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Os referenciais teóricos que caracterizam os trabalhos

Para mostrar a forma da relação entre conhecimento e poder que os 163 trabalhos do GT-Currículo produziram na primeira década de dois mil, é fundamental conhecer os principais referenciais teóricos nos quais os mesmos se pautaram, o que apresentamos nesta seção.

Nesta tarefa optamos por apresentar a recorrência dos autores citados em mais de cinco trabalhos, o que significa que estes autores estão presentes em 3% ou mais do total de trabalhos apresentados.47Embora o número de cinco recorrências de um mesmo autor seja pequeno, trata-se de uma faixa de amostra que nos permite ver mudanças em relação ao diagnóstico da década de noventa, o que não seria possível se se operasse somente com os autores mais citados no período. Trata-se de um exercício de desconfiança de uma aparente estabilidade no pensamento curricular para se perceber as pequenas mudanças que estão ocorrendo no processo (FERREIRA, 2005).

Para efeitos operacionais e de análise, apresentamos os resultados em dois gráficos. O primeiro mostra a lista dos autores que foram citados em mais de dez (10) trabalhos e o segundo a lista dos autores citados em cinco (5) a nove (09) trabalhos, conforme vemos no Gráfico 10:

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Os demais autores, citados em menos de cinco trabalhos do GT-Currículo no período de 2000-2010, integram o Anexo 01.

Gráfico 10 – Autores citados em mais de dez trabalhos Fonte: Anexo 01

Este gráfico mostra o grupo que consideramos mais significativo porque se refere a autores presentes em pelo menos 10 trabalhos do GT-Currículo no período de 2000-2010, perfazendo uma participação em 6% dos trabalhos ou mais.

Gráfico 11 – Autores citados em cinco a nove trabalhos Fonte: Anexo 01

De modo geral, as informações apresentadas nestes dois gráficos comprovam o diagnóstico de Lopes e Macedo (2005), assim como de Moreira (2002b), que identificavam que o campo do currículo e o GT-Currículo da ANPEd, desde a segunda metade da década de noventa é marcado por autores ligados às teorias pós-críticas. Neste leque estão incluídos autores que se vinculam a diferentes vertentes teóricas, desde o pós- estruturalismo, o pós-marxismo e os estudos da cultura.

Os Gráficos 10 e 11 revelam que a marca dos autores pós-críticos está cada vez mais presente em oposição a autores que seriam inseridos em perspectivas críticas, tais como Paulo Freire, por exemplo. Na pesquisa de Moreira (2002b), que investigou os trabalhos apresentados no GT-Currículo no período que compreendeu os anos de 1996 a 2000, Paulo Freire ainda estava entre os autores mais citados nos trabalhos apresentados. Já no período de 2000 a 2010 o mesmo foi citado em apenas 8 trabalhos e na maioria das vezes em trabalhos que discutem a temática Estudos do/cotidiano escolar.

O mesmo acontece com autores como Jurjo Torres Santomé, Theodor Adorno, Jürgen Habermas e Raymond Williams, que “deixam” o lugar de autores mais citados no GT-Currículo, na primeira década de dois mil.

Ao mesmo tempo, entram em cena autores não citados na pesquisa de Moreira, todos vinculados aos movimentos teóricos pós-críticos identificados, tais como Homi Bhabha, Néstor Garcia Canclini, Zigmund Baumann, Mikhail Baktin, Silvio Gallo, Chantal Mouffe, Ernest Laclau, Clifford Geertz, dentre outros. Embora estes tenham sido citados numa parcela menor de trabalhos, percebe-se que a sua recorrência acontece, principalmente, a partir da segunda metade da primeira década de 2000.

É grande a recorrência a Tomaz Tadeu da Silva, citado em 63 trabalhos. Examinando as listas de referências dos trabalhos, conforme é mostrado no Anexo 01, percebe-se que este autor, na maioria das vezes, é citado em conjunto: ou com Michel Foucault ou com Gilles Deleuze. Estes dados mostram que os textos de Silva que estão pautando as pesquisas de currículo se relacionam a diferentes fases teóricas do autor. Na década de noventa, o autor teve uma intensa produção intelectual no campo curricular brasileiro, pautada em autores do pós-estruturalismo, especialmente em Michel Foucault. A partir de 2000, no entanto, Silva assume um posicionamento teórico a partir de Deleuze, quando se afasta, inclusive, das discussões específicas de currículo. Deste modo, é possível

concluir que Tomaz Tadeu da Silva, apesar de ser o autor mais citado do GT-Currículo no período de 2000 a 2010, é um autor que comenta autores complexos e no contexto das pesquisas aqui analisadas, auxilia na compreensão destes autores e teorias principais.

De forma geral, o Gráfico 10 e 11 mostra a marca epistemológica dos trabalhos do período analisado: uma grande recorrência a autores pós-críticos, advindos, principalmente, da Filosofia e suas vertentes, não associados diretamente a currículo. Neste conjunto, se destaca especialmente Michel Foucault, que pode ser considerado o precursor ou mesmo a grande base teórica da mudança epistemológica do campo do currículo, pois está presente desde os primeiros estudos que rompem com a perspectiva de currículo e controle social, a partir de uma revisão da forma da relação entre conhecimento e poder, especialmente a partir da segunda metade da década de noventa. Além disso, Foucault é uma das principais bases teóricas de outras influências.

Além de Foucault, outras vertentes da Filosofia se destacam nos textos da primeira década de dois mil, tais como: a filosofia da linguagem com Mikhail Bakthin; a filosofia da diferença com Gilles Deleuze e Félix Guatari e a filosofia política com Chantal Mouffe.

Também se destaca a recorrência a Boaventura de Sousa Santos, da Sociologia e a grande influência de Michel Certeau, do campo da História.

Quanto aos textos que analisam a relação entre currículo e cultura e os estudos pós- coloniais, se destacam autores como Stuart Hall e Homi Bhabha.

A influência de referenciais advindos de outros campos teóricos, como os citados anteriormente, é tão grande que em alguns textos analisados os autores do campo do currículo ficam dispensados ou estão completamente ausentes.

Dentre os autores que discutem especificamente o currículo, destacam-se aqueles que têm buscado aproximações entre perspectivas críticas e pós-críticas, como é o caso de brasileiros incluídos no grupo dos mais citados, tais como: Antônio Flávio Barbosa Moreira, Alice Casimiro Lopes, Nilda Alves, Lucíola Licínio Santos e outros. Autores estrangeiros, tais como Ivor Goodson, Stephen Ball, Gimeno-Sacristán, Michael Apple, Thomas Popkewitz e Henry Giroux, além de outros, também se inserem neste movimento teórico.

A presença de autores da teoria crítica é praticamente nula, com raras exceções, a exemplo dos citados poucas vezes, como Paulo Freire e Antônio Gramsci. O mesmo

acontece com autores que discutem mais especificamente a organização do conteúdo escolar, tais como Dermeval Saviani – cujo nome foi muito importante para a teoria curricular crítica, inscrita no amplo contexto das teorias educacionais críticas, na década de oitenta e início da década de noventa, conforme referimos no segundo capítulo – que estão completamente ausentes do horizonte das pesquisas do período. Esses dados comprovam que, de fato, atualmente há uma mudança epistemológica em curso, nos estudos de currículo, no Brasil.