• Nenhum resultado encontrado

Os reflexos do Neo-realismo no Brasil: o Romance de 30

1.2 Do verídico ao utópico: o Neo-realismo no século XX

1.2.3 Os reflexos do Neo-realismo no Brasil: o Romance de 30

A estética realista, movimento que se manifestou em diferentes países, também ecoou no meio artístico brasileiro. Na literatura brasileira, principalmente na prosa, o Realismo manifestou-se refletindo marcas diretas do Neo-realismo, pois as obras tornaram-se instrumentos de crítica social ao comportamento burguês e às instituições da sociedade. No século XX, durante as décadas de 1930 e 1940, o romance brasileiro, colocou-se a serviço da análise crítica de nossa realidade.

Esse processo inicial, ao longo da década de vinte, acompanhando a evolução da literatura brasileira e percebendo os matizes cada vez mais ideológicos adquiridos, é o que se verifica, por exemplo, nos debates nascidos em torno da questão da nacionalidade, liderados, de um lado, por Oswald de Andrade e, de outro, por Plínio Salgado.

O quadro social, econômico e político que se verificava no Brasil e no mundo no início da década de 30 - reflexo da crise da Bolsa de Nova Iorque ocorrida em 1929;

crise cafeeira; Revolução de 30; Segunda Guerra Mundial (1939-45) – exigiu dos artistas e intelectuais da época uma tomada de posição ideológica, o que resultou em uma “arte engajada”, de clara militância política, como em muitos romances de Jorge Amado, ou de engajamento espiritual, como nas obras de Jorge Lima e Murilo Mendes.

(CEREJA E MAGALHÃES, 2000)

Baseando-se na ideia geral da estética realista, que é reproduzir a realidade, os escritores neo-realistas brasileiros deram maior atenção à caracterização da personagem e à descrição de sua vida, do que à organização da trama em si. Coutinho (1997) afirma existirem, dentro do princípio geral do Realismo, algumas modalidades de padrões realistas: de caráter biográfico, social, regional, ambiental e psicológico. Conforme o autor, podemos afirmar que, de tais padrões, “duas direções marcaram a evolução do Realismo no Brasil: a corrente social [...] e o movimento regionalista” (p.17). Atraída pelos problemas sociais e pela temática urbana, a marca da corrente social é caracterizada por textos que usam de materiais comuns da vida cotidiana. Já os de movimento regionalista colocam em relevo a verdadeira saga da terra, personagem principal dessa narrativa, bem como a cor local, as durezas e melancolias da vida rural brasileira.

Esse movimento, na arte literária, denominou-se “Romance de 30” ou, segundo Cereja e Magalhães (2000), “neo-realismo brasileiro”, em função de a produção ficcional brasileira possuir inspiração nos movimentos realista e neo-realista do século XIX. O Romance de 30, iniciado entretanto a partir de 1928, consagrou-se com a publicação de A bagaceira, de José Américo de Almeida, obra que inaugurou o referido ciclo no Brasil, abordando as temáticas da seca, dos retirantes e dos engenhos. Em função do predomínio da temática rural, generalizou-se também o conceito de romance regionalista para indicar os relatos da época, apesar de alguns romances urbanos fazerem parte do mesmo período.

O Neo-realismo brasileiro teve ainda outro destaque que se trata do processo de nacionalização da língua. A evolução do linguajar português, que vinha já de longe, acentuada pelo romantismo, acabou por ser consolidada pelo estilo realista. Logo, essa visão colaborou para o desenvolvimento de um estilo de fala nativa, valorizando e interpretando a realidade nacional. O escritor brasileiro passou, portanto, a usar o

material nativo e a trabalhar com ele, não mais sentimentalizado como o romântico, marcando, assim, o território da literatura no solo nacional, conquista que o Modernismo de 1922 ratificou de vez. Entre os escritores realistas brasileiros do século XIX e XX, devemos destacar os nomes de Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa, Adolfo Caminha, Oliveira Paiva, Raul Pompéia, Lima Barreto, entre outros.

Nicola (2003) assegura que as transformações vividas pelo Brasil com a Revolução de 30 propiciaram, assim como na Itália e em Portugal, o desenvolvimento de textos caracterizados pela denúncia social, um verdadeiro documento da realidade brasileira.

Nessa busca pela identidade do homem, a temática regionalista ganhou uma importância até então não alcançada na literatura do país, levando ao extremo as relações da personagem com o meio natural e social, característica esta presente nas manifestações de caráter realista. Há de se dar um destaque especial aos escritores nordestinos que vivenciaram a passagem de um Nordeste atrasado, tanto economicamente quanto socialmente, em relação ao resto do Brasil, para uma realidade um pouco menos esquecida e pobre.

Cereja e Magalhães (2000) nos lembram que a Semana de Arte Moderna de 1992 também deixou heranças nos textos de 30, pois fez brotar um período de profunda renovação na literatura brasileira. Suas produções romperam com uma forma tradicional de contar histórias e abriram caminho para uma nova forma de ler e narrar o cotidiano, fazendo uso de uma técnica calcada na linguagem cinematográfica, na sobreposição de gêneros narrativos, na síntese, na paródia e na mistura de gêneros.

De acordo com os referidos autores (p. 405), “os romancistas de 30, embora não pretendessem se manter na linha do experimentalismo estético das correntes de vanguarda, consideravam irreversíveis muitas das conquistas dos primeiros modernistas”. A recorrência por temas nacionais, a busca pela linguagem mais brasileira e o interesse pela vida cotidiana continuavam a ser empregados pelos autores de 30.

Esses se mostraram mais amadurecidos do que os de 1922, pois enfocavam os fatos mais diretamente, marcando de forma acentuada o Realismo do século XIX, usando, muitas vezes, de um caráter documental e cientificista.

Dentre as características comuns entre a estética neo-realista, que procura focar os problemas sociais, e os romances de 30, destacam-se a verossimilhança para com a realidade deflagrada, o retrato direto da realidade em seus elementos históricos e sociais, a linearidade narrativa, a tipificação social (indivíduos que representam classes sociais) e a construção ficcional de um mundo que deve dar a ideia de abrangência e totalidade.

Conforme Cereja e Magalhães (2000), a veia literária do Romance de 30 passou a ser explorada por muitos autores como Amando Fontes, Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, cujas obras trouxeram temas novos, como o cangaço, o fanatismo religioso, o coronelismo, a luta pela terra e a crise dos engenhos. Não podemos deixar de citar aqui o regionalismo que também se manifestou no sul do Brasil, com a trilogia ficcional, histórica e épica O tempo e o vento, de Érico Veríssimo.

Completam Cereja e Magalhães (2000, p. 407) que “em todas essas obras, sobressai o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, pela cidade, pelos poderosos, o homem sendo devorado pelos problemas que o meio lhe impõe.”

Além do regionalismo, a década de 1930 também viu nascer outras linhas temáticas do romance. No Rio de Janeiro, surgiu o romance urbano e psicológico, representado por Marques Rebelo, Cornélio Pena e Otávio de Faria. Em Minais Gerais, desabrochou o romance poético-metafísico, de Lúcio Cardoso. No sul do país, o romance urbano e psicológico, cultivado também por Érico Verissimo, experimentou um momento de rara introspecção em Os ratos, de Dyonélio Machado.