos relatos individuais. Cada mente e cérebro se desenvolvem de acordo com características únicas, cada pessoa possui sua visão de mundo e se relaciona com os seus de acordo com suas experiências individuais (GUEERTZ, 2001). O que faz com que não exista apenas uma cultura dentro de uma determinada sociedade, mas várias culturas que dialogam entre si, formando uma teia de relações.

Ao abordar estudos sobre cultura em sociedade rurais em seu estudo conhecido pela publicação “Os parceiros do Rio Bonito”, Cândido (2001)24

aborda o conceito de cultura rústica para ir além das questões de localização que a palavra “rural” nos remete. Desta forma, o uso do termo “rústico” nos remete ao relacionamento dos indivíduos com o isolamento, nos remete à relação que o indivíduo desenvolve com a “cultura urbana”, pois se entende que esta influencia a existente no ambiente rural e vice-versa, exprimindo modo de ser e tipo de vida. Este estudo quando traduzido para a atualidade nos mostra que o rural cada vez mais se entrelaçou com o urbano.

Porém a cultura rústica abordada por Cândido não é mais a mesma, intensas transformações ocorreram nos meios de comunicação e transporte no rural, o que fez com que novas relações sociais fossem capazes de ressignificar elementos previamente estabelecidos.

24 O estudo foi realizado entre os anos de 1947 e 1954. A primeira edição do livro “Os parceiros do Rio Bonito” foi publicada em 1964.

Uma das relações que, atualmente, possibilita novas pontes entre rural e urbano são as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). As TICs, como internet e telefones celulares, são uma realidade no mundo contemporâneo e cada vez mais interferem nas decisões e espaços de sociabilidade da vida rural (GUIMARÃES et al., 2015).

O estudo da cultura tem grande destaque na antropologia, nas palavras de Oliveira (1996) “o olhar” é uma dos pilares fundamentais do trabalho do antropólogo, sendo os outros dois “o ouvir” e “o escrever”. Para o autor, caso um desses três pilares não for devidamente treinado, seu trabalho estará comprometido. O olhar nesse contexto deve ser domesticado para estar sensível a coisas que antes da bagagem teórica da antropologia não eram perceptíveis, dessa forma, o olhar passa a identificar fatores que antes pareciam invisibilizados pelo olhar do senso comum do cotidiano.

Cada uma das histórias que escutei e observei durante o tempo de imersão no campo de pesquisa possui suas próprias particularidades. Todas com muita força, superação, determinação e um desejo intenso de viver. Algumas histórias mais sonhadoras, outras com mais experiência pra manter o pé no chão e tomar decisões que não gerem consequências já vividas, mas todas com esperança. Ao desenrolar destes quase seis meses visitando o ambiente da feira, sendo que nos três primeiros meses uma vez por mês, e nos três meses seguintes, praticamente todos os finais de semana, com um aumento gradual na medida em que os laços de confiança eram gerados entre estudante/pesquisador e sujeitos do cotidiano pesquisado.

Para Agnes Heller o estudo do cotidiano passa pelo estudo das ações da vida particular das pessoas (1987, p. 19, tradução nossa):

Para reproduzir a sociedade é necessário que ser humanos particulares se reproduzam a si mesmo como seres humanos particulares. A vida cotidiana é o conjunto de atividades que caracterizam a reprodução dos seres humanos particulares, os quais, por sua vez, criam a possibilidade da reprodução social.

Assim, a vida cotidiana no particular se reproduz em seu próprio mundo, diretamente, e em conjunto com a sociedade, de modo indireto. Ou seja, existe um pequeno mundo particular a cada pessoa onde as relações de vida ocorrem de forma direta, e um grande mundo da sociedade, onde a vida particular é afetada de forma indireta (HELLER, 1987). Desta forma, o homem particular, a qual Agnes Heller fala, não existe de isolado de outros em sua vida cotidiana, sendo que suas ações afetam e são afetadas pelos outros que compartilham

seus espaços, e é a partir das relações entre estas pessoas que ocorrem as individualidades podem se rearranjar em formas coletivas da sociedade.

O cotidiano desta forma se apresenta no dia a dia, interagindo e fazendo parte do trabalho, da moral, da religião, da política, da ciência, arte e filosofia. A partir dessas experiências emergem os saberes25 que decidem as escolhas de ações cotidianas (HELLER, 1987). De forma mais próxima, Certeau et al (2012) aborda a temática mostrando como ela ocorre entre o morar e o cozinhar, abordando o cotidiano como tudo aquilo que é dado no dia a dia, as situações que são encaradas, as pessoas com quem se encontra, os desafios que são tomados, e quem cada um acaba sendo. Fazem parte do cotidiano as memórias olfativas do almoço ao ser preparado, os gestos que são repetidos sob determinados contextos, os hábitos de consumo adquiridos, os trajetos que viram parte do cotidiano, as obrigações morais para consigo e o seu mundo, e o conforto dos espaços privados, onde a morada se apresenta como lugar da vida.

Antes de acompanhar os significados, que se constroem durante a feira, foi necessário perceber como esses agricultores se planejam e como eles se constroem em suas vivências para chegar à feira, do plantar ao colher. A feira inicia no planejamento de quem planta, no preparo da terra, no plantio, nos tratos culturais, durante a colheita e organização dos produtos até chegar à praça nos sábados de manhã.