3.2. A Comissão Camponesa da Verdade
3.2.2 Os resultados da Comissão Camponesa da Verdade
As preocupações políticas conceituais dos membros da Comissão Camponesa da Verdade, tiveram como consequências um relatório que investiu em contar as experiências de repressão e resistência dos camponeses com base na contextualização dos processos históricos, explicando especialmente o contexto de meados do século XX, quando os conflitos no campo ganharam o espaço público e assim, intensificam os debates em torno da reforma agrária e a questão da agricultura no Brasil (CCV, 2014)
O relatório mostra o processo de luta pelos direitos trabalhistas, evidenciando o descompasso entre as conquistas adquiridas pelos trabalhadores urbanos em relação aos trabalhadores do campo, inclusive no que se refere à associação em sindicatos. Ainda que o foco tenha sido os anos da ditadura civil-militar, os pesquisadores trabalharam os fatos a partir dos anos de 1948, o que nos permitiu observar as especificidades a partir de 1964.
O processo organizativo dessas lutas ganham muito importância entre aos anos de 1948 a 1964. Num primeiro momento, as lutas camponesas foram articuladas pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), com a criação de centenas de ligas camponesas no período de 1946-1948.
A partir do final dos anos 1950, outras ligas camponesas de grande importância surgiram nos estados de Pernambuco e da Paraíba. O processo político foi se complexificando a partir de múltiplas influências, sobretudo, da Igreja Católica, que passa a organizar a luta pelos direitos e pela Reforma Agrária, marcando discordâncias políticas com o PCB e com as Ligas. Contudo, em 1954, as lutas avançaram no sentido de criar uma entidade nacional, a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB). A partir daquele momento criou-se uma nova geração de Ligas Camponesas (CCV, 2015, p. 53).
É importante inscrever na memória a atuação da Igreja junto às lutas no campo. As frentes progressistas da Igreja Católica, Luterana e Metodista, tinham grande capilaridade dentre os movimentos durante a década de 1970. Elas estavam presentes nos sindicatos e nas lutas do campo, em especial a Comissão de Justiça e Paz e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). A presença da Igreja fez com que muitos (as) religiosos (as) fossem vítimas. Suas histórias, sobretudo daqueles (as) que atuaram no campo, ainda são desconhecidas.
Vale demarcar ainda a continuidade da atuação dessas entidades, especialmente no que toca à disputa em torno da luta por Memória, Verdade e Justiça. Como é o caso da CPT que formou parte na Comissão Camponesa da Verdade, e a Comissão Justiça Paz que, juntamente com outras entidades, reivindicaram que o tema dos indígenas fosse tratado pela Comissão Nacional da Verdade.
Sobre resistências e a presença de religiosos, a CCV escolheu mostrar os esforços nos âmbitos institucionais, mesmo durante a ditadura, para denunciar esse processo de violação dos Povos do Campo. Como exemplo, traz o testemunho de Dom José Brandão de Castro à CPI do Sistema Fundiário, em 1977, na qual denunciou “A estreita relação entre a violação dos direitos humanos e a expulsão das terras por meio da grilagem” (CCV, 2015). Embora denunciado em Comissões Parlamentares de Inquérito, não obtinha respostas nessa questão,
gerando um clima de impunidade que perdura até os dias atuais, visto que, ao longo de décadas, a impunidade sobre os crimes cometidos no campo é algo presente na nossa sociedade.77
No relatório, está em destaque a atuação das organizações e o processo no qual os camponeses emergiram enquanto sujeitos políticos. O período que sucedeu um importante congresso em Belo Horizonte, em 1961, foi marcado por uma ampla diversidade de formas de lutas e diversificou também o processo organizativo dos camponeses:
Associações, uniões e acampamentos do MASTER, a Ação Popular (AP), Grupos dos Onze (ligados a Brizola e ao Partido Trabalhista Brasileiro – PTB); alguns ligados ao PTB e ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), outros ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), à Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP) e ao Partido Operário Revolucionário (PORT). (CCV, 2015, p. 58).
A emergência dos camponeses como sujeitos políticos portadores de direitos despertou a organização das entidades patronais e as ações dos proprietários fundiários em associações e federações. Nesse sentido, a CCV opta por trazer as formas da reação patronal, tanto nos aspectos da repressão violenta – como tratado nos inúmeros casos de violações descritos no relatório – quanto no âmbito organizativo, tentando coibir a auto-organização dos trabalhadores (as). A Sociedade Nacional da Agricultura (SNA), que existia desde 1897, entidade mais antiga representativa dos fazendeiros, defendia a composição de um sindicato misto, que não levasse desarmonia às “classes agrícolas” e justifica-se com o argumento de que os trabalhadores rurais eram incapazes intelectual e economicamente de terem um sindicato próprio. (CCV, 2014, p. 46).
É interessante observar como a dinâmica de reação a luta dos camponeses mobilizou as classes burguesas do campo a se organizarem, dentre elas a Sociedade Rural Brasileira (SRB), as Federações das Associações Rurais dos Estados de São Paulo (Faresp), do Rio Grande do Sul (Farsul) e de Minas Gerais (Faremg), além da entidade de representação nacional, Confederação Rural Brasileira (CRB), criada em 1954. Todas elas tiveram influências determinantes na política nacional no tocante à questão agrária, inclusive, associadas a duas entidades centrais na articulação do golpe de 1964: “o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (IPES). O IBAD, criado em 1959, e o IPES, fundado em 1961, reuniam
77 Isso certamente relaciona-se com o fato de ser o Brasil, segundo o relatório da Anistia Internacional, o país que
mais extermina defensoras (es) de direitos humanos nas Américas, nos dias atuais. Cf. Brasil é país das Américas que mais mata defensores de direitos humanos. Semana On, 16 mar 2018. Disponível em: <http://www.semanaon.com.br/conteudo/7725/brasil-e-pais-das-americas-que-mais-mata-defensores-de-
a ‘elite orgânica’, especialmente empresários, alguns profissionais liberais, militares e intelectuais”. (CCV, 2015, p. 56).
Ao mesmo tempo que identificaram as instituições, no Relatório foram apresentadas as políticas agrárias que impactavam diretamente a vida dos Povos do Campo. Desde aquelas empreendidas pelo Governo Vargas (entre os anos 1930 e 1945), como a denominada Marcha para o Oeste78, e também aquelas que ocorreram durante o período militar. Tais políticas não resolviam o problema da concentração fundiária nem os conflitos em torno dessa questão. Ao contrário, geravam ainda mais conflitos em diferentes frentes e inúmeras violações dos direitos dos Povos Indígenas e de todas as comunidades que viviam no campo.
O projeto econômico da ditadura considerava que as terras, especialmente as da região Amazônica, estavam vazias e ociosas e precisavam ser produtivas. Assim, para se garantir o projeto de integração nacional, criou iniciativas como o Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste, em 1973, provocando inúmeros conflitos e acirramento das violações contra os Povos do Campo. O projeto de modernização conservadora para o campo, sob o domínio da burguesia fundiária, foi organizado no âmbito do Estado no início da década de 1980, quando a ditadura há tempos estava em crise. O Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT), criado em fevereiro de 1980, e o Grupo Executivo de Terra do Baixo Amazonas (GEBAM), de 1985, juntamente com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), criado no ano de 1970, atuaram em favor dos interesses dos fazendeiros (CCV, 2015).
A construção da Transamazônica (BR-230) e das rodovias Cuiabá – Porto Velho (BR-364) e Cuiabá-Santarém (BR-163), além de projetos de mineração e construção de hidrelétricas – como a hidrelétrica de Balbina, no estado do Amazonas e a Tucuruí, estado do Pará – a foram todos projetos que resultaram em violação de direitos de muitas populações, assim como também ocorreu na construção de Itaparica, entre os estados da Bahia e Pernambuco, e Itaipu, no estado do Paraná.
Essas contextualizações são as bases teóricas que sustentaram a CNV na argumentação sobre o conluio entre o Estado e a iniciativa privada na violação de direitos humanos. Esta, não de caráter pontual, mas por meio de uma política estratégica da ditadura.
78 A Marcha para o Oeste foi uma política criada pelo governo de Getúlio Vargas para incentivar o progresso e a
ocupação do Centro-Oeste, com a intenção de ocupar as terras centrais, tendo como pano de fundo a ideia da existência de “espaços vazios” no território brasileiro. O objetivo principal do programa era quebrar os desequilíbrios regionais e implantar uma política demográfica que incentivasse a migração, além de subsidiar a implantação da industrialização no Sudeste. A ocupação do Centro-Oeste visava também a ser uma etapa preliminar à ocupação da Amazônia.
Ressaltamos que a linguagem e a estrutura narrativa do relatório permitem uma leitura acessível na qual é possível identificar as várias dimensões do problema. Desse modo, cumpre o propósito de contar a história do ponto de vista dos camponeses, as memórias individuais são tratadas nos relatos, mas vinculadas aos processos de luta e de resistência que ocorreram naqueles anos.
Sobre o aspecto da continuidade da violência, é importante observar a continuidade de organizações e instituições patronais. Em 1985, foi criada a União Democrática Ruralista (UDR), cuja meta principal era desarticular e reprimir organizações de trabalhadores e movimentos políticos ligados à luta pela posse da terra o que militantes de direitos humanos denominaram, na época, de “pedagogia do terror” (CCV, 2015). Tratou-se de uma organização do patronato que contou com o apoio do Estado, fosse com as polícias cumprindo seu papel repressivo, fosse pela omissão do Estado em julgar seus crimes.
O trabalho da Comissão Camponesa da Verdade evidencia que no campo o Estado atuou de forma específica durante a ditadura. Chamando a atenção, por exemplo, para os agentes perpetradores das violações, os perfis das vítimas afirmando que ambos devem ser vinculados ao contexto do campo, e isso deve ser uma dimensão a ser considerada nas políticas da justiça de transição. Como é possível observar na fala de Nicinha Porto, da CONTAG,
[...] o material [Relatório da CCV] aponta, além das violações e vítimas, questões que precisam ser observadas quando o cenário é o meio rural, por exemplo, a figura de quem agia contra os camponeses. [...] Não necessariamente estava presente no ato físico da repressão, o delegado de polícia ou um policial fardado. Mas estavam presentes pistoleiros, jagunços. É esse conceito de agente do Estado que precisa ser observado. (CANES, 2014, não paginado)
Com o objetivo de atender à exigência da Comissão Nacional da Verdade acerca da identificação dos tipos de violações sofridas, a CCV confirmou que os camponeses estiveram submetidos, durante a ditadura, a diversos tipos de violências: torturas, mortes, desaparecimentos, ocultação de cadáveres, ameaças, despejos, agressões físicas, prisões, exílios (no exterior e no próprio país), destruição de bens, deslocamento forçados, entre outras.
Nesse mesmo sentido, cumpriu também a tarefa de identificar os perpetradores, buscando a responsabilização do Estado. A CCV definiu que, entre as ações repressivas, estão aquelas realizadas diretamente pelo Estado com a presença das Forças Armadas e das polícias locais, e outras cujos crimes são de participação indireta de agentes do Estado “por conivência, omissão ou conluio no andamento de processos administrativos, investigativos e criminais” (CCV, 2014a, p. 385).
Diante das adversidades para recolher informações, visto que a violência do campo não está registrada em instituições, e trabalhando também por legitimidade junto à Comissão Nacional da Verdade, a CCV identificou que a repressão no campo no período após o golpe de 1964 foi realizada por:
a) agentes do Estado; b) agentes privados e,
c) ações combinadas de agentes do Estado e agentes privados.
Em alguns lugares, a repressão foi massiva, (como em Pernambuco,) e, em outros locais, foi seletiva. Certo é que milhares foram presos, mas nem todos foram submetidos aos inquéritos policiais ou a Inquéritos Policiais Militares (CCV, 2015, p. 79)
Diante do desafio de confrontar o argumento de que os camponeses não resistiram ao Golpe de 1964, e por isso, não devem ser contemplados pelas políticas de reparação, os membros da Comissão Camponesa optaram por situar os contextos de modo geral e específico, criando uma lista para melhor ilustrar o contexto do Golpe de 1964, como transcrito abaixo:
Rio Grande do Sul: O comício em Porto Alegre, no dia 1º de abril de 1964, convocado por Brizola e pelas forças progressistas; Tentativa de articulação de resistência por Grupos dos Onze, em Passo Fundo (RS).
Pernambuco: Mobilização de 400 camponeses pelo STR de Rio Formoso (PE) que pretendiam marchar a Recife, mas se dispersaram diante da notícia da prisão de governador Miguel Arraes; A Liga Camponesa de Vitória do Santo Antão (PE) que ocupou a rádio local e fez manifestação na praça com intensão de marchar até Recife;
Gregório Bezerra mobilizou camponeses de Palmeira que entram em greve; Osias da Silva mobiliza camponeses de Ipijuca e acabou preso; Amaro Fernandes fez o mesmo em Timbaúba; Belmiro do Nascimento e Jurandir Ferreira da Silva também o fizeram em Serinhaém (PE);
Rio de Janeiro: A greve parcial dos trabalhadores, no Rio de Janeiro; algumas manifestações operárias.
Minas Gerais: Greve dos mineiros de Morro Velho, Nova Lima (MG), no dia 1º de abril de 1964 (CCV, 2015, p. 78)
Ainda poderiam ser citadas “outras movimentações e tentativas de resistência, mas, de modo geral, foram todas severamente reprimidas” (CCV, 2015, p. 79). Entendemos que ao contar a história do ponto de vista dos camponeses e valorizar os processos de lutas e resistências no campo, cumprindo uma tarefa de “escrever a história a contrapelo”, tal como definiu Walter Benjamin, a CCV demarcou sua perspectiva política no enfrentamento às normativas conceituais que embasaram os casos para então levá-los à Comissão Nacional da Verdade.
Nessa perspectiva, tendo em vista a reação patronal às mobilizações em torno da luta por direitos no campo, a CCV realiza um debate central para ampliar a ideia do Estado como responsável pelas violações de direitos humanos. Ao mostrar a especificidade da ação da ditadura no campo, o Estado aparece como violador de direitos não só quando seus agentes atuaram diretamente. Mas também, nos atos de omissão, conluio e acobertamento. Havendo, assim, uma “‘privatização da ação do Estado’, na qual o latifúndio funcionou como um braço privado antes, durante e depois da ditadura civil-militar de 1964, [que] tornam o Estado um agente violador”. (CCV, 2015, p. 15).
Norteou o relatório da Comissão Camponesa da Verdade a ideia de injustiça em relação às violações cometidas contra os camponeses e a ausência do reconhecimento dessas violações por parte dos mecanismos de reparação consolidados no país, reafirmando os camponeses como um segmento social esquecido pelo Estado nas políticas de reparação já constituídas.
Nesse sentido, a CCV convocou o conceito de memória para que as experiências camponesas fossem narradas e inscritas dentro da História do País. Isso com o intuito de quebrar a invisibilidade e inserir os camponeses no debate público sobre a questão da ditadura civil-militar e alcançar a Justiça:
Presentificar entendido como ação de trazer o passado ao presente, tendo como suporte a memória não somente como registro, ou com um fim nostálgico, mas como ação e reivindicação de justiça. Neste sentido, memória, futuro e justiça se somam (CCV, 2014, p. 17).
A Comissão Nacional da Verdade não considerou de forma completa o trabalho da Comissão Camponesa da Verdade. Apesar dos esforços descritos acima, o tema dos camponeses não ganhou junto a CNV a legitimidade necessária para romper com o alijamento dos camponeses da justiça transicional.
3.2.3. O reconhecimento (parcial) das vítimas do campo na Comissão