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1.2 A industrialização como essência do desenvolvimento econômico

1.2.1 Os retornos crescentes como um macrofenômeno

Ainda que a identificação entre progresso material e indústria seja tão antiga quanto a própria economia política e a industrialização, foi só recentemente que a teoria econômica encontrou uma formulação mais precisa das conexões que explicam essa centralidade da indústria. Foi Nicholas Kaldor, na segunda metade dos anos 1960 quem iria, recuperando diversas contribuições anteriores, colocar no centro do debate econômico o papel decisivo da indústria na explicação das grandes e persistentes diferenças nas taxas de crescimento econômico. Ao criticar o caráter excessivamente agregado dos modelos de crescimento então dominantes, e por isso incapazes de captar as propriedades diferenciadas dos diversos setores, traduziu em termos macroeconômicos os efeitos dos retornos crescentes.

Em termos bastante sintéticos, Kaldor parte da ampla evidência histórica de que

...existe uma correlação muita elevada entre a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto e a taxa de crescimento da produção manufatureira. Mais significativo ainda, observamos que quanto mais rápida a taxa global de crescimento, maior é o excesso da taxa de crescimento da produção

manufatureira sobre a taxa de crescimento da economia como um todo.7

O autor propõe duas linhas de interpretação dessa dinâmica, logicamente distintas mas histórica e empiricamente misturadas: a absorção da mão-de-obra excedente e os retornos crescentes como um macrofenômeno.

7 KALDOR (1967:8, grifo no original). Toma-se aqui como referência a publicação da segunda de suas lectures (Strategic

Factor in Economic Development) que iriam inaugurar essa perspectiva teórica. Para uma análise mais detalhada, v. MCCOMBIE & THIRLWALL (1994).

Na primeira linha, o crescimento da indústria absorve a mão-de-obra excedentária (desemprego aberto ou disfarçado) da agricultura sem prejudicar sua produção, elevando desse modo seu nível de produtividade. Esse processo corresponde a um estágio intermediário de desenvolvimento e conduz a um estado de maturidade caracterizado por uma equivalência entre os níveis de rendimento da indústria e os dos demais setores. Uma vez atingido esse estágio, a taxa de crescimento econômico tende a se desacelerar, assim como o empuxo proporcionado pela indústria ao crescimento geral da produtividade.

Essa visão estava em sintonia com o conceito de dualismo econômico que dominava boa parte da análise do subdesenvolvimento à época8 e que estava fundamentado na premissa de oferta elástica (ilimitada) de mão-de-obra no setor primário. O interessante da análise de Kaldor foi mostrar como esse processo era decisivo para explicar o sucesso dos países que atingiram o DEC, mesmo tão recentemente como nos anos 1950 e 1960, com destaque para o Milagre Japonês9. Na segunda linha, Kaldor retoma algumas das contribuições dos principais autores clássicos (Adam Smith) e neoclássicos (Alfred Marshall e Allyn Young) que não foram consideradas pela maioria dos economistas do mainstream para enfatizar a interação entre fatores estáticos e dinâmicos que explicam os retornos crescentes gerados pelo crescimento da escala das atividades industriais:

Uma maior divisão do trabalho é mais produtiva em parte porque carrega consigo o desenvolvimento de habilidades e competências, que por sua vez, levam a mais inovações e aperfeiçoamentos em design. Não podemos realmente separar os efeitos das economias de escala que são devidas a indivisibilidades de vários tipos (em princípio reversíveis) daqueles efeitos que são devidos a melhoramentos irreversíveis na tecnologia associados ao processo de expansão. O aprendizado é ele próprio um produto da experiência. Quanto mais rápido o crescimento do investimento e do produto, mais rápida a taxa de crescimento da produtividade originada do processo de aprender-fazendo (KALDOR 1967:13/14).

Kaldor dá um passo a mais ao caracterizar os retornos crescentes como um macrofenômeno, isto é, um processo que não pode ser plenamente captado no plano microeconômico de setores ou

8 Para uma análise desse conceito, surgido a partir da contribuição do Nobel Sir William Arthur Lewis em meados dos anos

1950, V. THORBECKE (2006:3 e ss.).

9 MCCOMBIE & THIRLWALL (1994:222) indicam que essa contribuição pode ter sido responsável por até 30% do

crescimento dos PDs no longo boom do pós-guerra. À guisa de ilustração, BIRD (2008b:61) estima que a produtividade do trabalho nas cidades é de três a seis vez maior do que nas áreas rurais.

firmas isolados10. Muito das economias de escala se deve à ampliação da diferenciação, a novos processos e a novas indústrias auxiliares que acompanham o crescimento geral da indústria. É esse todo inter-relacionado que propicia uma dinâmica de desenvolvimento produtivo que supera em muito a soma de suas partes.

Essa é sua explicação para a forte correlação observada entre o crescimento da produtividade e o crescimento do produto, a chamada Lei de Verdoorn que parte da constatação robusta de que cada ponto percentual de crescimento do produto pode ser decomposto em meio ponto de crescimento da produtividade e outro meio ponto de ampliação do emprego. Associada fortemente ao setor secundário mas de um modo geral não significativa no primário e no terciário, essa Lei foi reinterpretada por Kaldor em termos dinâmicos: “é uma relação dinâmica que diz respeito a taxas de mudança da produtividade e do produto, mais do que uma relação estática relativa ao nível de produtividade e à escala de produção” (KALDOR 1967:15, grifos no original). Com esses elementos, é possível propor um modelo de crescimento cumulativo, isto é, uma dinâmica de crescimento da produção e da produtividade que se auto-alimentam indefinidamente. Além da continuidade dos retornos crescentes, é necessária mais uma condição, a saber, que a elasticidade-preço dos produtos que lideram a expansão seja maior do que a unidade. No exemplo de MCCOMBIE & THIRLWALL (1994:174):

... um acréscimo na demanda para o produto X pode tornar mais rentável o uso de mais maquinário em sua produção, o que reduz tanto o custo de X quanto o custo do maquinário, o que torna o uso do maquinário rentável em outras indústrias e assim por diante... proporcionalmente mais é comprado à medida que seu valor de troca cai, e então, proporcionalmente, mais é ofertado ao mercado (num modelo de demanda recíproca).

Essa é a essência do círculo virtuoso do DEC do ponto de vista macroeconômico. Como discutido antes no plano microeconômico, os limites são indefinidos, porque a indústria é o locus central da inovação que expande continuamente tanto o potencial para retornos crescentes quanto a elasticidade da demanda, que é recorrentemente orientada a novos produtos. Estudos posteriores confirmaram empiricamente esses fatos estilizados, que passaram a ser conhecidos como as Leis de Crescimento de Kaldor, válidas tanto para o pós-guerra quanto para o período posterior a 1973. O arcabouço se mostrou adequado para explicar a desaceleração econômica nesse período em que o amadurecimento das economias centrais já havia praticamente se

10 FAJNZYLBER (1983:Cap. V) propõe um novo conceito de eficiência econômica que privilegia justamente a combinação

completado dado que a transferência de empregos para a indústria havia se tornado liquidamente negativa em vários países11.

Desde que Kaldor jogou luz sobre a contribuição de Verdoorn, uma controvérsia se estabeleceu sobre a validade empírica de suas proposições. Não faltaram esforços para negar essa validade, entretanto:

Apesar das diversas tentativas de testar esses pressupostos ou de especificar modelos alternativos, não se chegou a nenhum acordo geral sobre a seriedade dessas várias críticas... é fato que permanece uma boa parte da Segunda Lei de Kaldor (como a Lei de Verdoorn também é às vezes chamada). (MCCOMBIE & THIRLWALL 1994:167)

Mais recentemente, essa abordagem se viu amplamente confirmada para os PEDs:

Este trabalho ofereceu uma interpretação Kaldoriana para os padrões de crescimento da produtividade ao nível setorial da economia ... baseado em um conjunto de dados históricos de trinta países em desenvolvimento. Tanto para estimativas lineares quanto não-lineares, os dados estatísticos mostram relações robustamente positivas entre a taxa de crescimento do emprego e a taxa de crescimento da produção... sugerindo um forte apoio à Lei de Verdoorn nos países em

desenvolvimento e, portanto, de um modo mais geral para os modelos de crescimento endógeno.12

Em resumo, do lado da oferta existem argumentos teóricos, comprovados de forma robusta

no plano empírico, que colocam a indústria no coração do processo de DEC. Passando do

plano micro para o macroeconômico, as características de elasticidade e de reciprocidade da

demanda industrial (inclusive intra-industrial) no interior das mais diversas economias

nacionais completam esse arcabouço teórico. Mas uma abordagem ricardiana poderia insistir no argumento da especialização e questionar os benefícios, não da industrialização em si, mas da diversificação industrial para cada país individualmente considerado. Isso remete ao próximo ponto de discussão: a importância da indústria em economias abertas.